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Como a onça pintada marca território com as garras e ajuda cientistas a monitorar a floresta amazônica

Na vastidão da floresta amazônica, onde a visibilidade é muitas vezes limitada a poucos metros pela densa vegetação, os animais desenvolveram sistemas complexos de comunicação. A onça-pintada (Panthera onca), o maior felino das Américas, não é exceção. Ao caminhar por trilhas na mata, é possível encontrar troncos de árvores arranhados com marcas profundas e verticais. Para o observador comum, podem parecer apenas danos na casca. Para os cientistas, no entanto, essas marcas são “cartões de visita” repletos de informações essenciais sobre a população de onças que habita a região. Elas funcionam como um sistema de monitoramento não invasivo que revela quem vive ali, sem a necessidade de capturar ou estressar os animais.

Este comportamento, conhecido como arranhadura territorial, é uma forma de comunicação visual e olfativa. Quando uma onça arranha uma árvore, ela não está apenas afiando suas garras. Ela deixa uma marca visual clara de sua presença e, mais importante, libera substâncias químicas de glândulas odoríferas localizadas nas almofadas de suas patas. Esse “cheiro de onça” persiste por dias, informando outros felinos sobre sua identidade, sexo, status reprodutivo e a data aproximada da sua passagem. Pesquisas indicam que, em áreas com alta densidade de onças, os machos tendem a arranhar com mais frequência e em árvores maiores, como forma de demarcar seu domínio e evitar confrontos diretos com rivais.

Transformando arranhões em dados populacionais

A metodologia utilizada pelos biólogos para transformar essas marcas em contagens populacionais é fascinante e exige paciência. Pesquisadores brasileiros, como os do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), que realizam trabalhos pioneiros na Amazônia, utilizam trilhas pré-existentes ou criam transectos para buscar essas marcas. Eles registram a localização georreferenciada de cada árvore marcada, a altura e a profundidade dos arranhões, e coletam amostras de DNA, se possível, que podem ser encontradas na casca ou nos pelos que às vezes ficam presos. Essa busca meticulosa fornece uma base para estimar a área de vida de diferentes indivíduos.

Entretanto, as marcas de garras sozinhas raramente são suficientes para uma contagem exata. A metodologia moderna combina o mapeamento desses arranhões territoriais com o uso intensivo de armadilhas fotográficas (câmeras-trap). Os cientistas instalam essas câmeras em locais estratégicos, frequentemente perto das árvores que foram arranhadas com mais intensidade. Como cada onça-pintada possui um padrão único de rosetas em sua pele – que funciona como uma impressão digital – as fotos permitem a identificação individual dos animais. A correlação entre a frequência de arranhões e a frequência de capturas fotográficas de indivíduos específicos valida o uso das marcas territoriais como um indicador robusto da densidade populacional.

O papel crucial da ciência brasileira na conservação

Instituições de pesquisa brasileiras estão na vanguarda do monitoramento de onças-pintadas. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), através de seus centros especializados como o CENAP (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros), coordena e apoia projetos de longa duração que utilizam essas técnicas. O monitoramento contínuo é vital porque a onça-pintada é uma espécie “guarda-chuva”. Isso significa que ao conservar as grandes áreas de floresta necessárias para manter uma população viável de onças, estamos, automaticamente, protegendo centenas de outras espécies de animais e plantas que compartilham o mesmo habitat.

Entender a dinâmica populacional das onças é fundamental para a criação de políticas públicas de sustentabilidade e conservação. Se os dados indicarem que uma população está diminuindo, isso pode sinalizar problemas mais profundos, como a redução de presas devido à caça ilegal ou a fragmentação do habitat pelo desmatamento. O monitoramento também ajuda a identificar corredores ecológicos prioritários – faixas de floresta que conectam diferentes unidades de conservação – permitindo o fluxo gênico entre populações isoladas e garantindo a saúde genética da espécie a longo prazo. A ciência feita no Brasil é, portanto, o pilar que sustenta a sobrevivência desse ícone da biodiversidade.

Tecnologia e inovação no campo do monitoramento

Nos últimos anos, a tecnologia tem se tornado uma aliada ainda mais poderosa dos biólogos que estudam as marcas territoriais das onças. O uso de drones equipados com sensores de alta resolução começa a ser testado para identificar árvores com marcas de arranhões em áreas de difícil acesso por terra. Softwares de inteligência artificial estão sendo desenvolvidos para analisar as imagens das armadilhas fotográficas com mais rapidez e precisão, identificando automaticamente os indivíduos pelas suas rosetas. Essas inovações aceleram o processo de coleta e análise de dados, permitindo que os cientistas obtenham respostas mais rápidas sobre o estado de conservação da espécie em tempo real.

Outra frente inovadora é a análise de DNA ambiental (eDNA). Em alguns casos, é possível coletar vestígios de DNA das unhas ou da pele da onça que ficam presos na casca da árvore ao redor do arranhão. Técnicas de biologia molecular permitem não apenas confirmar que o arranhão foi feito por uma onça-pintada, mas também identificar o indivíduo e seu sexo, mesmo que ele nunca tenha sido fotografado. Essa abordagem de vanguarda, combinada com o mapeamento das marcas territoriais, abre novas possibilidades para o monitoramento de felinos elusivos em florestas tropicais densas, tornando o trabalho de campo mais eficiente e menos dependente apenas da sorte de um registro fotográfico.

A importância da onça-pintada para a sustentabilidade da floresta

A preservação da onça-pintada tem implicações diretas na sustentabilidade econômica e social da região amazônica. O turismo de observação de onças-pintadas está crescendo no Brasil, especialmente no Pantanal e, gradualmente, em áreas preservadas da Amazônia. Quando comunidades locais participam e se beneficiam desse tipo de ecoturismo, a onça-pintada passa a ser vista como um ativo econômico vivo, e não como uma ameaça. Isso cria um incentivo direto para a conservação da floresta em pé, combatendo o desmatamento e a caça ilegal, alinhando o desenvolvimento regional com a preservação ambiental.

Portanto, ao decifrar as marcas territoriais da onça-pintada, não estamos apenas contando animais. Estamos lendo a saúde da própria floresta. A presença de uma população viável de onças indica que o ecossistema está equilibrado, com presas suficientes e habitat contínuo. A ciência brasileira, com sua expertise e inovação, continua a nos mostrar que os segredos da Amazônia podem ser revelados com respeito e tecnologia. Cada arranhão em uma árvore é um lembrete da força da vida selvagem e da nossa responsabilidade em protegê-la.

O maior felino das Américas nos envia mensagens silenciosas através da madeira. Cabe a nós, com a ajuda da ciência e de um compromisso genuíno com a sustentabilidade, aprender a lê-las e agir para que essas garras continuem a marcar o futuro da floresta.

Ameaças e a necessidade de proteção | Apesar de sua importância cultural e ecológica, a onça-pintada é classificada como “Quase Ameaçada” globalmente pela IUCN e “Vulnerável” no Brasil. As principais ameaças são a perda e fragmentação de habitat causadas pelo desmatamento para agropecuária e infraestrutura, e a caça por retaliação devido a conflitos com a pecuária. O IBAMA atua na fiscalização e no combate ao tráfico, enquanto ONGs e pesquisadores desenvolvem estratégias de convivência harmônica entre humanos e felinos, essenciais para a conservação a longo prazo.

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