Articulação quer transformar corais em símbolo de resiliência climática


Uma nova articulação nacional para salvar os recifes brasileiros

Em meio aos debates globais sobre clima e biodiversidade, o Brasil apresentou na COP30 um movimento que busca reposicionar o país no centro da agenda internacional de conservação marinha. O lançamento da Coalizão Corais do Brasil, ocorrido durante a conferência climática em Belém, marca a formação de uma frente inédita que reúne organizações da sociedade civil, iniciativa privada e instituições de pesquisa em torno de um objetivo comum: proteger, restaurar e dar escala às ações de conservação dos recifes de corais brasileiros.

Filipe Cadena/Fundação Grupo Boticário

A iniciativa é liderada pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e pelo WWF-Brasil, duas instituições com histórico consolidado em políticas ambientais e conservação da biodiversidade. A coalizão nasce em um momento crítico, quando os recifes enfrentam pressões crescentes decorrentes do aquecimento global, da poluição costeira e da expansão desordenada das atividades humanas no litoral.

Mais do que um arranjo institucional, a coalizão se propõe a ser uma plataforma estratégica para ampliar impactos, influenciar políticas públicas e criar mecanismos duradouros de financiamento. A aposta é que a união de esforços permita superar a fragmentação histórica das iniciativas e transforme os corais em uma prioridade nacional de conservação.

Corais: pequenos em área, gigantes em importância ecológica e econômica

Embora ocupem menos de 0,1% do fundo dos oceanos, os recifes de corais desempenham um papel desproporcionalmente grande no equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Eles oferecem abrigo, alimento e áreas de reprodução para cerca de um quarto de todas as espécies do oceano, funcionando como verdadeiros berçários da vida marinha.

No Brasil, esses ambientes sustentam cadeias econômicas inteiras ligadas à pesca artesanal, ao turismo e à proteção costeira. Estudos recentes indicam que os recifes geram até R$ 167 bilhões em serviços ecossistêmicos para o país, ao reduzir a erosão das praias, amortecer o impacto de tempestades e atrair atividades turísticas. Ainda assim, permanecem vulneráveis e subvalorizados nas políticas públicas.

O aquecimento das águas oceânicas, intensificado pelas mudanças climáticas, é hoje a maior ameaça aos recifes. Ondas de calor marinhas cada vez mais frequentes têm provocado episódios de branqueamento em larga escala, especialmente no Nordeste brasileiro. A situação exige respostas urgentes e coordenadas, capazes de atuar tanto nas causas globais quanto nas pressões locais.

É nesse contexto que a Coalizão Corais do Brasil se insere, defendendo uma abordagem integrada que trate os recifes não apenas como patrimônio natural, mas como infraestrutura ecológica essencial para o futuro do país.

Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil

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Metas globais, ações locais e justiça socioambiental

A atuação da coalizão está alinhada a compromissos internacionais de conservação da biodiversidade, incluindo a meta global de restaurar 30% dos recifes degradados até 2030. Para isso, o grupo pretende apoiar soluções inovadoras de restauração, ampliar áreas marinhas protegidas e mitigar ameaças diretas como poluição terrestre, pesca excessiva e ocupação desordenada da zona costeira.

Outro eixo central é a mobilização de recursos financeiros públicos e privados, criando modelos sustentáveis de investimento em conservação. A ideia é ir além de projetos pontuais e estabelecer uma base contínua de financiamento que permita ações de longo prazo, condição considerada essencial para a recuperação efetiva dos recifes.

A coalizão também assume um compromisso explícito com a justiça socioambiental. As estratégias propostas buscam integrar ciência, sustentabilidade econômica e os direitos de povos e comunidades tradicionais que dependem diretamente dos recifes para sua subsistência e identidade cultural. Ao reconhecer esses territórios como espaços vivos, a iniciativa reforça a noção de que conservação e desenvolvimento social não são agendas opostas, mas complementares.

Nesse sentido, a proposta é transformar os corais em símbolos de resiliência climática e cultura oceânica, conectando conservação ambiental, educação e participação social.

Uma rede diversa para enfrentar um desafio sistêmico

Além das organizações líderes, a Coalizão Corais do Brasil reúne instituições com atuação direta nos territórios costeiros e na pesquisa científica. Entre elas estão o Instituto Recifes Costeiros (IRCOS), a Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil), a Comissão Nacional para o Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Extrativistas Costeiros Marinhos (CONFREM) e o AquaRio.

Essa diversidade de atores reflete a complexidade do desafio. Proteger os recifes exige conhecimento científico, engajamento comunitário, políticas públicas eficazes e comunicação capaz de sensibilizar a sociedade sobre a urgência do tema. A coalizão aposta que a atuação em rede amplia a capacidade de incidência política e fortalece o protagonismo do Brasil na agenda global de conservação marinha.

A apresentação da iniciativa durante a COP30 não foi casual. Ao sediar a conferência, o Brasil assume um papel estratégico na diplomacia climática e ambiental. A Coalizão Corais do Brasil surge, assim, como um sinal de que o país pretende liderar pelo exemplo, articulando soluções que dialogam com ciência, economia e justiça social.

Em um cenário de crise climática acelerada, os recifes brasileiros tornam-se um teste decisivo da capacidade coletiva de proteger a vida marinha e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.