
A cidade portuária de Santa Marta, na Colômbia, conhecida historicamente por suas exportações de carvão, está prestes a se tornar o epicentro de uma mudança global sem precedentes. Entre os dias 28 e 29 de abril de 2026, o governo colombiano, em parceria com os Países Baixos, reunirá uma coalizão de nações decididas a fazer o que as grandes conferências da ONU muitas vezes adiam: traçar um plano concreto e financiado para o fim definitivo do uso de petróleo, gás e carvão.
Este encontro não é apenas mais uma reunião diplomática, mas sim o nascimento da chamada coalizão dos dispostos. O evento surge como uma resposta direta às lacunas deixadas pela COP30 em Belém, onde, apesar dos avanços, não se estabeleceu um cronograma vinculante para a eliminação dos fósseis. Em Santa Marta, o foco sai das promessas abstratas e entra na materialidade econômica de como as comunidades que hoje dependem da extração podem sobreviver e prosperar em uma nova economia verde.
O fim de uma era e o nascimento de um tratado
A grande expectativa do encontro é o impulso para o Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis. A ideia é inspirada em acordos históricos que baniram minas terrestres e armas nucleares, criando regras globais que os mercados e governos não podem ignorar. Países como Vanuatu, Tuvalu e o bloco das ilhas do Pacífico, que já enfrentam o desaparecimento de seus territórios pelo aumento do nível do mar, lideram essa pressão por um mecanismo que interrompa novas explorações imediatamente.
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Para a Amazônia e o Brasil, o debate é vital. O estudo que será apresentado na conferência, elaborado por organizações como o Observatório do Clima e o think-tank IISD, mostra que a transição não pode ser um choque de mercado desordenado. Se o declínio dos fósseis não for planejado, o risco é a criação de ativos encalhados e o empobrecimento de regiões extrativistas. A proposta em Santa Marta inclui a criação de um Fundo Global de Transição Justa para apoiar trabalhadores e garantir que o Sul Global não arque sozinho com a conta da descarbonização.
Geopolítica do petróleo em tempos de guerra
O contexto da conferência é atravessado por tensões extremas. Os conflitos militares recentes no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, causaram uma volatilidade severa nos preços do barril de petróleo em 2025 e início de 2026. Esse cenário reforçou o argumento da ministra do Ambiente da Colômbia, Irene Vélez: a dependência de combustíveis fósseis não é apenas um risco ambiental, mas um vetor de instabilidade econômica e insegurança geopolítica global.
Até o momento, 45 países confirmaram presença em Santa Marta, incluindo produtores europeus e nações sul-americanas. A estratégia é isolar o negacionismo climático, personificado por figuras como Donald Trump, e avançar com um bloco de alta ambição. O objetivo é mostrar que a ciência não pode mais ser negligenciada e que o método de combustão para gerar energia tornou-se obsoleto, fadado ao sepultamento pela inovação e pela necessidade de sobrevivência humana.
O desafio de não deixar ninguém para trás
Um dos pilares da conferência é a libertação econômica. Muitas nações do Sul Global continuam presas à lógica extrativa porque precisam pagar dívidas externas impagáveis. A proposta de Santa Marta sugere mecanismos de alívio de dívida em troca de conservação e transição energética. Sem isso, países africanos e latino-americanos são forçados a perfurar seus solos e florestas para manter a solvência financeira, um ciclo que a conferência pretende quebrar.
A transição justa significa que o mineiro de carvão e o trabalhador das plataformas de petróleo precisam de novos caminhos. O treinamento profissional, a compensação justa e a integração de comunidades indígenas nos processos de decisão são exigências centrais. A meta é evitar que o novo ciclo de energia limpa reproduza os velhos padrões de concentração de riqueza e sacrifício de territórios vulneráveis, transformando a descarbonização em uma oportunidade real de igualdade social.
Uma janela estreita para a ação climática
Especialistas alertam que a janela política de 2026 é estreita. O que for decidido ou adiado em Santa Marta terá reflexos diretos na capacidade do planeta em limitar o aquecimento a 1,5°C. A conferência será seguida por um segundo encontro em Tuvalu, no Pacífico, consolidando um roteiro que opera paralelamente à UNFCCC, mas com agilidade para contornar bloqueios de indústrias poluentes. É o teste de maturidade do sistema internacional diante de uma pergunta brutal: o planeta vai planejar o fim da era fóssil ou esperar que o caos o faça?
Enquanto os termômetros marcam recordes de calor na Índia e o gelo do Ártico atinge níveis mínimos históricos pelo segundo ano consecutivo em 2026, a resposta de Santa Marta precisa ser rápida. O evento coloca a coragem política e o compromisso financeiro acima da linguagem diplomática sofisticada. A esperança agora reside na união de governos, movimentos sociais e povos tradicionais para garantir que a transição seja rápida, justa e, acima de tudo, financiada por quem historicamente mais poluiu.




