A ciência brasileira mapeia plásticos no cérebro do Sirius ao consultório


A sentinela invisível: a tecnologia na vanguarda contra o cerco dos microplásticos

O que não vemos pode, de fato, nos ferir. Em 2026, a ciência consolidou a compreensão de que vivemos em uma era de onipresença plástica, onde partículas menores que um grão de poeira cruzam as barreiras do nosso organismo com a facilidade de um fantasma. No entanto, se o problema é invisível a olho nu, a solução está sendo forjada nos laboratórios de alta complexidade. Do uso de aceleradores de partículas a algoritmos de inteligência artificial, a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de observação para se tornar a nossa principal linha de defesa contra os micro e nanoplásticos que agora habitam nosso sangue, cérebro e até corações.

Foto: Photograph Samunella

O desafio é hercúleo: como identificar uma partícula de PET ou poliestireno escondida entre milhões de células humanas? A resposta brasileira veio do Sirius, o acelerador de partículas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) utilizaram a radiação síncrotron para iluminar tecidos biológicos e, pela primeira vez, caracterizar a presença de polímeros no cérebro humano. Essa técnica de espectroscopia infravermelha de alta precisão permite “ler” a assinatura química do plástico sem destruir a amostra, revelando um mapa da invasão que antes era mera suspeita.

O rastro químico: caçando polímeros com luz e massa

A detecção precisa exige métodos que vão além da simples observação visual. A microespectroscopia Raman e a técnica de infravermelho (FTIR) tornaram-se os olhos da medicina moderna. Enquanto a primeira utiliza o espalhamento de laser para identificar polímeros em escala micrométrica, a segunda analisa como a luz é absorvida para diferenciar um plástico de uma proteína. Esse nível de detalhamento é vital, pois permite que os médicos entendam quais tipos de plásticos estão mais associados a processos inflamatórios crônicos e ao estresse oxidativo, o mecanismo por trás de danos celulares e lesões no DNA.

Outra aliada poderosa é a Pirólise acoplada à Espectrometria de Massas (Py-GC/MS). Ao contrário dos microscópios que contam partículas individuais, essa tecnologia “derrete” a amostra — seja ela sangue ou tecido — para medir a massa total de plástico presente. Com isso, é possível quantificar a carga polimérica total que um indivíduo carrega, fornecendo dados cruciais para estudos epidemiológicos que ligam a poluição plástica a doenças degenerativas e à infertilidade. A precisão é tamanha que permite separar o plástico de aditivos químicos, como o bisfenol A, que atuam como disruptores endócrinos no corpo.

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Inteligência Artificial: o cérebro eletrônico que identifica o poluente

O tempo é um fator crítico na pesquisa ambiental. Analisar manualmente milhares de partículas sob um microscópio é uma tarefa exaustiva e sujeita a falhas. É aqui que entra a Inteligência Artificial. Sistemas inovadores como a plataforma FIMAP utilizam um corante chamado Nile Red, que faz o plástico brilhar (fluorescência) sob luz específica. O diferencial, porém, está no software. Algoritmos de aprendizado de máquina, como o k-means clustering, segmentam automaticamente as imagens, separando o brilho do plástico do brilho natural da matéria orgânica.

Essa automação permite um alto rendimento nas análises. O que antes levava dias para ser contado por um pesquisador, hoje é processado em minutos por redes neurais treinadas para distinguir o formato e a cor de cada polímero. Essa tecnologia de “visão computacional” não apenas acelera a descoberta científica, mas também barateia o monitoramento em larga escala, permitindo que cidades e hospitais possam realizar triagens rotineiras sobre a carga de microplásticos na água potável ou em biópsias de pacientes com riscos cardiovasculares elevados.

Foto: Alexander Stein
Foto: Alexander Stein

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Nanotecnologia magnética: a faxina em escala atômica

Se a detecção avançou, a remoção começou a seguir o mesmo ritmo. Uma das frentes mais promissoras da ciência brasileira envolve o uso de nanopartículas magnéticas. Pesquisadores do Instituto de Química da USP desenvolveram uma espécie de “cola” magnética que, quando lançada na água, atrai e envolve os microplásticos dispersos. Como um imã gigante em escala atômica, o sistema permite “pescar” os poluentes de rios e reservatórios antes que eles cheguem às nossas torneiras.

Além da magnetização, novas membranas de filtragem baseadas em nanomateriais estão sendo projetadas para reter os nanoplásticos — partículas tão pequenas que atravessam filtros convencionais de tratamento de esgoto. Essas barreiras tecnológicas são a nossa última chance de evitar que o plástico entre na cadeia alimentar e, consequentemente, em órgãos vitais. Estudos recentes indicam que a presença dessas partículas em placas de gordura nas artérias pode quintuplicar o risco de infarto ou AVC. Portanto, limpar a água não é apenas uma questão de conservação ambiental, mas de saúde pública urgente.

O futuro da medicina ambiental e a barreira hematoencefálica

A tecnologia nos permitiu ver o impensável: plásticos atravessando a barreira hematoencefálica e se acumulando no cérebro, ou sendo detectados em placentas e no leite materno. Esse conhecimento, embora alarmante, é o que permite o desenvolvimento de terapias preventivas. Ao entender como os polímeros interagem com o sistema imunológico, cientistas podem começar a buscar formas de mitigar a inflamação vascular e os danos hormonais.

A integração entre biotecnologia e engenharia de materiais aponta para um futuro onde o monitoramento da “carga plástica” pessoal poderá fazer parte de exames de rotina. Empresas como a Thermo Fisher Scientific e a Agilent Technologies já investem em equipamentos de espectroscopia cada vez mais portáteis e acessíveis. O objetivo final é claro: transformar a tecnologia em um filtro entre a poluição global e a biologia humana, garantindo que o progresso material do último século não se torne a sentença de saúde do próximo.