Produção em alta, pressão ambiental crescente
O crescimento da produção de veículos no Brasil em 2025, com alta de 3,5% e fabricação de 2,64 milhões de unidades, reafirma a força da indústria automotiva nacional no cenário global. Os dados divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram um setor em recuperação, impulsionado principalmente pelos veículos leves e pelo avanço expressivo das exportações. No entanto, por trás dos números positivos, emerge uma engrenagem silenciosa que sustenta essa expansão: a mineração, atividade que carrega consigo impactos ambientais profundos e, muitas vezes, irreversíveis.

Cada automóvel produzido incorpora uma extensa lista de minerais — aço, alumínio, cobre, níquel, lítio, cobalto — extraídos do solo brasileiro ou importados. O avanço tecnológico, especialmente com a eletrificação da frota, ampliou ainda mais a demanda por esses insumos. Baterias de veículos elétricos, por exemplo, dependem diretamente de minerais estratégicos cuja extração vem se intensificando em diversas regiões do país, inclusive em áreas ambientalmente sensíveis.
O paradoxo é evidente: enquanto o setor automotivo se projeta como parte da solução climática ao reduzir emissões na fase de uso dos veículos, sua cadeia produtiva aprofunda pressões sobre florestas, rios e comunidades tradicionais, sobretudo quando a mineração ocorre à margem da legalidade.
A mineração como elo oculto da indústria automotiva
A mineração é um pilar estrutural da indústria automobilística moderna. Sem ferro, alumínio e cobre, não há chassis, motores, sistemas elétricos ou eletrônicos. Sem lítio, cobalto e níquel, não há baterias capazes de sustentar a transição para a mobilidade elétrica. Essa interdependência transformou o setor mineral em protagonista silencioso da inovação automotiva.
Entidades como o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) defendem que a mineração industrial legal opera sob rigorosos processos de licenciamento ambiental e fiscalização. De fato, grandes empresas seguem normas técnicas e padrões internacionais de sustentabilidade. Ainda assim, dados de monitoramento ambiental mostram que uma parcela significativa da extração mineral no Brasil ocorre de forma ilegal, especialmente na Amazônia.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por meio do sistema Deter, mais de 405 quilômetros quadrados de floresta amazônica foram desmatados pela mineração nos últimos cinco anos. Grande parte dessa devastação está associada ao garimpo ilegal, que avança sobre terras indígenas e unidades de conservação, abrindo crateras, contaminando rios com mercúrio e deixando um rastro de degradação difícil de reverter.
Esse cenário expõe uma contradição estrutural: enquanto a indústria automotiva projeta um futuro mais limpo, parte da base material que sustenta esse futuro é extraída por práticas ambientalmente predatórias.

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Amazônia: o custo ambiental da corrida por minerais
O avanço da mineração na Amazônia tem produzido impactos desproporcionais. Levantamentos do Greenpeace Brasil indicam que mais de 70% da mineração detectada recentemente na região ocorreu dentro de áreas protegidas. Terras indígenas como as dos povos Munduruku, Kayapó e Yanomami tornaram-se epicentros de conflitos socioambientais, com aumento da violência, contaminação por mercúrio e destruição de ecossistemas aquáticos.
Pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) alertam que o garimpo ilegal atua como vetor de outras ilegalidades, abrindo estradas clandestinas, facilitando a exploração madeireira e estimulando a ocupação desordenada. O impacto vai além da área diretamente desmatada: rios são descaracterizados, a biodiversidade colapsa e comunidades perdem suas bases de subsistência.
Estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o WWF-Brasil revelam níveis alarmantes de contaminação por mercúrio em populações indígenas, com efeitos graves sobre o desenvolvimento neurológico de crianças. Esses dados reforçam que o custo ambiental da mineração ilegal não se limita à paisagem: ele se traduz em danos humanos duradouros.
Sustentabilidade como fronteira decisiva do setor
Diante desse quadro, cresce a pressão para que a cadeia automotiva e mineral incorpore critérios ambientais mais rigorosos. A expansão da reciclagem de metais, o reaproveitamento de baterias e o desenvolvimento de tecnologias menos dependentes de minerais escassos surgem como caminhos estratégicos. A chamada mineração responsável — baseada em rastreabilidade, respeito às comunidades e redução de impactos — deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência social.
Empresas do setor industrial, representadas também pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), reconhecem que o futuro da competitividade passa pelo alinhamento entre produção, inovação e preservação ambiental. No entanto, especialistas apontam que sem fiscalização efetiva por parte de órgãos como o Ibama e a Agência Nacional de Mineração (ANM), a distância entre discurso e prática tende a se ampliar.
O crescimento da produção de veículos, celebrado como indicador econômico, expõe um desafio estrutural: não há transição energética legítima se ela for construída sobre a destruição de florestas e a violação de direitos. O verdadeiro avanço do setor automotivo brasileiro dependerá não apenas de quantos veículos são produzidos, mas de como e a que custo ambiental cada um deles chega às ruas.












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