Glitter do Carnaval persiste por meses e ameaça ecossistemas marinhos


O brilho que fica: carnaval, microplástico e a herança invisível nas praias

O Carnaval brasileiro costuma ser associado à alegria, à ocupação dos espaços públicos e à celebração coletiva. Mas, longe dos desfiles e dos blocos, a festa deixa um rastro menos visível e muito mais duradouro. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) revelou que partículas de glitter à base de microplástico permanecem na areia da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, até oito meses após o encerramento da folia.

Foto: Jorge Júnior/GEA

O trabalho foi realizado em um dos pontos mais simbólicos da cidade, cartão-postal da Baía de Guanabara e palco frequente de grandes blocos carnavalescos, alguns reunindo mais de 100 mil pessoas. A escolha do local se deu tanto pela relevância ecológica quanto pela logística: trata-se de uma praia urbana intensamente utilizada, onde os impactos ambientais das atividades humanas se manifestam com rapidez e clareza.

Os pesquisadores coletaram amostras de areia em quatro momentos distintos: três dias antes do Carnaval, durante os dias da festa, logo após o término e oito meses depois. Os resultados mostram um padrão inequívoco. A menor concentração de microplásticos foi registrada antes do evento. O pico ocorreu logo após os dias de maior aglomeração. O dado mais alarmante, no entanto, foi a persistência dessas partículas muitos meses depois, indicando que o material não apenas se acumula, mas permanece ativo no ambiente costeiro.

Da areia ao prato: impactos na vida marinha e na cadeia alimentar

A presença prolongada de microplásticos nas praias não é apenas um problema estético ou local. Há evidências crescentes de que essas partículas são ingeridas por organismos marinhos em diferentes níveis da cadeia alimentar, do plâncton aos peixes. Esse consumo involuntário pode causar inflamações, estresse fisiológico, redução do crescimento e danos ao trato digestivo dos animais.

Estudos analisados por veículos especializados, como O Eco Debate (O Eco), indicam que os microplásticos funcionam como vetores de contaminação química e biológica. Ao se fragmentarem, eles liberam aditivos tóxicos e acumulam poluentes presentes na água do mar, ampliando seus efeitos nocivos.

Mais recentemente, pesquisadores passaram a observar um impacto ainda mais profundo: a interferência direta no ciclo do carbono oceânico. Análises de estudos da última década mostram que os microplásticos afetam processos biológicos essenciais para o sequestro de carbono pelo oceano, um dos principais reguladores naturais do clima global. Ao prejudicar a fotossíntese do fitoplâncton e o metabolismo do zooplâncton, essas partículas comprometem a capacidade do mar de absorver dióxido de carbono (CO₂), acelerando os efeitos do aquecimento global.

Nesse contexto, o glitter usado como adereço festivo deixa de ser um detalhe inofensivo e passa a integrar um problema ambiental sistêmico, que conecta lazer urbano, poluição marinha e mudanças climáticas.

Foto: Raphael David/Agência Brasil
Foto: Raphael David/Agência Brasil

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Regulação travada e o debate sobre alternativas biodegradáveis

No Brasil, a discussão sobre o uso de glitter à base de microplástico já chegou ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei nº 347/20 propõe a proibição da fabricação e da comercialização desse tipo de produto no país. Apesar da relevância ambiental e sanitária, o texto permanece parado na Câmara dos Deputados (Câmara dos Deputados), sem avanços significativos.

Para Tatiana Medeiros Barbosa Cabrini, professora da UNIRIO e coautora do estudo, a falta de progresso reflete um debate ainda imaturo. Segundo ela, o avanço depende de pressão social, engajamento institucional e, sobretudo, da viabilidade de alternativas biodegradáveis que sejam acessíveis e economicamente competitivas. Hoje, já existem glitters produzidos a partir de celulose vegetal e outros materiais naturais, mas seu custo ainda limita a adoção em larga escala.

Enquanto o debate ambiental avança lentamente, a área da saúde deu passos mais firmes. Em novembro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu quatro marcas de glitter que continham materiais plásticos em sua composição e eram anunciadas como comestíveis. A medida atingiu produtos das marcas Glitz, Jeni e Joni, Iceberg Chef e Jady Confeitos, fabricados por empresas como a FAB Indústria e Comércio de Produtos para Artes e Festas Ltda, Nadja F. de Almeida Confeitos, Iceberg Indústria e Comércio Ltda e Jady Confeitos Artesanais Ltda.

A Anvisa determinou a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição, propaganda e uso desses produtos, além do recolhimento dos itens já vendidos. A agência também notificou plataformas de comércio eletrônico como Mercado Livre, Amazon, Shopee e Magazine Luiza para remover anúncios que sugerissem o uso alimentar desses glitters.

Do Carnaval à Ilha de Trindade: um problema que se espalha

O caso do glitter no Carnaval carioca não é isolado. Pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificaram a presença de macroplásticos e microplásticos nos ninhos de tartaruga-verde na Ilha de Trindade, ponto mais oriental do território brasileiro. Os resultados foram publicados na revista científica Marine Pollution Bulletin (Marine Pollution Bulletin).

Na ilha, os pesquisadores observaram a formação de “rochas plásticas”, aglomerados de resíduos plásticos misturados a sedimentos naturais, originados principalmente de atividades humanas como fogueiras. Essas estruturas vêm se erodindo desde 2019, espalhando fragmentos por pelo menos seis praias da ilha. O material se acumula justamente nas depressões onde as tartarugas enterram seus ovos, comprometendo a conservação da espécie.

A conexão entre esses episódios é clara. Seja no brilho efêmero do Carnaval urbano, seja em ilhas remotas do Atlântico, o plástico se infiltra silenciosamente nos ecossistemas, deixando marcas duradouras. O desafio não está apenas em limpar praias após grandes eventos, mas em repensar materiais, hábitos de consumo e políticas públicas.

O glitter que encanta por algumas horas pode permanecer por anos no ambiente. E, ao contrário da festa, seus efeitos não acabam quando o som silencia e os foliões vão embora.