A crise climática global impõe desafios inéditos para as economias do mundo inteiro. Entre as principais urgências está a necessidade de aumentar significativamente os investimentos em energia limpa, especialmente nos países em desenvolvimento. É nesse contexto que a presidência brasileira do G20, em parceria com a Agência Internacional de Energia (IEA), lançou um roteiro ambicioso para impulsionar financiamentos no setor e garantir que metas climáticas sejam alcançadas.
Atualmente, enquanto os investimentos globais em energia limpa devem ultrapassar US$ 2 trilhões em 2024, apenas 15% desse total chega aos países em desenvolvimento, excluindo a China. Isso é alarmante, considerando que essas economias abrigam dois terços da população mundial e são responsáveis por grande parte do crescimento projetado na demanda por energia nas próximas décadas. O roteiro do G20 destaca a necessidade de um aumento de seis vezes nos investimentos em energia limpa nesses países, passando de US$ 280 bilhões em 2023 para US$ 1,8 trilhão até 2035. Essa é a única maneira de alinhar os esforços globais ao objetivo de limitar o aquecimento a 1,5°C.
Entretanto, o documento reconhece que o financiamento público, por si só, não será suficiente. A mobilização de capital privado em escala sem precedentes será essencial. Para isso, será necessário superar obstáculos como o alto custo do capital em muitos países em desenvolvimento, que chega a ser o dobro do encontrado em economias avançadas. Esse fator encarece os projetos de energia limpa, reduzindo sua viabilidade econômica e atrasando a transição energética. Segundo o relatório, uma redução de 1% no custo do capital nesses países poderia economizar até US$ 150 bilhões anuais em custos de financiamento.
O roteiro do G20 propõe uma abordagem dividida em três categorias: investimentos liderados pelo setor privado, intervenções facilitadas por parcerias público-privadas e projetos financiados predominantemente pelo setor público. Essas estratégias buscam equilibrar os riscos e atrair diferentes tipos de investidores. Para os países menos desenvolvidos, onde o risco é alto e o capital privado é escasso, será necessário triplicar os fundos concessionais até 2030. Já em mercados emergentes, instrumentos como garantias e dívidas subordinadas poderão atrair investimentos institucionais.
Outro aspecto central é a redução de barreiras regulatórias e a criação de ambientes de investimento mais seguros e previsíveis. Para isso, o G20 recomenda fortalecer instituições locais e promover maior transparência nos custos de capital. Além disso, o roteiro sugere o uso estratégico de dados para melhorar a percepção de riscos entre investidores, citando a ampliação do banco de dados Global Emerging Markets Risk como exemplo.
Embora o roteiro seja um guia global, ele reconhece as particularidades de cada país. Estratégias nacionais precisam alinhar metas de desenvolvimento com os compromissos climáticos. A capacitação de instituições locais é outro ponto crucial, assim como o apoio de organizações internacionais no desenho e implementação de políticas públicas. Iniciativas como programas regionais para transição energética justa, que englobem setores como transporte, edificações e redes de energia, são fundamentais para acelerar a transição.
Nesse sentido, a cooperação internacional desempenha um papel indispensável. Países avançados devem intensificar o apoio financeiro e técnico aos países em desenvolvimento. Isso inclui não apenas a transferência de recursos, mas também a co-desenvolvimento de tecnologias limpas e o fortalecimento de mercados locais.
O roteiro também destaca histórias de sucesso que podem servir de inspiração. O Brasil, por exemplo, já lidera em investimentos em energia solar e eólica, enquanto a Índia tem ampliado rapidamente seu portfólio de energia renovável. Ambos os países demonstram que, com políticas consistentes e suporte adequado, é possível atrair capital privado e desenvolver mercados energéticos sustentáveis.
Contudo, desafios persistem. A falta de financiamento adequado para tecnologias emergentes, como hidrogênio verde e captura de carbono, ainda limita seu potencial. Além disso, a transição energética precisa ser inclusiva, garantindo que comunidades vulneráveis tenham acesso à energia limpa a preços acessíveis.
O roteiro do G20 é um chamado à ação. Ele reconhece que a transição energética global não pode ser alcançada sem os países em desenvolvimento. Com bilhões de dólares necessários para atender à crescente demanda por energia, o documento propõe soluções pragmáticas e acionáveis, mas depende do comprometimento de governos, setor privado e organizações internacionais.
Se implementado corretamente, o plano poderá transformar o panorama energético global, reduzindo desigualdades e abrindo caminho para um futuro sustentável. Mais do que um desafio, a transição energética representa uma oportunidade histórica de redefinir a relação da humanidade com os recursos naturais e combater as mudanças climáticas de forma efetiva e equitativa.
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