
Bioeconomia como estratégia de desenvolvimento amazônico
A bioeconomia parte de um princípio simples e poderoso: a floresta vale mais viva do que derrubada. Em vez de enxergar a Amazônia como fronteira de expansão predatória, o modelo propõe aproveitar sua biodiversidade de forma inteligente, aliando saberes tradicionais, ciência e inovação tecnológica.
No Estado do Amazonas, essa visão ganhou forma institucional com o Plano de Bioeconomia do Estado do Amazonas, conhecido como Plan-Bio Amazonas. A proposta é reorganizar a economia regional com base em cadeias produtivas que utilizam recursos biológicos renováveis, gerando emprego e renda com baixa emissão de carbono.
O plano estabelece metas ambiciosas. A expectativa é que a reestruturação e o fortalecimento das cadeias da floresta possam movimentar cerca de R$ 38,6 bilhões até 2050. Para alcançar esse horizonte, o projeto se apoia em quatro pilares: conservação da biodiversidade, aplicação de ciência e tecnologia, redução das desigualdades sociais e expansão de áreas florestadas biodiversas.
A estratégia se desdobra em cinco eixos: governança, carbono e internacionalização, pessoas e cultura, energia renovável e ecossistema de negócios. Não se trata apenas de estimular produção, mas de criar uma engrenagem institucional capaz de integrar comunidades, empresas, centros de pesquisa e mercados consumidores.

Açaí e cacau: renda que nasce da floresta
Entre as cadeias priorizadas pelo Plan-Bio Amazonas, o açaí e o cacau se destacam por seu impacto econômico e ambiental.
No caso do açaí, a produção na região Norte é majoritariamente extrativista. A colheita dos frutos ocorre em áreas de várzea e terra firme sem necessidade de derrubar árvores ou degradar o solo. Ao contrário, o manejo sustentável incentiva a manutenção da floresta, pois a produtividade depende diretamente da integridade do ecossistema.
Esse modelo permite que comunidades em unidades de conservação transformem o fruto em fonte constante de renda. O processamento local da polpa, a produção de versões liofilizadas e o aproveitamento de resíduos como os caroços ampliam as possibilidades econômicas. O que antes era vendido como matéria-prima passa a ser comercializado como produto com maior valor agregado.
O cacau segue lógica semelhante, especialmente quando cultivado em sistemas agroflorestais. Nessas áreas, os cacaueiros crescem sob a sombra de árvores nativas, formando mosaicos produtivos que combinam biodiversidade e agricultura. No Pará, aproximadamente 70% da produção ocorre em áreas anteriormente degradadas, convertidas em paisagens produtivas que ajudam a restaurar o equilíbrio ambiental.
Além de recuperar solos e proteger recursos hídricos, os sistemas agroflorestais contribuem para mitigar mudanças climáticas ao armazenar carbono e reduzir a pressão por desmatamento. O resultado é uma cadeia produtiva capaz de dialogar com mercados internacionais cada vez mais atentos a critérios socioambientais.
Cadeias prioritárias e diversidade produtiva
O Plan-Bio Amazonas iniciou o mapeamento de 44 cadeias produtivas e definiu 14 como prioritárias para receber investimentos e políticas públicas. Entre elas estão açaí, cupuaçu, cacau, buriti, castanha-do-Brasil, tucumã, pirarucu, guaraná, mel de abelha nativa, copaíba, andiroba, piaçava, madeira e borracha.
Essas cadeias se distribuem em três grandes grupos. A bioeconomia de commodities reúne produtos de maior escala comercial, como borracha, cacau e castanha. A bioeconomia de base florestal inclui madeira manejada e andiroba. Já a bioeconomia da sociobiodiversidade envolve cadeias fortemente vinculadas ao extrativismo comunitário, como açaí, copaíba e pirarucu de manejo.
Os produtos derivados abastecem setores variados: alimentos e bebidas, cosméticos, fitofármacos, artesanato e vestuário. Essa diversidade revela que a bioeconomia não é um nicho isolado, mas um campo transversal que conecta indústria, comércio e cultura regional.
A implementação do plano ocorre de forma descentralizada, considerando as especificidades das diferentes calhas de rios do estado. Algumas regiões priorizam maior número de cadeias, de acordo com vocações produtivas locais. Essa abordagem reconhece que a Amazônia é múltipla e que soluções uniformes tendem a falhar diante de tamanha diversidade social e ambiental.

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Investimento, inovação e cooperativismo
Para que a bioeconomia deixe de ser promessa e se consolide como realidade, financiamento e organização social são decisivos. Nesse contexto, instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social desempenham papel estratégico. Por meio do Fundo Amazônia e do Fundo Clima, o BNDES apoia projetos que combinam geração de renda e conservação ambiental.
Outra iniciativa relevante é o programa Coopera+ Amazônia, que investe aproximadamente R$ 107 milhões no fortalecimento de cooperativas extrativistas. O foco está na melhoria da gestão, na incorporação de tecnologia e na ampliação da inserção em mercados mais competitivos.
Ao apoiar cerca de 3.500 famílias, o programa busca elevar produtividade e renda, reduzir a penosidade do trabalho e diminuir custos logísticos. A criação de hubs de inovação pretende encurtar distâncias físicas e simbólicas entre floresta e mercado, permitindo que comunidades deixem de ocupar apenas o elo inicial da cadeia produtiva.
Essa verticalização é crucial. Transformar amêndoas de cacau em chocolate fino na própria região multiplica valor e fortalece identidades locais. Processar o açaí próximo à origem preserva qualidade e gera empregos. O ganho não é apenas econômico, mas também político: comunidades passam a negociar em melhores condições e a participar das decisões sobre seus territórios.
A bioeconomia amazônica, portanto, não se resume a uma alternativa ao desmatamento. Ela propõe redefinir o sentido de desenvolvimento na região. Ao articular conhecimento tradicional, inovação tecnológica, políticas públicas e financiamento estruturado, cria-se um ambiente em que conservar deixa de ser obstáculo e se torna estratégia econômica.
Se o desafio histórico da Amazônia foi integrar crescimento e preservação, a bioeconomia oferece uma síntese possível. O sucesso desse projeto dependerá da continuidade de investimentos, da estabilidade institucional e da capacidade de manter a floresta como protagonista de seu próprio destino.











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