Investimento verde, terras degradadas viram nova fronteira para agtechs e investidores


O agronegócio brasileiro sempre esteve diante de um dilema: como crescer sem ampliar o desmatamento? A resposta pode estar em um ativo esquecido e muitas vezes visto como passivo: as terras degradadas. Hoje, estima-se que 28 milhões de hectares de pastagens improdutivas estejam espalhados pelo país, uma área equivalente a quase o território da Itália.

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Em vez de abrir novas fronteiras agrícolas na Amazônia ou no Cerrado, pesquisadores, investidores e startups começam a enxergar nesses solos cansados uma oportunidade estratégica. O movimento une produção sustentável, valorização fundiária e impacto climático positivo, numa equação que pode redefinir os rumos do agro nas próximas décadas.

Segundo o relatório “Áreas de Pastagens Degradadas e Potencial de Conversão”, elaborado pelo Itaú BBA, o potencial econômico é gigantesco. Se transformados em lavouras de alta produtividade, esses hectares poderiam gerar até R$ 904 bilhões em valorização de terras, além de ampliar em 52% a produção nacional de grãos — sem derrubar uma única árvore a mais.

Do passivo ao ativo: o despertar da agricultura regenerativa

O Brasil convive com um paradoxo histórico. É uma potência agrícola mundial, mas parte relevante do seu território rural opera abaixo do potencial. De acordo com a Embrapa, cerca de 57% das pastagens apresentam algum grau de degradação. Isso significa que mais da metade do pasto brasileiro está empobrecido, com solos erodidos, baixa fertilidade e cobertura vegetal insuficiente para manter a produtividade.

Por outro lado, a ciência já provou que boa parte dessas áreas é recuperável. Com práticas como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, correção do solo e uso de insumos biológicos, é possível devolver vitalidade às terras, transformando antigas pastagens degradadas em sistemas de alta performance agrícola.

Esse processo, que ganha o nome de agricultura regenerativa, não apenas aumenta a produção como sequestra carbono, melhora a retenção de água no solo e fortalece a resiliência das propriedades frente às mudanças climáticas.

A barreira do financiamento

Se a tecnologia já existe, o que impede a revolução? A resposta é simples: dinheiro. Recuperar terras degradadas exige investimentos altos e de médio a longo prazo. Segundo cálculos do Itaú BBA, o esforço financeiro necessário pode variar de R$ 188 bilhões a R$ 482 bilhões, dependendo do nível de degradação e da infraestrutura disponível.

Para grandes grupos agrícolas, com acesso a capital de baixo custo, esse investimento é viável. Mas para médios e pequenos produtores, a conta não fecha. Isso porque o retorno pleno da produtividade costuma levar 3 a 5 safras — um tempo que não se encaixa nos prazos das linhas de crédito rural tradicionais.

O resultado é um enorme gargalo de financiamento. O relatório da Climate Policy Initiative (CPI) Brasil mostrou que, em 2023, apenas 2% dos recursos financeiros destinados ao clima no Brasil foram direcionados para agricultura regenerativa e uso da terra. Em números absolutos, isso representou uma fatia mínima diante do potencial de transformação.

Outro dado impressiona: dentro do Plano ABC+, política pública do Ministério da Agricultura voltada para a baixa emissão de carbono, apenas R$ 3,5 bilhões foram aplicados em 2022 em tecnologias de recuperação de pastagens — uma gota no oceano diante das necessidades.

A resposta do mercado: finanças verdes e agtechs

É nesse cenário que surgem soluções inovadoras. Uma delas vem do equity crowdfunding, modelo que permite que múltiplos investidores financiem projetos por meio de plataformas digitais. No agro, a Arara Seed tem se destacado por democratizar o acesso a esse tipo de investimento.

A empresa, inicialmente voltada ao financiamento de startups agrícolas, agora se prepara para lançar uma vertical dedicada à restauração de áreas degradadas. A ideia é clara: transformar pastagens improdutivas em ativos agrícolas rastreáveis, rentáveis e sustentáveis, ao mesmo tempo em que abre espaço para que qualquer investidor participe do processo.

