Fungo amazônico revela potencial para controle de doenças agrícolas e aplicações médicas


Fungo amazônico abre nova fronteira para agricultura e medicina

A floresta amazônica continua a revelar camadas invisíveis de sua riqueza. Em um fragmento microscópico retirado da casca de uma árvore nativa, pesquisadores encontraram um aliado promissor para a agricultura sustentável e, possivelmente, para o combate a infecções bacterianas. A nova espécie, batizada de Trichoderma agriamazonicum, amplia o horizonte da biotecnologia ao combinar controle biológico de doenças agrícolas com a produção de compostos naturais inéditos.

Foto: Hans ter Steege / Naturalis.

A descoberta foi conduzida por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e reforça o papel estratégico da biodiversidade amazônica como fonte de inovação científica. O microrganismo pertence ao gênero Trichoderma, conhecido por sua capacidade de antagonizar fungos fitopatogênicos e proteger culturas agrícolas. No entanto, essa nova espécie apresenta características genéticas próprias que a diferenciam das demais já catalogadas.

Isolado a partir da casca do cardeiro (Scleronema micranthum), árvore madeireira nativa da Amazônia, o fungo estava preservado desde 2004 em uma coleção de culturas. Foi apenas durante estudos taxonômicos recentes que os pesquisadores perceberam tratar-se de uma espécie ainda não descrita pela ciência. A identificação formal ocorreu em 2023, quando Thiago Fernandes Sousa, então doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), sob orientação do pesquisador Gilvan Ferreira da Silva, confirmou a singularidade genética do isolado.

Controle biológico e defesa das lavouras

Ensaios realizados no Laboratório de Inovação em Microbiologia Aplicada da Amazônia, conhecido como Amazon Micro-Biotech, demonstraram que o Trichoderma agriamazonicum é capaz de inibir o crescimento de nove espécies de fungos fitopatogênicos responsáveis por doenças foliares em culturas agrícolas. Entre eles estão Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp., agentes que atacam plantações de soja, frutas e outras culturas de relevância econômica.

O mecanismo de ação é duplo. O fungo atua por micoparasitismo, estabelecendo contato direto com o patógeno e degradando suas estruturas, e também pela liberação de compostos orgânicos voláteis que inibem o crescimento micelial à distância. Essa combinação amplia sua eficácia e o posiciona como candidato a insumo biológico em sistemas agrícolas que buscam reduzir a dependência de agroquímicos sintéticos.

O avanço é significativo em um contexto em que o controle de doenças agrícolas enfrenta o desafio crescente da resistência a fungicidas convencionais. O uso de agentes biológicos como Trichoderma agriamazonicum pode representar não apenas uma alternativa ambientalmente mais segura, mas também uma estratégia de manejo integrado mais resiliente.

Peptídeos inéditos e potencial contra bactérias resistentes

O aspecto mais inovador da pesquisa, no entanto, emerge da análise do genoma do fungo. Por meio da mineração de agrupamentos de genes biossintéticos — conjuntos responsáveis pela produção de metabólitos secundários — os pesquisadores identificaram sequências capazes de originar peptaibols, uma classe de peptídeos não ribossomais com atividade antimicrobiana.

Utilizando um algoritmo preditivo, a equipe conseguiu antecipar a sequência de aminoácidos desses compostos antes mesmo de isolá-los fisicamente. A estratégia, denominada syn-BNP (Synthetic Bioinformatic Natural Product), acelera a descoberta de moléculas bioativas ao dispensar longos processos de cultivo e purificação.

Um dos peptaibols sintetizados, composto por 18 aminoácidos, demonstrou atividade contra bactérias como Streptococcus sp. e Klebsiella pneumoniae, associadas a infecções respiratórias e hospitalares. Em um cenário global marcado pelo avanço da resistência antimicrobiana, a identificação de novas moléculas com potencial terapêutico é estratégica.

O mesmo composto também apresentou ação antifúngica contra Pseudopestalotiopsis sp., causador de mancha foliar em guaranazeiro. Essa versatilidade reforça o caráter multifuncional do Trichoderma agriamazonicum, que transita entre a defesa vegetal e a possível aplicação médica.

 Imagem de árvores da floresta tropical próximas ao lençol freático, capturada na bacia hidrográfica de uma área de pesquisa na Reserva das Cuieiras, nos arredores de Manaus
Imagem de árvores da floresta tropical próximas ao lençol freático, capturada na bacia hidrográfica de uma área de pesquisa na Reserva das Cuieiras, nos arredores de Manaus

Crescimento vegetal e limites biológicos

Outra linha de investigação avaliou a capacidade do fungo de promover o crescimento vegetal. Em laboratório, uma linhagem da espécie produziu 60,53 µg/mL de ácido indolacético (AIA), fitormônio essencial para o desenvolvimento radicular e alongamento celular. O desempenho colocou o isolado entre os maiores produtores avaliados.

Entretanto, testes em casa de vegetação revelaram que a elevada produção de AIA não se traduziu automaticamente em maior crescimento de plantas de pimentão. O resultado indica que o estímulo ao desenvolvimento vegetal depende de um conjunto de interações bioquímicas e ambientais, e não de um único fator hormonal.

A constatação reforça a complexidade dos sistemas biológicos e aponta para a necessidade de estudos integrados que considerem solo, microbiota, clima e manejo agrícola. Ainda assim, o potencial permanece relevante, sobretudo quando associado à capacidade de controle de patógenos.

Embrapa
Embrapa

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Biodiversidade preservada, inovação revelada

A trajetória do Trichoderma agriamazonicum evidencia a importância estratégica das coleções biológicas. Preservado por quase duas décadas, o isolado só revelou seu valor científico e tecnológico graças à manutenção cuidadosa do acervo microbiológico.

Sem esse esforço contínuo de conservação, o microrganismo poderia ter sido perdido antes mesmo de ser estudado. O caso também expõe a fragilidade da biodiversidade amazônica: o fungo foi coletado de uma árvore que poderia ter sido explorada economicamente antes da identificação de seu potencial biotecnológico.

As pesquisas contaram com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), além da atuação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Embrapa Amazônia Ocidental.

Mais do que a descrição de uma nova espécie, a descoberta simboliza uma mudança de perspectiva. A Amazônia deixa de ser vista apenas como reserva de recursos naturais e passa a ser reconhecida como laboratório vivo de inovação. Cada microrganismo preservado pode conter moléculas capazes de transformar cadeias produtivas, fortalecer a agricultura sustentável e contribuir para enfrentar desafios globais de saúde pública.

O Trichoderma agriamazonicum, invisível a olho nu, revela que a ciência na floresta é também um investimento estratégico. Ao integrar conservação, pesquisa e aplicação tecnológica, a biodiversidade amazônica reafirma seu papel como fronteira de conhecimento e fonte de soluções para um mundo que busca alternativas mais sustentáveis e eficazes.