
O mercado de óleo de palma no Brasil, concentrado quase inteiramente no Pará, vive um paradoxo que beira o insustentável. De um lado, o setor é a grande promessa para a bioeconomia global e a transição energética; de outro, está mergulhado em um rastro de falências, insegurança jurídica e um conflito armado que ficou conhecido como a “Guerra do Dendê”. Entre 2025 e 2026, o esgotamento do modelo antigo atingiu o ápice, forçando uma reestruturação que pode finalmente pacificar o campo.
O que se vê hoje é o desmoronamento de um sistema agrário baseado em latifúndios polêmicos e a tentativa de nascimento de uma cadeia produtiva regenerativa. Enquanto gigantes históricas lutam para não desaparecer sob dívidas bilionárias, novos investidores estrangeiros tentam limpar a reputação de um produto essencial para tudo — de biocombustíveis a alimentos — mas que, na Amazônia, ainda carrega o peso de disputas territoriais sangrentas.
A queda das gigantes e o risco de apagão no Norte
O colapso da Brasil BioFuels (BBF) é o exemplo mais drástico dessa crise. A empresa, que nasceu com a promessa de revolucionar a matriz energética, entrou em 2026 em recuperação judicial com um passivo de R$ 1,26 bilhão. Após ter sua falência decretada e suspensa, a companhia viu o crédito secar por pressão de órgãos de direitos humanos. O resultado é dramático: 140 mil pessoas em áreas isoladas da Amazônia correm o risco de ficar no escuro, já que o fornecimento de energia depende das usinas da empresa que hoje operam no limite.
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Ao lado dela, a Agropalma também viu seu império balançar. Outrora a joia do setor, a empresa operou sem licença ambiental por anos e viu a Justiça cancelar milhares de hectares de suas terras por fraudes cartoriais e grilagem. O desgaste foi tamanho que a companhia foi vendida para o grupo colombiano Daabon por apenas US$ 100 milhões — um valor que reflete o enorme “risco Brasil” e os passivos fundiários que a nova gestão terá de enfrentar para operar com ética.
O custo humano da Guerra do Dendê
O modelo de expansão agressiva das últimas décadas criou “ilhas” de monocultura que estrangularam povos indígenas como os Tembé e Turiuara, além de quilombolas locais. Relatos de milícias armadas, torturas e intimidações tornaram-se comuns em municípios como Acará e Tomé-Açu. A violência não é apenas física: a poluição por agrotóxicos e o descarte irregular de “tiborna” nos rios mataram a pesca e contaminaram a água de quem vive da floresta há gerações.
Essa insegurança não poupa nem quem está na legalidade. Em Bonito, a paralisação da Mejer Agroflorestal após uma condenação por assédio eleitoral mostra como a falta de saídas jurídicas práticas pode destruir uma economia municipal inteira. Com a fábrica fechada, os frutos apodrecem e quase dois mil trabalhadores ficam sem sustento, provando que, sem regras claras e cumprimento da lei, ninguém prospera na região.
A nova chance: palma sem desmatamento e inclusão social
Apesar do cenário de guerra, o futuro guarda um caminho de otimismo. Estudos mostram que o Pará tem 1,15 milhão de hectares aptos para o plantio de dendê sem derrubar uma única árvore. O plano para 2026 e os anos seguintes é focar na recuperação de áreas já degradadas, dobrando a produção nacional de forma sustentável. A ideia é alinhar o Brasil à demanda mundial por combustível sustentável de aviação (SAF) e biodiesel verde.
A grande virada, no entanto, é social. A meta é integrar até 25 mil famílias de pequenos produtores no modelo de Sistemas Agroflorestais (SAF-dendê). Ao consorciar o dendê com cacau e açaí, a Amazônia pode criar uma economia resiliente que não dependa de milícias ou grilagem. A entrada do grupo Daabon, com sua expertise em agricultura orgânica regenerativa, sinaliza que o mercado internacional ainda acredita no Pará, desde que a governança e a paz no campo sejam prioridades absolutas.





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