Nos Estados Unidos, congresso se divide sobre projeto para enfrentar incêndios


Incêndios unem o Congresso dos EUA, mas dividem estratégias

O avanço dos incêndios florestais nos Estados Unidos já não é tema de disputa partidária quando se trata de reconhecer a gravidade do problema. Democratas e republicanos concordam que as chamas que consomem florestas e ameaçam cidades exigem resposta federal robusta. A divergência começa quando se discute como agir.

Foto: BENJAMIN HANSON/Middle East Images/AFP via Getty Images

Em audiência recente na Câmara dos Representantes, parlamentares confrontaram visões opostas sobre o chamado Fix Our Forests Act, projeto que promete acelerar ações de manejo florestal para reduzir o risco de incêndios catastróficos. A proposta foi aprovada na Câmara em 2025 com apoio bipartidário, mas enfrenta questionamentos no Senado e resistência de organizações ambientais.

Para seus defensores, o projeto representa uma correção de rota diante de décadas de burocracia. Para seus críticos, trata-se de uma flexibilização perigosa das salvaguardas ambientais, com benefícios duvidosos para as comunidades que vivem na linha de frente do fogo.

Flexibilização ambiental e expansão do manejo

O ponto central do Fix Our Forests Act é ampliar a possibilidade de dispensar revisões previstas em leis como o Endangered Species Act e o National Environmental Policy Act. Atualmente, exceções se aplicam a projetos de até 3 mil acres; o projeto elevaria esse limite para 10 mil acres, permitindo intervenções de maior escala com análise ambiental reduzida. Também restringe a capacidade do público de contestar judicialmente essas decisões.

Republicanos argumentam que as leis ambientais aprovadas na década de 1970 tornaram o manejo das florestas excessivamente lento e ineficaz. Para eles, acelerar o desbaste e a remoção de vegetação seria essencial para reduzir o combustível disponível aos incêndios cada vez mais intensos.

O debate ocorre em um contexto político mais amplo. O presidente Donald Trump já assinou ordem executiva para expandir a produção de madeira em terras públicas, mirando proteções ambientais que considera entraves. Dados do OpenSecrets mostram que o setor florestal e madeireiro historicamente contribui de forma significativa para campanhas republicanas, elemento frequentemente citado por opositores do projeto.

Democratas reconhecem que o texto inclui avanços, como a incorporação de novas tecnologias de monitoramento de incêndios. Ainda assim, alertam para a ausência de financiamento consistente e para o risco de priorizar a expansão do corte de árvores sem base científica sólida que comprove maior segurança às comunidades.

Ciência do fogo e mudança de paradigma

Pesquisadores que participaram da audiência defenderam abordagem distinta. Entre eles, especialistas em incêndios florestais argumentaram que o país tem diagnosticado o problema de forma equivocada, concentrando recursos na supressão imediata do fogo, em vez de investir na redução estrutural de riscos.

A estratégia sugerida combina dois pilares. O primeiro é fortalecer o ambiente construído, com moradias resistentes ao fogo, telhados adequados, materiais menos inflamáveis e zonas de proteção imediata ao redor das casas. O segundo é reintroduzir o fogo de baixa intensidade de forma planejada, por meio de queimadas controladas que eliminem o excesso de vegetação acumulada ao longo de décadas de supressão total.

A lógica é simples e ao mesmo tempo disruptiva: paisagens resilientes precisam de fogo. Tentar eliminá-lo completamente cria acúmulo de material combustível que, sob condições de seca extrema e ventos fortes, transforma incêndios em eventos devastadores. O foco exclusivo no corte mecânico de árvores, segundo críticos, ignora a dinâmica ecológica e a influência crescente das mudanças climáticas.

Especialistas alertam que políticas de incêndio não podem oscilar ao sabor de ciclos políticos. A intensificação das secas e dos ventos extremos está diretamente associada ao aquecimento global, ainda que o governo atual tenha reduzido a ênfase no tema em suas diretrizes federais.

Foto: Lawrence Jackson
Foto: Lawrence Jackson

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Comunidades, orçamento e caminhos alternativos

Outro ponto de tensão envolve prioridades orçamentárias. Parlamentares democratas criticaram a transferência de recursos para áreas como imigração, enquanto programas de resiliência comunitária enfrentam restrições. A pergunta recorrente na audiência foi direta: quanto custará o novo modelo, quanto economizará e quanto realmente tornará as comunidades mais seguras?

Fora do Congresso, organizações como o John Muir Project e a Green Oregon, por meio da iniciativa Fire Safe Communities, classificam o projeto como excessivamente alinhado aos interesses da indústria madeireira. Para seus representantes, os incêndios mais destrutivos dos últimos anos foram impulsionados por ventos e brasas que atingiram áreas urbanas, independentemente de tratamentos florestais realizados a quilômetros de distância.

A mensagem central desses grupos é contundente: incêndios são inevitáveis; a perda de casas não. A prioridade, defendem, deve ser tornar bairros menos vulneráveis, com infraestrutura adequada e planejamento territorial que reconheça a presença permanente do fogo no oeste americano.

Enquanto o Fix Our Forests Act avança no Senado, outras propostas bipartidárias também estão em tramitação. Uma delas, patrocinada por parlamentares democratas, busca destinar recursos diretos para preparação comunitária. Outra, apresentada pelo senador Alex Padilla, enfatiza restauração e resiliência no sistema nacional de florestas.

O impasse revela mais do que divergências técnicas. Ele expõe visões distintas sobre o papel do Estado, a importância das salvaguardas ambientais e a relação entre ciência e política. Diante de incêndios cada vez mais frequentes e intensos, a urgência é consenso. O caminho, porém, permanece em disputa.

Entre motosserras e mangueiras, entre leis ambientais e casas à prova de brasas, o debate americano sobre incêndios reflete um desafio global: adaptar-se a um clima em transformação sem abrir mão de princípios que sustentam a proteção ambiental. O fogo não espera decisões políticas. A sociedade, sim.