A ciência brasileira está redefinindo a relação entre floresta e produção. Depois de oito décadas de pesquisa iniciadas ainda no Instituto Agronômico do Norte, o país entra em uma era de “tecnologia viva”, na qual sensores, algoritmos e dados biológicos transformam ecossistemas em ativos sustentáveis. O resultado é uma nova economia que protege a biodiversidade enquanto gera renda para comunidades tradicionais e agricultores familiares.
Esses avanços mostram que a fronteira entre preservação e produtividade deixou de ser um dilema. Hoje, ela é mediada por inteligência artificial, Internet das Coisas e bancos genéticos, capazes de converter informação ecológica em eficiência econômica.
A seguir, você conhece cinco inovações que já estão redesenhando o futuro da Amazônia e do Cerrado.
Inteligência artificial que entende o comportamento do pirarucu
Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura em parceria com a UFMG desenvolveram um sistema inédito de inteligência artificial para monitorar o pirarucu (Arapaima gigas). Por ser um peixe de respiração aérea obrigatória, ele precisa subir regularmente à superfície, o que permitiu o uso de redes neurais profundas para identificar cada movimento.
Com o software DeepLabCut, o sistema reconhece padrões de comportamento associados ao cuidado parental, quando o casal permanece em áreas específicas para proteger os filhotes. Essa leitura automática elimina a subjetividade da observação humana e gera planilhas com horários e coordenadas exatas das aparições.
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O impacto prático é direto na produção. O manejo se torna mais preciso, reduz a perda de alevinos e diminui o estresse dos animais. No futuro, a tecnologia poderá estimar a biomassa apenas por imagens, ajustando a engorda sem necessidade de capturas frequentes.
Bioeconomia aplicada com investimento milionário no Coopera+ Amazônia
Lançado durante a COP30, o programa Coopera+ Amazônia marca um novo patamar para cadeias produtivas como açaí, castanha, babaçu e cupuaçu. O aporte financeiro soma cerca de R$ 107 milhões, sendo a maior parte proveniente do Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES, com apoio do Sebrae.
Mais de 3.500 famílias extrativistas são beneficiadas diretamente. O foco não é apenas produção, mas inovação gerencial, abertura de mercados e rastreabilidade dos produtos. Um dos diferenciais é a atuação dos Agentes Locais de Inovação para Cooperativas, que acompanham 50 cooperativas em cinco estados da Amazônia Legal.
Ao integrar tecnologia e organização social, o programa reduz a penosidade do trabalho extrativista e cria condições para manter a floresta em pé com geração de renda contínua.
Bancos de germoplasma que funcionam como seguro genético

A Embrapa Cerrados administra 12 bancos de germoplasma e cerca de 40 programas de melhoramento genético. Esses bancos atuam como uma apólice de seguro contra a erosão genética causada por mudanças climáticas, pragas e perda de habitat.
Um dos destaques é o banco ativo de maracujá, conhecido como “Flor da Paixão”, que reúne quase duzentos acessos do gênero Passiflora. Como o Brasil é o centro de maior diversidade desse grupo, preservar esse material é estratégico para criar cultivares mais resistentes a doenças.
O Cerrado também se consolida como centro de dispersão de pitayas e abriga bancos de pequi, incluindo a subespécie conhecida como pequi-anão. Essa variabilidade genética permite desenvolver sistemas agrícolas mais resilientes e adaptados ao clima do Centro-Norte.
Agricultura 4.0 quando o açaí indica a própria necessidade de água
A expansão da conectividade rural impulsionou a Agricultura 4.0 na Amazônia. Em pouco mais de uma década, o acesso à internet em áreas rurais cresceu de forma exponencial, criando condições para o uso da Internet das Coisas no campo.
Na região de Belém, a Embrapa Amazônia Oriental utiliza microssensores em açaizais de terra firme para medir a necessidade hídrica de cada planta. Os dados são enviados em tempo real para a nuvem, onde algoritmos desenvolvidos pela Embrapa Informática Agropecuária analisam as informações.
O sistema aciona automaticamente dispositivos de irrigação apenas quando necessário. Isso reduz o desperdício de água e aumenta a produtividade, criando um modelo de gestão agrícola baseado em evidências e não em estimativas visuais.
Biorreator em grânulo e a virada na produção de biopesticidas

Uma inovação da Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Unesp está mudando a forma de produzir o fungo Trichoderma asperelloides, usado no controle biológico de pragas. Em vez de grãos inteiros de arroz, o processo utiliza farinha de arroz quebrado, um subproduto agroindustrial de baixo custo.
O resultado é o chamado biorreator em grânulo, que evita resíduos e promove a economia circular. O bioproduto combate com eficiência o fungo causador do mofo branco, que afeta culturas como soja, feijão e tomate.
Os grânulos funcionam como sementes biológicas, liberando o microrganismo gradualmente no solo. A estabilidade pode chegar a dois anos sob refrigeração, o que facilita o transporte e amplia a competitividade frente aos fungicidas químicos.
Um novo ciclo científico para a Amazônia e o Cerrado
O Brasil entra agora em um novo ciclo de pesquisa agroambiental, orientado por métricas rigorosas de sustentabilidade, rastreabilidade e transparência. O mercado global exige produtos associados a valores socioambientais claros, desde a origem na floresta até o consumidor final.
A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de produção e passa a ser o alicerce de uma bioeconomia de alto valor agregado. Dados genéticos, imagens e sensores se transformam em instrumentos de conservação ativa.
O desafio que se impõe é coletivo. Como as escolhas de consumo podem acelerar a adoção dessas tecnologias e fortalecer uma economia que mantém a biodiversidade viva e financeiramente viável é uma pergunta que conecta ciência, mercado e sociedade.






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