
As sombras de Candiota e o custo invisível do carvão nacional
O pampa gaúcho, historicamente associado à vastidão das pastagens e ao vigor da pecuária, abriga em seu subsolo uma herança geológica que se tornou o epicentro de um dilema ético e sanitário contemporâneo. No município de Candiota, as operações de extração e queima de carvão mineral desenham um cenário onde o progresso energético parece caminhar em sentido oposto à preservação da vida. Um levantamento técnico detalhado, fruto da cooperação entre o Centre for Research on Energy and Clean Air e o Instituto Internacional Arayara, revela que o preço dessa eletricidade não se limita às faturas mensais, mas é pago com a integridade física de populações inteiras, cruzando inclusive as fronteiras brasileiras.
A análise projeta um horizonte sombrio até o ano de 2040, estimando que as atividades no complexo carbonífero podem ser responsáveis por até 1,3 mil óbitos. Esse cálculo não é uma abstração estatística, mas o resultado de um monitoramento que já identifica 430 mortes ocorridas entre 2017 e 2025, somadas a uma previsão de 870 novas fatalidades nos próximos quinze anos. O que se observa em Candiota é a manifestação de uma responsabilidade transfronteiriça, uma vez que a pluma de poluentes não respeita marcos geográficos, atingindo comunidades na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. A desproporção é flagrante: enquanto o carvão ocupa uma posição marginal na matriz energética brasileira, seu impacto negativo sobre a saúde pública é vasto e persistente.
A mecânica da poluição e o cerco ao sistema respiratório
O carvão mineral extraído em solo brasileiro carrega uma característica físico-química complexa: um elevado teor de cinzas. Quando esse material é submetido à queima nas caldeiras térmicas, libera uma carga massiva de material particulado fino, conhecido tecnicamente como PM2.5. Essas partículas são tão diminutas que vencem as barreiras naturais do organismo humano, instalando-se profundamente nos pulmões e alcançando a corrente sanguínea. O resultado é uma erosão silenciosa da saúde coletiva, manifestada em diagnósticos de câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica, acidentes vasculares cerebrais e diabetes.

A vulnerabilidade não é distribuída de forma equânime. O estudo enfatiza que o ciclo de vida do carvão, desde a mineração até o transporte e a combustão final, cria uma zona de exposição cumulativa que vitima prioritariamente os mais frágeis. Idosos e crianças são os primeiros a sofrer com a exacerbação de crises asmáticas e infecções respiratórias. Mais grave ainda é a constatação de que o impacto começa antes mesmo do primeiro suspiro: a poluição atmosférica derivada das usinas está diretamente ligada a resultados adversos no parto. As projeções indicam que, até 2040, cerca de 460 partos prematuros e 270 nascimentos com baixo peso ocorrerão devido à qualidade do ar degradada na região, selando destinos antes mesmo do desenvolvimento pleno desses indivíduos.
O paradoxo econômico e a barreira dos subsídios
Embora o Rio Grande do Sul concentre a maior parte das reservas e da produção nacional de carvão, a viabilidade econômica desse setor é mantida artificialmente por uma estrutura de fomento público que desafia a lógica da transição energética global. Projetos como as minas de Seival Sul e as usinas de Pampa Sul e Candiota III operam sob o amparo da Lei 15.269/2025, que assegura a contratação dessa fonte até o final da próxima década. Esse suporte legislativo cria um cenário de contradição: o Brasil, detentor de um dos maiores potenciais de energia renovável do mundo com suas fontes eólica e solar, continua a subsidiar uma matriz que contribui com apenas 1,6% da eletricidade total, mas gera passivos bilionários.
Os prejuízos estimados em saúde alcançam a cifra de R$ 11,7 bilhões. Para além dos gastos diretos com internações e tratamentos, há uma hemorragia econômica invisível na produtividade. O relatório aponta uma previsão de 510 milhões de dias de faltas ao trabalho acumulados até 2040 em decorrência de doenças ligadas à poluição do carvão. Essa interrupção constante nos fluxos de trabalho afeta múltiplos setores da economia regional, demonstrando que o baixo custo nominal da energia térmica é uma ilusão contábil. Quando se somam os custos externos, a energia do carvão se revela uma das mais onerosas para o Estado e para a sociedade civil brasileira.

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O caminho para uma transição soberana e justa
A superação do modelo carbonífero exige mais do que o simples desligamento de turbinas; requer um planejamento estratégico que harmonize os compromissos do Brasil com o Acordo de Paris e a necessidade de amparar as comunidades que hoje dependem economicamente da mineração. A eliminação gradual do carvão deve ser acompanhada por políticas de requalificação profissional e pela atração de investimentos em tecnologias limpas para a região de Candiota. Especialistas defendem que a liderança global do país em sustentabilidade depende da coragem política de revisar contratos e extinguir isenções tributárias que mantêm fontes fósseis no topo da prioridade orçamentária.
As recomendações das entidades de pesquisa são claras: é urgente a adoção de um cronograma legal para o descomissionamento das usinas, condicionado a avaliações rigorosas de impacto à saúde em cada renovação de licença ambiental pelo Ibama. Por outro lado, a Associação Brasileira do Carbono Sustentável, em defesa do setor, sustenta que as emissões são monitoradas sob parâmetros científicos rigorosos. Contudo, o debate que se impõe para os próximos anos não é apenas sobre o cumprimento de limites técnicos, mas sobre a justiça social e o direito fundamental ao ar limpo. A transição para uma matriz descarbonizada é, acima de tudo, um imperativo de saúde pública que definirá a qualidade de vida das gerações futuras no sul do Brasil.




