Mudanças climáticas também intensificam frio no Brasil


Quando o frio extremo também revela a crise climática no Brasil

Durante décadas, o debate público sobre mudanças climáticas no Brasil foi associado quase exclusivamente ao aumento das temperaturas, às ondas de calor e às secas prolongadas. No entanto, a realidade tem se mostrado mais complexa. O mesmo processo que aquece o planeta também desorganiza a dinâmica atmosférica e favorece extremos de todos os tipos — inclusive episódios de frio intenso e geadas fora de época. O resultado é um país que pode registrar calor recorde em uma região e temperaturas anormalmente baixas em outra, no mesmo período.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O Brasil não está imune a esse fenômeno. Embora as projeções indiquem que, em termos globais, a frequência de dias frios venha diminuindo desde meados do século XX, os episódios que ainda ocorrem tendem a ser mais abruptos, desordenados e imprevisíveis. Esse novo padrão altera calendários agrícolas, pressiona sistemas de saúde e expõe fragilidades históricas da infraestrutura urbana e rural.

Atmosfera instável, extremos mais imprevisíveis

O frio extremo no contexto da crise climática não representa uma contradição, mas um sintoma da instabilidade atmosférica. O aquecimento global interfere em correntes de ar, na circulação de massas polares e nos sistemas de alta e baixa pressão. Isso pode favorecer incursões de ar frio mais intensas e deslocadas de seus períodos tradicionais.

No Sul e no Sudeste do Brasil, agricultores têm relatado geadas que ocorrem fora das safras habituais, atingindo lavouras em fases sensíveis de desenvolvimento. A imprevisibilidade compromete o planejamento agrícola, historicamente baseado em padrões relativamente estáveis de temperatura e precipitação.

Eventos extremos como geadas combinadas com secas prolongadas aceleram processos de degradação do solo. Áreas antes consideradas seguras para determinadas culturas tornam-se arriscadas. O produtor é forçado a redesenhar estratégias de plantio, investir em novas tecnologias ou migrar cultivos para outras regiões. Esse movimento, além de oneroso, carrega incertezas quanto à adaptação de sementes e variedades às novas condições ambientais.

Reprodução
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Impactos na saúde: o frio que mata silenciosamente

O frio intenso também tem efeitos diretos sobre a saúde pública. Estudos conduzidos em 18 cidades brasileiras, entre 1997 e 2018, apontaram que 113.528 mortes foram atribuídas ao frio, número significativamente superior às 29.170 associadas ao calor no mesmo período. O dado desmonta a percepção de que apenas as altas temperaturas representam risco significativo à vida.

Do ponto de vista fisiológico, o frio provoca vasoconstrição, mecanismo pelo qual os vasos sanguíneos se contraem para preservar o calor nos órgãos vitais. Esse processo eleva a pressão arterial e aumenta a carga sobre o coração. Em dias de frio extremo, o risco de morte cresce cerca de 22%, enquanto a probabilidade de infarto ou acidente vascular cerebral sobe aproximadamente 34%.

No Brasil, o problema é agravado pela precariedade habitacional. Casas, escolas e hospitais raramente contam com isolamento térmico adequado. Ao contrário de países acostumados a invernos rigorosos, a maior parte das edificações brasileiras foi projetada para dissipar calor, não para retê-lo. Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas tornam-se especialmente vulneráveis.

A desigualdade social aprofunda o quadro. Moradores de áreas periféricas e assentamentos informais enfrentam maior exposição térmica e dispõem de menos recursos para aquecimento ou adaptações estruturais. A crise climática, nesse contexto, não apenas altera o clima: amplia desigualdades já existentes.

Geadas e prejuízos bilionários no campo

No setor produtivo, as geadas representam um risco econômico expressivo. Entre 2019 e 2020, a combinação de seca e frio intenso na região Sul resultou em perdas agrícolas estimadas em R$ 13,4 bilhões. As culturas mais sensíveis são, em geral, plantas de ciclo fotossintético C3, como soja, feijão, trigo, arroz, algodão e café.

O café é um caso emblemático. Tradicionalmente associado ao Sudeste, especialmente a Minas Gerais e São Paulo, o cultivo enfrenta crescente vulnerabilidade climática. Projeções indicam que parte da produção poderá migrar para áreas mais ao Sul, onde as condições térmicas e de solo se mantenham favoráveis. A mudança implica custos elevados e reconfiguração de cadeias produtivas inteiras.

A mandioca, base alimentar em diversas regiões, também figura entre os cultivos vulneráveis à degradação ambiental associada aos extremos térmicos. Já culturas de ciclo C4, como milho e cana-de-açúcar, demonstram maior adaptabilidade relativa, mas não escapam de quedas significativas de produtividade diante de eventos fora de época.

Além das perdas diretas nas lavouras, há impactos indiretos. Produtores precisam ampliar gastos com seguros agrícolas, tecnologias de mitigação e replantio. A instabilidade na oferta de alimentos gera volatilidade de preços, afetando consumidores e pressionando a segurança alimentar.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Infraestrutura despreparada e desafios de adaptação

A vulnerabilidade brasileira diante do frio extremo expõe um desafio estrutural. A adaptação passa tanto por medidas simples quanto por transformações de longo prazo. Vedação de frestas, uso de cortinas mais espessas, reorganização de ambientes internos e proteção de encanamentos são estratégias domésticas de curto prazo. No entanto, o problema exige políticas públicas integradas.

Investimentos em eficiência energética e em construções com melhor desempenho térmico são fundamentais. Edificações planejadas para conservar calor no inverno e reduzir o superaquecimento no verão oferecem dupla vantagem em um cenário de extremos climáticos. A ampliação de programas habitacionais que incorporem critérios de conforto térmico pode reduzir riscos sanitários e custos hospitalares.

No campo, a pesquisa agrícola e o desenvolvimento de variedades mais resistentes tornam-se estratégicos. O fortalecimento de sistemas de monitoramento climático e de alerta precoce também é essencial para minimizar danos.

A crise climática, portanto, não se resume ao aumento da temperatura média global. Ela se manifesta como instabilidade, como quebra de padrões e como ampliação de riscos. No Brasil, as geadas fora de época ilustram essa nova realidade. O frio extremo deixa de ser exceção isolada e passa a integrar o mosaico de eventos que desafiam planejamento, infraestrutura e políticas públicas.

Reconhecer essa complexidade é passo decisivo para enfrentar o problema. Enquanto o debate permanecer restrito ao calor, parte significativa dos impactos continuará subestimada. A emergência climática se expressa tanto nos termômetros que disparam quanto nos que despencam. E ambos exigem respostas estruturais, científicas e sociais à altura do desafio.