Preguiças ganham proteção internacional contra o comércio ilegal


A ampliação da proteção internacional às preguiças-de-dois-dedos marca um novo capítulo na defesa da fauna silvestre e reforça o papel do Brasil como protagonista em acordos globais de conservação. A decisão, tomada durante a 20ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites), reflete uma preocupação crescente com o avanço do tráfico de animais e com as múltiplas pressões que ameaçam espécies emblemáticas das florestas tropicais.

Foto: World Animal Protection

Ao mesmo tempo em que o comércio internacional passa a ser mais rigidamente controlado, experiências locais de resgate, reabilitação e educação ambiental mostram como a proteção da preguiça depende de uma combinação de políticas públicas, fiscalização, ciência e conscientização social.

Um novo patamar de proteção no comércio internacional

As duas espécies de preguiças-de-dois-dedos — Choloepus hoffmanni e Choloepus didactylus — foram incluídas no Anexo II da Cites, acordo internacional que regula o comércio de espécies da fauna e flora ameaçadas. A medida foi aprovada por consenso durante a COP20, realizada em Samarcanda, no Uzbequistão, e passa a valer a partir de março de 2026.

Com a inclusão, qualquer transação internacional envolvendo essas espécies passa a exigir comprovação de origem legal e sustentável, além de autorizações específicas. O objetivo não é proibir completamente o comércio, mas impedir que ele cresça de forma descontrolada a ponto de comprometer a sobrevivência das populações na natureza.

A proposta foi apresentada pelo Brasil em parceria com Costa Rica e Panamá, países que compartilham populações dessas espécies e desafios semelhantes. A decisão fortalece o papel do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), autoridade administrativa da Cites no Brasil, responsável por monitorar, autorizar e fiscalizar qualquer movimentação internacional de fauna silvestre.

Tráfico, turismo e novas ameaças invisíveis

Embora associadas à imagem de tranquilidade e vida lenta, as preguiças estão longe de viver em segurança. O aumento da demanda por esses animais como pets exóticos, atrações turísticas para fotos e até presença em cafés com animais tem alimentado redes de tráfico que atuam principalmente sobre filhotes e juvenis.

Esse tipo de exploração tem impacto direto na dinâmica populacional das espécies, já que a retirada dos indivíduos mais jovens compromete a capacidade de reposição natural. Somam-se a isso ameaças estruturais como o desmatamento, as queimadas e a fragmentação dos habitats florestais.

A Choloepus hoffmanni, por exemplo, é considerada quase ameaçada no Brasil e já aparece como ameaçada em países da América Central. A inclusão da Choloepus didactylus no mesmo anexo ocorreu pelo critério de semelhança, já que as duas espécies são visualmente muito parecidas, o que dificulta a fiscalização e favorece fraudes no comércio.

O Brasil e uma tradição legal de proteção da fauna

No plano nacional, a decisão internacional dialoga com uma longa trajetória de proteção legal à fauna silvestre. Desde 1967, o Brasil conta com a Lei de Fauna (Lei nº 5.197), que estabelece restrições claras à captura, comercialização e manutenção de animais silvestres na natureza.

Mais recentemente, a atuação integrada entre órgãos ambientais, forças de segurança e centros de triagem tem sido essencial para enfrentar tanto o tráfico quanto os impactos da urbanização acelerada. Instituições como o Ibama e órgãos estaduais desempenham papel central nesse esforço, seja por meio de fiscalização, seja por ações educativas e de reabilitação da fauna.

A ampliação da proteção internacional às preguiças reforça esse arcabouço e cria novas ferramentas para coibir crimes que ultrapassam fronteiras nacionais.

 Foto: World Animal Protection
Foto: World Animal Protection

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Resgates, reabilitação e o desafio de devolver a preguiça à floresta

No cotidiano da conservação, o trabalho de resgate e cuidado com preguiças revela o quanto esses animais são vulneráveis fora de seu ambiente natural. Em Alagoas, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA-AL), em parceria com o Ibama, atua no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), onde preguiças vítimas de choques elétricos, quedas, caça e tráfico recebem atendimento especializado.

O desmatamento e as queimadas empurram esses animais para áreas urbanas, onde fios de alta tensão se tornam armadilhas fatais. Mesmo quando sobrevivem ao choque elétrico, muitos chegam aos centros com ferimentos graves, amputações ou quadros de estresse extremo que dificultam a recuperação.

Veterinários e biólogos destacam que a preguiça é um dos animais mais sensíveis ao cativeiro. Seu metabolismo lento, dieta altamente específica e comportamento adaptado às copas das árvores fazem com que o estresse leve rapidamente à queda de imunidade e, em muitos casos, à morte.

Quando a reabilitação é possível, a soltura exige critérios rigorosos: áreas com floresta contínua, presença de outros indivíduos da espécie e oferta adequada de alimento. Cada retorno à natureza representa uma vitória silenciosa da conservação.

Um símbolo que precisa permanecer na floresta

A decisão da Cites, somada às ações nacionais de resgate e fiscalização, aponta para uma compreensão mais ampla: proteger a preguiça é proteger a floresta como um todo. Além de carismáticas, essas espécies cumprem funções ecológicas importantes, como a dispersão de sementes e o equilíbrio dos ecossistemas.

O desafio agora é transformar avanços legais e diplomáticos em resultados concretos no território. Isso passa por fortalecer a fiscalização, investir em educação ambiental, reduzir o desmatamento e combater a cultura que ainda enxerga animais silvestres como mercadorias ou entretenimento.

Como repetem os profissionais que lidam diariamente com esses animais, a mensagem é simples e definitiva: lugar de preguiça é dentro da floresta.