Energia solar e bioenergia impulsionam empregos verdes no Brasil


Energia solar e bioenergia colocam o Brasil no centro da economia verde global

O avanço das energias renováveis deixou de ser apenas uma promessa ambiental para se consolidar como um dos principais motores da geração de empregos no mundo. Em 2024, o setor global de energias renováveis alcançou 16,6 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos, mantendo uma trajetória contínua de expansão. Nesse cenário, o Brasil emerge como protagonista. Com cerca de 1,3 milhão de empregos verdes, o país ocupa a terceira posição no ranking mundial, impulsionado principalmente pela energia solar e pela bioenergia, segundo dados da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).

Foto: Ricardo Stuckert / PR

O crescimento brasileiro não é casual. Ele reflete uma combinação de abundância de recursos naturais, amadurecimento regulatório e rápida difusão de tecnologias, especialmente no segmento da geração distribuída. A transição energética, antes tratada como tema de longo prazo, passou a produzir efeitos concretos no mercado de trabalho, na indústria e no planejamento energético nacional.

A força da energia solar e o boom da geração distribuída

A energia solar é hoje a principal locomotiva dos empregos verdes no mundo e no Brasil. Globalmente, o setor respondeu por cerca de 7,2 milhões de vagas, liderando com folga a criação de postos de trabalho. No mercado brasileiro, a fonte fotovoltaica teve desempenho histórico. Em 2024, o país instalou aproximadamente 15,2 gigawatts de nova capacidade solar, o maior volume já registrado em um único ano.

Quase dois terços dessa expansão ocorreram na geração distribuída, modelo no qual a energia é produzida próxima ao local de consumo, como telhados de residências, comércios e pequenas indústrias. De acordo com a IRENA, metade das novas instalações solares no Brasil aconteceu no segmento residencial, justamente o mais intensivo em mão de obra, o que ajuda a explicar o impacto direto sobre o emprego.

Hoje, o Brasil já ultrapassa 52 gigawatts de capacidade instalada em energia solar, considerando grandes usinas e sistemas distribuídos. Mais de 2 milhões de unidades consumidoras aderiram ao modelo, que já representa cerca de 18% da capacidade total de geração elétrica do país. Projeções do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam que esse percentual pode ultrapassar 24% até o fim da década.

Esse crescimento acelerado é sustentado por fatores econômicos claros: queda consistente no custo dos equipamentos, previsibilidade na conta de luz e um marco legal que estimula a compensação da energia gerada na própria fatura. Para pequenas e médias empresas, a energia solar deixou de ser um investimento distante e passou a ser uma ferramenta concreta de competitividade.

Foto: Energy Brasil Solar/Divulgação
Foto: Energy Brasil Solar/Divulgação

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Bioenergia lidera empregos e consolida vocação histórica do país

Se a energia solar se destaca pelo ritmo de crescimento, a bioenergia permanece como o maior empregador do setor renovável no Brasil. O país ocupa a segunda posição no ranking mundial de empregos nessa área, atrás apenas da China, que lidera tanto a implantação de capacidade quanto a fabricação de equipamentos, segundo análises publicadas pelo PV Magazine (PV Magazine) e pelo Megawhat (Megawhat).

A força da bioenergia brasileira está ligada à tradição do etanol, da biomassa e da cogeração a partir do bagaço da cana-de-açúcar. Diferentemente de outras fontes, a bioenergia combina geração elétrica, produção de combustíveis e forte presença no interior do país, espalhando empregos ao longo de cadeias produtivas extensas e intensivas em mão de obra.

Esse protagonismo ajuda a explicar por que o Brasil aparece entre os líderes globais em empregos verdes, mesmo ainda dependendo fortemente da importação de equipamentos no segmento solar. Em 2024, o país importou o equivalente a 22,3 gigawatts em módulos fotovoltaicos, volume 25% superior ao do ano anterior. Para estimular a indústria nacional, o governo federal instituiu uma tarifa de 25% sobre módulos importados. Atualmente, o Brasil conta com 153 fabricantes de kits fotovoltaicos, mas apenas sete produzem módulos, além de sete fabricantes de inversores e 18 de sistemas de rastreamento solar.

Desafios do sistema elétrico e o papel das novas soluções

O rápido avanço das renováveis também trouxe desafios estruturais. O Brasil vive hoje um paradoxo energético: em determinados momentos, há excesso de sol e vento, o que obriga o operador do sistema a reduzir a geração, fenômeno conhecido como curtailment. Em outros, o país ainda recorre a usinas termelétricas, mais caras e poluentes, para garantir segurança no abastecimento.

O crescimento acelerado da micro e minigeração distribuída está no centro desse debate. Embora contribua para reduzir perdas e dar autonomia ao consumidor, essa energia é injetada na rede sem controle direto do ONS, o que exige modernização do sistema elétrico e investimentos em armazenamento. A realização do primeiro leilão federal de baterias e os leilões de segurança energética e de transmissão, que devem movimentar mais de R$ 130 bilhões, sinalizam uma tentativa de corrigir esse descompasso.

Nesse contexto, soluções como a geração compartilhada ganham espaço. Empresas como a EDP oferecem modelos de assinatura de energia solar remota, permitindo que pequenas empresas e consumidores residenciais utilizem energia limpa sem instalar painéis. Ao receber créditos diretamente na conta de luz, o consumidor reduz custos e participa da transição energética com menos barreiras.

Para a IRENA, o futuro da energia limpa passa necessariamente pelas pessoas. “Os governos devem colocar as pessoas no centro de seus objetivos energéticos e climáticos, por meio de políticas industriais e comerciais que desenvolvam capacidade nacional e mão de obra qualificada”, afirmou o diretor-geral da entidade, Francesco La Camera.

No Brasil, a equação entre sol, biomassa, inovação e emprego mostra que a transição energética já não é apenas uma agenda ambiental. Ela se tornou um projeto econômico e social, capaz de redefinir o papel do país no cenário global e de transformar energia limpa em oportunidade concreta de desenvolvimento.