O colapso da gigante do dendê que espalhou guerra e dívidas bilionárias na Amazônia

A promessa era de um futuro verde, com combustíveis limpos brotando do solo paraense para iluminar o Norte do Brasil. No entanto, o que se vê hoje nos campos da Brasil BioFuels (BBF) é o retrato de um império em ruínas. A empresa que nasceu em 2008 com a missão ambiciosa de descarbonizar a região e faturar bilhões, agora enfrenta um abismo financeiro e uma crise humanitária que a transformou no pivô da sangrenta “Guerra do Dendê”.

Entre 2025 e 2026, a máscara da bioeconomia sustentável caiu, revelando um rastro de dívidas bilionárias e conflitos armados. O cenário é crítico para quem depende da gigante: o risco de um apagão energético paira sobre 140 mil pessoas em comunidades isoladas do Acre, Rondônia e Amazonas, que dependem das usinas da companhia para ter luz em casa. Enquanto a caixa seca, a tensão no campo atinge níveis insustentáveis.

O abismo financeiro e o fantasma da falência

A saúde econômica da BBF entrou em estágio terminal. Com um passivo declarado de R$ 1,26 bilhão, a empresa viu seu castelo de cartas balançar quando a Justiça do Pará chegou a decretar sua falência em agosto de 2025. Embora uma liminar tenha suspendido a decisão, o grupo precisou recorrer à Recuperação Judicial para ganhar fôlego contra credores e tentar reorganizar um prejuízo que ultrapassou os R$ 518 milhões em apenas nove meses.

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A crise não ficou restrita às planilhas. Quase três mil trabalhadores perderam seus empregos em uma onda de demissões em massa, reduzindo a força de trabalho da companhia para menos de um terço do que era originalmente. A ineficiência operacional também levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a cassar concessões de usinas em Roraima e no Pará, deixando claro que o modelo de gestão da BBF perdeu a confiança das autoridades reguladoras.

Milícias e tortura no coração da floresta

Para além dos números vermelhos, o lado mais sombrio da derrocada da BBF acontece nos municípios de Acará e Tomé-Açu. Ali, o avanço das plantações de palma estrangulou os territórios dos povos indígenas Tembé, Turiuara e Pitauã, além de comunidades quilombolas como Nova Betel. O que deveria ser agricultura transformou-se em um campo de batalha, onde seguranças privados são acusados de agir como milícias ostensivas contra quem vive naquelas terras há gerações.

Relatos aterrorizantes chegaram ao Ministério Público do Pará (MPPA), que pediu a prisão preventiva do acionista Eduardo Schimmelpfeng e de chefes de segurança. As denúncias incluem sessões de tortura com uso de cassetetes e spray de pimenta, além de valas cavadas para impedir o direito de ir e vir dos moradores. Famílias inteiras vivem “ilhadas” por um cinturão de dendê, sem acesso a água limpa devido ao despejo de resíduos poluentes, como a tiborna, nos rios locais.

A estratégia da criminalização e o isolamento bancário

A defesa da BBF sustenta uma narrativa oposta. A empresa alega ser vítima de crime organizado e afirma que suas fazendas sofrem invasões constantes e roubo de frutos em larga escala. Para se proteger, a companhia adotou uma tática de “guerra jurídica”, registrando mais de 750 boletins de ocorrência contra lideranças indígenas e quilombolas. Para o Ministério Público Federal (MPF), essa é uma tentativa clara de criminalizar movimentos sociais e deslegitimar lutas territoriais históricas.

O colapso da gigante do dendê e a crise na Amazônia

Contudo, o mercado financeiro parece ter feito sua escolha. Seguindo recomendações do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), gigantes como o BNDES, Banco da Amazônia e Itaú fecharam as torneiras de crédito para a empresa. Sem financiamento e sob pressão internacional por violações de direitos humanos, a BBF viu sua capacidade de operação paralisar, provando que, na Amazônia de hoje, o lucro que ignora a vida humana não encontra mais sustentação.

O futuro da bioeconomia em xeque

O caso da BBF deixa uma lição amarga sobre os limites da exploração industrial na maior floresta tropical do mundo. A transformação da palma em energia, que no papel soava como a redenção econômica da região, tornou-se um símbolo de como o desrespeito às salvaguardas sociais pode implodir até os negócios mais lucrativos. A solução para a crise agora depende de uma reestruturação que vai muito além de pagar dívidas: é preciso pacificar o campo e devolver a dignidade aos povos da floresta.

O destino dessas terras e das milhares de famílias que dependem da energia gerada pela empresa permanece incerto. O que se sabe é que a “Era do Dendê” a qualquer custo chegou ao fim, e o mercado agora exige que a sustentabilidade seja real, e não apenas um selo em um relatório anual. O desfecho desta recuperação judicial determinará se a Amazônia seguirá sendo palco de exploração predatória ou se aprenderá a integrar desenvolvimento com justiça social.