O fim da autodeclaração, a auditoria é o novo padrão ouro do ESG


O eixo invisível: investimento, governança e a crise de credibilidade na auditoria da contabilidade de carbono

No tabuleiro da transição climática, onde regulações emergem com velocidade e o capital busca novas âncoras éticas, uma crise silenciosa ameaça ruir os alicerces da agenda ESG: a confiabilidade dos dados de carbono corporativos. Vivemos uma era em que as empresas relatam mais, publicam metas ambiciosas e inundam o mercado com discursos sobre sustentabilidade. No entanto, a base numérica sobre a qual essas promessas se erguem continua frágil. Este relatório analisa o tripé que sustenta essa arquitetura: o investimento em capital (Capex), a estrutura de governança interna e a qualidade da divulgação ambiental. O objetivo não é apenas diagnosticar os riscos, mas oferecer caminhos estratégicos para quem precisa operar nesse novo ecossistema de responsabilidade climática.

Foto: Marcelo Seabra / Ag. Pará

Capex: quando crescer também significa poluir

Investimento em capital é, por definição, o motor da expansão econômica. Fundações, galpões, maquinários, sistemas logísticos – tudo isso nasce do Capex. Mas esse impulso também tem custo ambiental mensurável. Pesquisas da Universidade de Westminster confirmam o elo direto entre gastos de capital e emissões: a cada milhão de dólares investido, são geradas aproximadamente 2,75 toneladas métricas de CO2. Mais que isso, entre 2013 e 2018, uma queda de 53% no Capex de empresas britânicas foi acompanhada de uma redução de 39% nas emissões – um dado que relativiza boa parte do otimismo em torno das políticas nacionais de descarbonização. Em muitos casos, o progresso climático é resultado indireto de estagnação econômica.

Governança como freio e filtro da opacidade

Se o investimento determina a pegada ambiental, a governança determina como essa pegada será revelada – ou ocultada. O estudo britânico mostra que empresas com conselhos independentes, diversidade de gênero, comitês de auditoria técnicos e estruturas de governança robustas são mais propensas a divulgar seus impactos ambientais com maior profundidade. Mais que um correlato, a governança funciona como amplificador: o efeito do Capex sobre a divulgação se intensifica quando os mecanismos internos de controle são eficazes.

Esse sistema de pesos e contrapesos não é apenas uma formalidade institucional. Trata-se de um componente estratégico na relação com stakeholders, especialmente investidores. Pesquisas indicam que o mercado penaliza mais severamente a omissão do que a revelação de dados negativos. A transparência, nesse sentido, não é uma virtude moral, mas um escudo pragmático. Ainda assim, nem a melhor governança interna é capaz de blindar o sistema contra o problema central: a confiabilidade dos dados divulgados.

A fragilidade dos números: quando a transparência é apenas performática

Apesar do avanço nas práticas de reporte, a ausência de auditoria externa generalizada transformou a divulgação climática em um campo minado. Dados da Harvard Business School revelam que 58% das empresas norte-americanas alteraram retroativamente suas informações climáticas, muitas vezes sem justificativa. Em paralelo, o MIT Sloan identificou um divisor de águas entre empresas auditadas e não auditadas:

Indicador Empresas não auditadas Empresas auditadas
Emissões iniciais reportadas Mais baixas, mas pouco confiáveis Mais altas, mas mais realistas
Trajetória futura de emissões Sem reduções significativas Queda média de 7,5% ao ano
Sinal ao investidor Comprometimento duvidoso Alinhamento com metas reais de redução

O retrato é claro: não se pode confiar em autodeclarações. Auditoria independente é o fator mais determinante para identificar quem está de fato comprometido com a descarbonização.

Auditoria - Imagem: Wikimedia Commons
Imagem: Wikimedia Commons

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A reconfiguração regulatória: fim da era voluntária

Diante do descrédito crescente e do aumento do greenwashing, a regulação começa a se impor. A União Europeia lidera esse movimento com a “Green Claims Directive”, que institui:

  • Verificação prévia obrigatória de alegacões ambientais;
  • Proibição de uso exclusivo de offsets como argumento de neutralização;
  • Multas mínimas de 4% do faturamento anual e exclusão de licitações públicas.

Essa mudança de paradigma rompe com a cultura da autodeclaração e impõe um novo padrão de comprovação. Ao mesmo tempo, mais de 40 atores do setor privado europeus pedem a harmonização dos marcos contábeis climáticos. Isso mostra que a demanda por padronização não é apenas regulatória, mas também de mercado.

Implicações estratégicas

Para empresas:

  • Adotar auditoria independente não é custo, mas estratégia de gestão de risco reputacional e regulatório.
  • Integrar governança ambiental ao núcleo da estrutura decisória, não como um anexo de compliance.

Para investidores:

  • Recalibrar métodos ESG, tratando dados auditados como critério-chave de confiabilidade.
  • Exigir mais do que metas e narrativas: é a estrutura de validação que distingue promessas de intenções concretas.

Para governos e organismos reguladores:

  • Adotar estruturas obrigatórias de disclosure com auditoria.
  • Unificar as regras contábeis e fomentar adesão a padrões internacionais como os do ISSB.

O que este panorama revela é simples e perturbador: o Capex impulsiona emissões; a governança determina o quanto disso será revelado; mas só a auditoria garante que a revelação seja verdadeira. Sem isso, toda a arquitetura de ESG corre o risco de ser um castelo de dados ocos. A responsabilidade climática corporativa só se concretiza quando a verdade deixa de ser uma escolha.