Diplomacia das onças tenta unir países vizinhos para salvar o maior felino do continente

A ilusão das linhas e a realidade dos corredores

O conceito de soberania nacional encontra uma barreira biológica intransponível quando aplicado a grandes carnívoros de topo de cadeia. Unidades de conservação vitais para a manutenção da variabilidade genética da espécie estão posicionadas exatamente sobre a linha divisória que separa o território brasileiro do boliviano. Essa contiguidade geográfica revela que o que o homem divide em dois países, a natureza trata como um único e contínuo pulsar ecológico.

Estudos de campo e levantamentos de habitat indicam que, em diversos trechos dessa faixa de fronteira, a porção localizada em solo boliviano apresenta condições de preservação e densidade de presas até mais favoráveis do que o lado brasileiro. Essa assimetria espacial exige que os gestores de parques e reservas de ambos os lados operem sob uma mesma partitura técnica, sob o risco de que os esforços de isolamento de um lado sejam anulados pela degradação ou avanço da agropecuária do outro.

A manutenção desses corredores transnacionais funcionais exige mais do que a boa vontade de pesquisadores; demanda compromissos financeiros de longo prazo e a harmonização de agendas de desenvolvimento. Se o fluxo migratório desses animais for interrompido por cercas, estradas ou plantações, pequenas populações isoladas estarão condenadas à extinção local por consanguinidade e perda de vigor híbrido em poucas gerações.

foto: Paula Rafiza/Ibama
foto: Paula Rafiza/Ibama

O paradoxo legal e o rastro do comércio ilegal

Um dos maiores nós górdios da diplomacia ambiental na região reside na disparidade das legislações nacionais e na capacidade de fiscalização de cada Estado soberano. Enquanto o Brasil construiu, ao longo de décadas, um robusto plano de ação nacional e possui leis de crimes ambientais relativamente severas contra a caça e o abate de animais silvestres, a realidade do outro lado da fronteira pode apresentar fissuras perigosas.

A onça-pintada enfrenta hoje a pressão ressurgente de um mercado internacional clandestino extremamente lucrativo, que cobiça suas presas, ossos e pele para o mercado asiático de medicina tradicional e artigos de luxo. Essa dinâmica criminosa opera na lógica das rotas de tráfico: o animal abatido em uma região onde a fiscalização é escassa ou a corrupção é alta cruza a fronteira em direção aos portos e aeroportos de países com maior infraestrutura de exportação.

Essa diferença de proteção jurídica cria o chamado efeito de dreno populacional. As populações de felinos que se reproduzem e crescem protegidas em santuários brasileiros funcionam como uma fonte contínua, mas, ao cruzarem a fronteira em seus deslocamentos naturais, caem em áreas de alta mortalidade onde a caça não é combatida com o mesmo rigor. O esforço de conservação de um país acaba, involuntariamente, alimentando o mercado ilegal do outro.

Infraestrutura binacional e o bloqueio das rotas de fuga

A geopolítica do desenvolvimento frequentemente colide com a geopolítica da conservação. Grandes projetos de integração física e energética entre as duas nações, como a malha de gasodutos que cruza a fronteira em direção ao parque industrial do centro-oeste brasileiro, trazem consigo impactos ambientais que vão muito além da faixa de servidão das tubulações.

A instalação dessas megaestruturas costuma funcionar como um ímã para a industrialização secundária e a abertura de novas frentes agrícolas em regiões anteriormente isoladas. No entorno de polos de fronteira, como a região de Corumbá, o avanço das construções e do desmatamento pode encurralar os grandes felinos justamente nos momentos de maior vulnerabilidade ambiental.

Durante as grandes cheias sazonais do pantanal, as onças dependem criticamente das matas de encosta e capões mais elevados para buscarem refúgio e continuarem caçando. Se essas áreas secas marginais forem ocupadas por indústrias, mineradoras ou cidades, os animais ficam sem rotas de fuga, aumentando drasticamente os índices de conflito com seres humanos e a mortalidade por afogamento ou inanição.

Nos trópicos, a intensidade da cor verde da vegetação varia pouco. A foto mostra uma floresta tropical perene na Sierra Nevada, Colômbia Mudança inesperada para o norte
Nos trópicos, a intensidade da cor verde da vegetação varia pouco. A foto mostra uma floresta tropical perene na Sierra Nevada, Colômbia

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Os limites éticos do turismo e a tentação da artificialidade

Enquanto a diplomacia tenta resolver as barreiras físicas e jurídicas nas fronteiras, o mercado de turismo de observação nas áreas mais consolidadas enfrenta sua própria crise de identidade e ética. O desejo de garantir ao visitante estrangeiro a visão perfeita do maior predador do continente tem empurrado alguns operadores para práticas que flertam perigosamente com a domesticação do selvagem.

O processo de induzir comportamentos através de iscas alimentares artificiais — a chamada ceva — transforma o encontro fortuito e majestoso com a vida selvagem em um espetáculo previsível e de horários marcados. Essa prática altera profundamente a biologia do animal, que deixa de gastar energia caçando e passa a associar a presença de barcos e seres humanos à comida fácil.

Essa perda de autenticidade gera consequências graves para a segurança de todos. Predadores de topo que perdem o medo natural do homem e passam a enxergá-lo como fonte de alimento tornam-se indivíduos perigosos e imprevisíveis. O desafio das autoridades do setor consiste em traçar uma linha vermelha muito clara entre o ecoturismo contemplativo, que gera renda e protege a espécie, e a transformação de santuários naturais em zoológicos sem grades a céu aberto.

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