
O passivo invisível das cidades: para onde vai a sucata da transição energética?
A modernização das metrópoles brasileiras, impulsionada pelo desejo de maior segurança e harmonia estética, caminha para um soterramento em massa de fios. No entanto, por trás da promessa de ruas livres de poluição visual e redes elétricas imunes a tempestades, oculta-se um desafio logístico e ambiental de proporções colossais. Enquanto especialistas debatem o alto custo de capital (Capex) para a construção de redes subterrâneas, uma questão permanece nas sombras dos canteiros de obras: o destino final da “sucata” gerada pela desativação do sistema aéreo, que hoje compõe cerca de 99% da infraestrutura nacional.
A transição para o subsolo exige a remoção completa de estruturas pesadas. Somente no Rio de Janeiro, estima-se a necessidade de eliminar 390 mil postes de concreto. Esse material, composto por cimento e armações de aço, frequentemente não possui um canal claro de logística reversa detalhado nos planos de expansão das concessionárias. Sem um protocolo rígido, esse passivo corre o risco de sobrecarregar aterros de resíduos de construção civil, desperdiçando o potencial de reciclagem do aço e o reaproveitamento do concreto britado em novas obras de pavimentação urbana.
A economia circular dos metais e o valor oculto da rede antiga
Um dos maiores entraves para o enterramento de fios é o seu custo proibitivo. Curiosamente, as redes aéreas convencionais guardam em si um tesouro metálico: quilômetros de cabos de alumínio e cobre. Embora as fontes técnicas tratem a remoção desses materiais apenas como um custo adicional de mão de obra, existe uma lacuna de eficiência na recuperação desses ativos. A pauta da economia circular sugere que o valor de revenda dessa “sucata” metálica poderia, em tese, ser reinvestido para abater parte do investimento inicial nas novas redes.
A complexidade aumenta quando analisamos os isolamentos plásticos de origem fóssil que revestem a fiação antiga. Ao contrário dos novos “cabos green”, produzidos a partir de polietileno de cana-de-açúcar, a fiação desativada carrega décadas de polímeros tradicionais que exigem processos químicos específicos para separação e reciclagem. A gestão desses resíduos é um ponto crítico de sustentabilidade que diferencia um projeto meramente estético de uma verdadeira política pública de transição energética verde, alinhada com as metas de descarbonização das cidades.
O protocolo do óleo mineral e a proteção do solo
Outro componente crítico na remoção das redes aéreas são os transformadores. As novas tecnologias priorizam o uso de óleos vegetais biodegradáveis, mas as unidades antigas operam com óleo mineral, um derivado de petróleo que representa um risco ambiental severo em caso de vazamento. A retirada de milhares desses equipamentos das ruas exige um protocolo rigoroso de drenagem e refino do fluido para evitar a contaminação do solo e do lençol freático durante o transporte e o armazenamento temporário.
A ausência de detalhes sobre o descarte ou refino desse óleo mineral nos guias técnicos sugere uma negligência com o passivo ambiental. Uma transição responsável requer que o óleo retirado seja submetido ao rerrefino, permitindo que o lubrificante retorne à cadeia produtiva em vez de ser descartado ilegalmente. Essa etapa é vital para que a “limpeza” visual da cidade não resulte em um dano invisível e persistente nos locais de estocagem de equipamentos obsoletos, garantindo a integridade dos ecossistemas urbanos.

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A plastificação do subsolo e a permeabilidade urbana
Se na superfície o ganho é evidente com a preservação da arborização e a redução de podas drásticas, no subsolo a realidade é física e restritiva. O enterramento de redes exige a abertura de valas lineares e o uso extensivo de dutos de Polietileno de Alta Densidade (PEAD). Esse processo, que frequentemente envolve o envelopamento dos dutos em concreto para garantir estabilidade, cria uma espécie de “plastificação” do subsolo. Embora o material em si seja inerte, o conjunto da obra civil altera a compactação e a dinâmica natural de absorção de água pelo terreno.
A convivência entre a nova infraestrutura e as raízes das árvores é um equilíbrio delicado. O planejamento deve prever canteiros permeáveis de no mínimo 1,0 m² e coberturas vegetais que mitiguem a impermeabilização causada pelo concreto subterrâneo. Sem esse cuidado, a rede subterrânea pode limitar o desenvolvimento radicular, afetando a saúde das árvores que ela mesma se propôs a proteger. O desafio do futuro é garantir que a modernização das redes não transforme o subsolo em um labirinto de plástico e concreto que prejudique a drenagem natural das águas pluviais, um tema cada vez mais urgente diante das mudanças climáticas.









