Projetos duradouros elevam consciência ambiental em áreas costeiras


Projetos duradouros moldam uma nova relação das pessoas com o oceano

A presença contínua de projetos de conservação ambiental em territórios costeiros tem produzido efeitos profundos e mensuráveis na forma como as pessoas percebem o meio ambiente. Um estudo inédito realizado pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo, em parceria com a Rede Biomar, indica que iniciativas de longa duração podem elevar em até 20% a consciência ambiental das populações locais.

Foto: Projeto Albatroz/Divulgação

A pesquisa ouviu 1.803 moradores de municípios costeiros brasileiros, selecionados aleatoriamente. Desses, 1.501 tinham algum grau de familiaridade com ao menos um dos cinco projetos que integram a Rede Biomar — Albatroz, Baleia Jubarte, Coral Vivo, Golfinho Rotador e Meros do Brasil. O grupo de controle reuniu 302 pessoas sem qualquer contato prévio com essas iniciativas.

Os resultados revelam que o tempo é um fator decisivo. Regiões que convivem há pelo menos duas décadas com projetos de conservação apresentam níveis significativamente mais altos de percepção ambiental, senso de pertencimento ao oceano e disposição para agir em defesa dos ecossistemas marinhos. Em alguns territórios, o crescimento da consciência ambiental chegou a 20%, demonstrando que educação ambiental não é uma ação pontual, mas um processo construído ao longo dos anos.

Conhecimento gera envolvimento e disposição para mudar hábitos

O levantamento mostrou que pessoas que conhecem os projetos da Rede Biomar desenvolvem uma relação mais próxima e consciente com o oceano. A percepção sobre como o mar influencia diretamente a vida cotidiana é 11% maior nesse grupo em comparação com quem não teve contato com as iniciativas.

Além disso, 88% dos entrevistados familiarizados com os projetos afirmaram buscar informações sobre o oceano com frequência — um índice 23% superior ao do grupo de controle. O dado revela que o conhecimento desperta curiosidade, interesse e vontade de aprender mais, criando um ciclo virtuoso de engajamento.

A pesquisa também apontou uma diferença expressiva na disposição para agir. Entre os que conhecem a Rede Biomar, 87% declararam sentir-se motivados a contribuir com a conservação marinha. No grupo que desconhecia os projetos, esse número caiu para apenas 13%. Quando o assunto é mudança de hábitos, 82% dos participantes ligados à rede disseram estar dispostos a alterar comportamentos em benefício do oceano, sendo que quase metade se declarou extremamente disposta a fazê-lo.

Outro dado relevante é o papel multiplicador dessas pessoas. Mais de 90% afirmaram estar dispostas a atuar como agentes de mudança, divulgando informações, sensibilizando outras pessoas e apoiando ações de conservação. Esse percentual é 12% maior do que o observado entre os entrevistados sem contato com os projetos, reforçando o impacto social de iniciativas educativas de longo prazo.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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Educação ambiental como estratégia para a Década do Oceano

O estudo integra o planejamento estratégico da Rede Biomar para a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, iniciativa das Nações Unidas que se estende até 2030. Um dos eixos centrais desse planejamento é justamente a conscientização da sociedade e a mudança de comportamento em relação ao oceano.

Para a fundadora do Projeto Albatroz e integrante da Rede Biomar, Tatiana Neves, a pesquisa representou um marco. Segundo ela, o levantamento não apenas confirmou a eficácia das ações realizadas ao longo dos anos, como também trouxe elementos concretos para aprimorar as estratégias futuras. A avaliação mostrou onde a mensagem está chegando e onde ainda há lacunas a serem preenchidas.

O coordenador do Programa Maré de Ciência, Ronaldo Christofoletti, destaca que os resultados reforçam algo já conhecido por educadores: a educação ambiental é um processo lento e cumulativo. Projetos que permanecem nos territórios por décadas constroem relações de confiança, adaptam sua linguagem às realidades locais e conseguem transformar informação em conhecimento significativo.

Segundo ele, essa transformação não ocorre de cima para baixo. É construída junto às comunidades, respeitando saberes locais, diferentes faixas etárias, níveis de escolaridade e contextos regionais. Quando o conhecimento faz sentido para o cotidiano das pessoas, ele se converte em atitude.

Do interesse à ação: o desafio do engajamento prático

Apesar dos resultados animadores, a pesquisa também evidencia desafios. Tatiana Neves avalia que ainda existe uma lacuna entre a preocupação ambiental e o engajamento prático. Muitas pessoas querem ajudar, mas não sabem exatamente como agir ou quais atitudes têm maior impacto no dia a dia.

Esse distanciamento, segundo ela, está ligado à percepção de que a responsabilidade ambiental cabe apenas aos governos ou às grandes empresas. Essa visão gera uma sensação de impotência individual, que dificulta a mobilização. O próximo passo dos projetos da Rede Biomar, portanto, será indicar caminhos concretos para a ação cotidiana.

Reduzir o consumo de plástico descartável, optar por produtos mais sustentáveis, participar de mutirões de limpeza e apoiar iniciativas locais são exemplos de atitudes que podem ser estimuladas de forma mais clara e acessível. Para Christofoletti, as estratégias precisam ser adaptadas para alcançar também populações com menor acesso à informação, utilizando linguagens simples e abordagens inclusivas.

Nesse contexto, políticas públicas desempenham papel essencial. O coordenador do Maré de Ciência destaca a importância do Currículo Azul, política pública brasileira que integra a educação oceânica ao currículo escolar. A proposta é formar cidadãos mais conscientes desde a infância, conectando o oceano aos demais biomas e à agenda climática.

Ao final, o estudo confirma que investir de forma contínua em educação ambiental gera efeitos duradouros. Projetos longevos constroem uma cultura de responsabilidade, fortalecem o vínculo das pessoas com a natureza e ajudam a formar gerações mais preparadas para enfrentar os desafios ambientais do presente e do futuro.