Enquanto o Brasil se prepara para a COP30, um novo estudo lança luz sobre a íntima e perigosa relação entre a destruição da floresta e a proliferação da malária na Amazônia. A pesquisa, publicada na revista Acta Tropica, revela uma realidade surpreendente: o maior risco de contaminação não está em áreas de floresta densa ou desmatamento total, mas sim em paisagens intermediárias, onde a natureza está pela metade.


A Zona Cinzenta da Destruição
O trabalho, liderado pelo biólogo Gabriel Laporta, mostra que a maior ameaça de malária surge em regiões com cerca de 50% de desmatamento, especialmente quando essas áreas estão próximas de comunidades e assentamentos. Nesses cenários fragmentados, os mosquitos do subgênero Nyssorhynchus, vetores da doença, encontram o ambiente ideal para proliferar e se aproximar dos humanos. A floresta, agora esburacada, deixa de ser um habitat impenetrável e se torna uma via de mão dupla: os mosquitos da mata avançam sobre as moradias e a população humana entra em contato com áreas de risco.
O estudo, realizado em Cruzeiro do Sul, no Acre, um dos focos persistentes de malária, analisou tanto a presença dos mosquitos quanto a infecção em amostras de sangue dos moradores. Os resultados foram inequívocos: o padrão de risco se mostrou elevado e consistente em paisagens com vegetação fragmentada. Em contraste, o risco diminui tanto em áreas de desmatamento completo, onde o ambiente se torna inóspito para o vetor, quanto em regiões com mais de 70% de floresta conservada, sublinhando a importância da proteção e da restauração ambiental.

Doenças e Clima: Duas Faces da Mesma Crise
O avanço da malária na Amazônia é um sintoma claro de um problema mais amplo. Causas como a perda de biodiversidade, o impacto de grandes projetos de infraestrutura e, cada vez mais, as mudanças climáticas, criam um cenário favorável para a proliferação de doenças. As alterações de temperatura e os padrões de chuva e seca intensos facilitam a vida dos mosquitos, agravando o quadro.
Laporta aponta que a solução para esse problema não pode se restringir ao tratamento médico. É crucial integrar o controle de vetores com a conservação florestal. Uma das chaves, ele sugere, está em tornar a floresta em pé economicamente mais vantajosa. Em vez de abrir terras para pastagem ou agricultura, a criação de modelos de negócio sustentáveis, como o pagamento por serviços ecossistêmicos e o mercado de carbono, poderia fornecer uma alternativa de renda para as comunidades locais.
Com a saúde entrando na agenda da COP30 em Belém, o estudo se torna um guia fundamental. A luta contra a malária e a proteção da floresta não são batalhas isoladas, mas sim frentes de um mesmo combate. A eliminação da doença na Amazônia passa, necessariamente, por um compromisso com a saúde da própria floresta.
saiba mais:A Malária no Brasil e a Influência da Mudança Climática
















