“O Brasil já conta com tecnologias acessíveis para transformar áreas improdutivas em sistemas agrícolas de alta performance, com rastreabilidade, retorno financeiro e impacto positivo”, afirma Henrique Galvani, CEO da Arara Seed.

Além do equity crowdfunding, outras modalidades de financiamento verde começam a ganhar corpo: CRA verde, CPR verde, blended finance e fundos de impacto. Todas compartilham a mesma lógica — direcionar recursos para atividades regenerativas, conectando investidores preocupados com retorno e sustentabilidade.

A solução pode estar em terras degradadas - Reprodução
A solução pode estar em terras degradadas- Reprodução

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O peso da rastreabilidade e da pressão internacional

O mundo está de olho. À medida que cadeias globais de alimentos ficam mais rigorosas em relação à origem dos produtos, o Brasil precisa provar que pode crescer sem comprometer florestas e ecossistemas.

A União Europeia, por exemplo, aprovou recentemente uma regulação que proíbe a importação de commodities associadas ao desmatamento. Isso significa que soja, carne ou café produzidos em áreas de risco podem perder espaço em um dos mercados mais valiosos do mundo.

Nesse contexto, regenerar áreas degradadas é não apenas uma questão de eficiência agrícola, mas também de estratégia comercial. Transformar terras improdutivas em lavouras de baixo carbono pode garantir acesso a mercados premium, além de fortalecer a imagem do Brasil como potência agroambiental.

Impacto ambiental positivo

Do ponto de vista ambiental, o potencial é duplo. Primeiro, porque evita o desmatamento: cada hectare recuperado é um hectare a menos de pressão sobre florestas. Segundo, porque sistemas agrícolas regenerativos atuam como sumidouros de carbono.

Estudos mostram que práticas como integração lavoura-pecuária-floresta podem sequestrar de 1,5 a 3 toneladas de CO₂ por hectare/ano. Aplicadas em milhões de hectares, essas práticas transformariam a agricultura brasileira de vilã climática em protagonista da solução.

Além disso, solos saudáveis aumentam a infiltração de água, reduzem erosão e favorecem a biodiversidade. Isso significa mais resiliência frente a secas e eventos extremos — um fator cada vez mais importante num mundo de mudanças climáticas aceleradas.

Oportunidade de ouro para o agro

A recuperação das terras degradadas pode ser vista como um dos maiores projetos de infraestrutura natural do Brasil. E, ao contrário de obras de grande porte, os benefícios aparecem diretamente no campo, com ganhos para produtores, investidores e para a sociedade como um todo.

Se os números do Itaú BBA se confirmarem, a conversão dos 28 milhões de hectares pode:

Gerar até R$ 904 bilhões em valorização fundiária.

Aumentar em até 52% a produção nacional de grãos.

Atrair centenas de bilhões em investimentos privados.

Consolidar o Brasil como líder global em agro de baixo carbono.

Em um mundo em busca de segurança alimentar e redução de emissões, dificilmente haveria oportunidade mais estratégica.

O papel das agtechs

Startups agrícolas já provaram que podem revolucionar a produção, seja com sensores, biológicos, inteligência artificial ou marketplace de insumos. Agora, elas ganham espaço também no desafio da regeneração.

Plataformas digitais permitem mapear áreas degradadas, calcular custos de recuperação, monitorar a produtividade e garantir a rastreabilidade ambiental exigida pelos compradores internacionais.

Nesse ecossistema, empresas como a Arara Seed atuam como ponte entre o capital e o produtor. E, ao fazer isso, criam um novo mercado de “terras regeneradas como ativo financeiro” — algo inédito até pouco tempo atrás.

Um futuro em construção

O Brasil tem diante de si uma escolha histórica. Pode insistir em expandir fronteiras agrícolas à custa de desmatamento, perdendo espaço nos mercados mais exigentes e agravando sua imagem internacional. Ou pode apostar em um caminho de crescimento regenerativo, usando tecnologia e capital para transformar passivos em ativos.

Como resume Henrique Galvani: “Com o mercado global cada vez mais exigente em relação à origem e ao impacto ambiental dos alimentos, transformar terras degradadas em ativos produtivos de alto valor é uma das estratégias mais inteligentes para o futuro do agro — e também para o planeta.”