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A desigualdade histórica da América Latina e do Caribe voltou ao centro do debate nesta semana, em Brasília. Durante a VI Conferência Regional sobre Desenvolvimento Social da América Latina e do Caribe, especialistas, governos e organizações internacionais discutiram caminhos para enfrentar a pobreza e a fome que ainda afetam milhões de pessoas na região.
O encontro é promovido pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), em parceria com o governo do Brasil e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A reunião também serve como preparação para a Segunda Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, que acontecerá em Doha, no Catar, em novembro, três décadas após a primeira edição realizada em Copenhague, em 1995.
Segundo estudo da Cepal apresentado pelo diretor Alberto Arenas de Mesa, a região precisará investir de 1,5% a 2,5% do Produto Interno Bruto, ou entre 5% e 10% do gasto público anual, em políticas de proteção social não contributiva. O argumento é que, sem um padrão mínimo de investimento, a erradicação da pobreza pode demorar mais de 30 anos.
Para Arenas, da mesma forma que já existem parâmetros globais para investimentos em saúde ou educação, é urgente definir um marco para gastos sociais voltados à proteção dos mais vulneráveis.
O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Wellington Dias, destacou os avanços recentes do Brasil. Ele anunciou que o país deixou novamente o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em julho, resultado de programas como o Plano Brasil sem Fome.
Segundo o ministro, medidas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), o benefício estudantil Pé-de-Meia, a Tarifa Social de Energia Elétrica e o Auxílio Gás ajudaram a garantir segurança alimentar e proteção social a milhões de famílias.
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“Foi como tirar da fome um Maracanã por dia, cerca de 60 mil pessoas. Em pouco mais de dois anos, 29,4 milhões saíram da fome e 10 milhões deixaram a extrema pobreza”, declarou Dias.
A conferência também abordou os desafios geopolíticos. Para o secretário-executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, o contexto atual — marcado por mudanças tecnológicas, demográficas, ambientais e geoeconômicas — exige repensar os paradigmas de desenvolvimento.
Representando o Chile, a ministra de Desenvolvimento Social e Família, Javiera Toro, lembrou que o avanço do unilateralismo fragiliza alianças e ameaça direitos. Ela defendeu a valorização da cooperação Sul-Sul e a integração regional como ferramentas para enfrentar crises como a desigualdade, a estagnação econômica e a emergência climática.
A coordenadora residente da ONU no Brasil, Silvia Rucks, reforçou a importância do diálogo entre países, citando o secretário-geral António Guterres: “A única maneira de avançar é pensar no coletivo”.
Wellington Dias também destacou a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza lançada pelo Brasil no âmbito do G20. A iniciativa já reúne 197 membros e busca mobilizar recursos e experiências para implementar programas eficazes de combate à pobreza.
“O primeiro passo é político: é preciso coragem para colocar os mais pobres no orçamento”, afirmou o ministro, ressaltando que a aliança já apoia projetos de grande escala em menos de um ano de existência.
A presidência rotativa da Conferência Regional, agora sob liderança do Brasil até 2027, reforça o protagonismo do país na agenda social internacional. A expectativa é que os debates de Brasília ajudem a consolidar um pacto mundial pelo desenvolvimento social inclusivo na cúpula de Doha.
Em meio a crises múltiplas — da desigualdade à crise climática —, a América Latina e o Caribe apresentam ao mundo uma mensagem clara: erradicar a fome e a pobreza não é apenas uma meta, mas um compromisso ético e político que exige cooperação global e investimentos consistentes.
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