O Fórum Econômico Mundial tem início nesta segunda-feira, em Davos, na Suíça, em um momento em que as tensões climáticas, ambientais e geopolíticas deixaram de ser temas paralelos e passaram a ocupar o centro das decisões econômicas globais. Sob o lema “Um Espírito de Diálogo”, o encontro de 2026 reúne mais de três mil líderes políticos, empresariais e institucionais de mais de 130 países, em um esforço explícito para reconstruir pontes de cooperação em um cenário marcado por instabilidade, eventos extremos e crescente desigualdade.

A presença brasileira ocorre em meio a esse reposicionamento da agenda global. O país é representado oficialmente pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, que participa de painéis voltados à governança digital e à cooperação internacional. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esteja presente nesta edição, o Brasil ocupa espaço relevante nas discussões ambientais, energéticas e agrícolas, áreas em que passou a ser visto como laboratório de soluções para a transição climática em economias emergentes.
Meio ambiente deixa de ser pauta setorial
Uma das marcas do Fórum deste ano é a mudança de enquadramento do debate ambiental. Água, solo, biodiversidade e sistemas alimentares aparecem no programa oficial não como temas isolados, mas como infraestrutura econômica crítica. A organização do evento, o Fórum Econômico Mundial (https://www.weforum.org), trata esses elementos como pilares da produtividade, da segurança alimentar e da estabilidade financeira, especialmente em um contexto de choques climáticos recorrentes.
Segundo o presidente do Fórum, Børge Brende, “o diálogo não é um luxo em tempos de incerteza, mas uma necessidade urgente”. A afirmação sintetiza a percepção de que a crise ambiental já afeta cadeias produtivas, fluxos de comércio e decisões de investimento. Relatórios apresentados em Davos indicam que a degradação ambiental deixou de ser um risco futuro e passou a operar como fator imediato de ruptura econômica.
A agricultura, em especial, ganhou centralidade inédita. O sistema alimentar global é descrito como estando sob estresse crescente, pressionado por secas, enchentes, perda de biodiversidade e desigualdade nutricional. Nesse contexto, a produção de alimentos é tratada como variável macroeconômica, diretamente ligada à estabilidade social e à previsibilidade dos mercados.
Água, clima e o custo da instabilidade
Entre os eixos centrais do Fórum está a água. Painéis dedicados ao tema tratam a gestão hídrica como base da estabilidade econômica e social. Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes severas, já causam prejuízos bilionários à logística global e ao comércio de commodities. O Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado pelo Fórum, destaca que a fragilidade das infraestruturas hídricas compromete desde a produção agrícola até o transporte de matérias-primas essenciais.
Exemplos recentes reforçam esse diagnóstico. A redução do tráfego no Canal do Panamá, provocada por seca severa, elevou custos logísticos e afetou o abastecimento de alimentos em diversos países. Situações semelhantes vêm sendo observadas em rios estratégicos da Europa, como Reno e Danúbio, impactando cadeias industriais inteiras.
A crise climática aparece, assim, como elemento estruturante do risco econômico global. Após o planeta registrar aquecimento médio superior a 1,5 grau Celsius em relação ao período pré-industrial, o Fórum aponta que a combinação entre eventos extremos e erosão da cooperação internacional cria um ambiente de vulnerabilidade sistêmica, especialmente para países dependentes de recursos naturais.

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Natureza, capital e desigualdade
Outro eixo central de Davos 2026 é o debate sobre o valor econômico da natureza. Soluções baseadas na restauração de ecossistemas e na proteção da biodiversidade são apresentadas como estratégias de redução de risco financeiro. A natureza entra na linguagem do Fórum como ativo econômico, com métricas, retornos esperados e necessidade de financiamento privado.
Essa abordagem ocorre em paralelo a um cenário de forte concentração de riqueza. Relatório divulgado pela Oxfam Brasil (https://www.oxfam.org.br) aponta que a riqueza dos bilionários cresceu mais de 16% em 2025, alcançando nível recorde. Desde 2020, esse crescimento ultrapassa 80%, enquanto quase metade da população mundial vive na pobreza. A organização destaca que parte desse capital poderia ser suficiente para erradicar a pobreza extrema diversas vezes, caso fosse direcionado a políticas estruturais.
A contradição entre abundância financeira e colapso ambiental alimenta o debate sobre novos modelos econômicos. Em Davos, cresce a defesa de que não há prosperidade possível sem limites planetários claros, e que o custo da inação climática supera, de longe, o investimento em adaptação e mitigação.
Brasil, energia limpa e protagonismo ambiental
Nesse contexto, o Brasil surge como referência em transição energética e bioeconomia. Em edições recentes do Fórum, o país apresentou avanços regulatórios que ampliam a atratividade de investimentos em energia limpa. A Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, consolidou políticas de incentivo aos biocombustíveis, ao biometano e ao combustível sustentável de aviação, reforçando o papel brasileiro na descarbonização global.
Durante encontros em Davos, representantes do governo federal destacaram que o país combina diversidade energética, segurança jurídica e grande potencial de expansão sustentável. O Ministério de Minas e Energia (https://www.gov.br/mme) vem defendendo que a transição energética brasileira integra agronegócio, agricultura familiar e inovação industrial, gerando emprego, renda e redução de emissões.
O Fórum Econômico Mundial reconhece que países com grande base natural, como o Brasil, terão papel decisivo na reconstrução da cooperação climática global. Em 2026, ao reposicionar agricultura, água e natureza como infraestrutura econômica, Davos sinaliza que o debate ambiental deixou de ser periférico. Ele passou a definir os limites e as possibilidades do crescimento global nas próximas décadas.











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