Coletivo de mulheres quilombolas lança o documentário “Cafuné” por proteção

Reprodução - Alma Preta
Reprodução - Alma Preta

O acolhimento como estratégia de resistência

A luta pela sobrevivência em territórios tradicionais no Brasil ganhou um novo capítulo de visibilidade com o lançamento do documentário “Cafuné”. Produzido pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), o filme expõe a realidade de cerca de 100 lideranças femininas que vivem sob o estigma do medo e das ameaças constantes. O título do projeto carrega uma simbologia profunda: em meio à violência dos conflitos agrários e à ausência de políticas públicas, o “cafuné” representa a busca por um aconchego necessário para quem dedica a vida à defesa dos direitos humanos. A obra não é apenas um registro audiovisual, mas parte de uma articulação política robusta que visa sensibilizar o governo federal e o Congresso Nacional sobre a urgência de mecanismos de proteção que garantam, além da integridade física, a dignidade e a paz nas comunidades.

A transição da proteção individual para a segurança coletiva

Um dos pilares centrais da nova proposta apresentada pelas mulheres quilombolas é a mudança de paradigma na segurança das defensoras de direitos. Inspiradas pela dor do assassinato de Mãe Bernadete, ocorrido em 2023, as lideranças defendem que a proteção do Estado não deve ser restrita ao indivíduo, mas sim estendida ao coletivo. A estratégia argumenta que ameaças contra uma liderança afetam toda a dinâmica comunitária, exigindo planos de autocuidado que protejam o território como um todo. Selma Dealdina, articuladora da Conaq, reforça que o plano “Cafuné” prioriza a agilidade na titulação de terras como a principal forma de prevenção à violência, uma vez que a insegurança jurídica sobre a propriedade é frequentemente o estopim para invasões e agressões por parte de agentes externos.

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Saúde mental e as feridas invisíveis do ativismo

Para além da segurança pública tradicional, o projeto “Cafuné” coloca o bem-estar psicológico no centro do debate. As lideranças denunciam que o estresse permanente e o medo de ataques geram um adoecimento sistêmico que muitas vezes é negligenciado pelo Estado. De acordo com a coordenadora Cida Barbosa, o atendimento psicológico é um dos serviços mais inacessíveis para as mulheres que vivem no interior do país, em biomas diversos onde a distância geográfica e o racismo estrutural dificultam o acesso à saúde. Essa vulnerabilidade é corroborada por dados da Fiocruz, que indicam uma incidência desproporcional de doenças cardiovasculares e mortes evitáveis entre a população quilombola, fruto de uma vida marcada por carências básicas, como a falta de saneamento e de água potável em mais de metade das comunidades.

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O compromisso do Estado e o horizonte de 2026

O governo federal, por meio da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, reconheceu a legitimidade das demandas quilombolas, sinalizando um alinhamento com a perspectiva de proteção coletiva. A meta é que o Plano Nacional de Proteção a Defensores de Direitos Humanos incorpore recortes mais profundos de gênero e raça, respondendo diretamente ao projeto entregue pela Conaq. O mês de maio de 2026 promete ser um marco nessa trajetória, com a celebração dos 30 anos da entidade no Congresso Nacional e a realização do 3º Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas. Estes eventos servirão como plataforma para consolidar uma agenda de desenvolvimento sustentável que não seja apenas econômica, mas também ética e estética, preservando não apenas a floresta e o solo, mas a vida de quem neles planta suas raízes e sua história.

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