Um gigante invisível sob a floresta
Por décadas, o Aquífero Guarani ocupou o imaginário coletivo como o maior reservatório subterrâneo de água doce do planeta. Essa referência, no entanto, começa a ser relativizada por uma descoberta de proporções ainda mais colossais, feita no coração da Amazônia. Pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA) identificaram um sistema aquífero de escala continental, batizado de Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), cuja dimensão e capacidade superam qualquer estrutura hídrica subterrânea conhecida até agora.

Localizado sob uma das regiões mais estratégicas do planeta, o SAGA não é apenas um volume extraordinário de água armazenada no subsolo. Ele representa uma engrenagem silenciosa do equilíbrio climático sul-americano, uma reserva de segurança hídrica global e um ativo geopolítico que reposiciona o Brasil no mapa dos recursos naturais essenciais ao século XXI.
Estimativas preliminares indicam que o sistema abriga mais de 150 quatrilhões de litros de água doce. Em termos comparativos, o Aquífero Guarani — que se estende por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — possui cerca de 39 mil quilômetros cúbicos. A diferença não é apenas numérica: ela redefine a escala do que se entende por reserva estratégica de água no planeta.
Da pesquisa local à dimensão continental
O caminho até essa descoberta começou de forma mais modesta. Os estudos iniciais dos pesquisadores da UFPA concentravam-se no aquífero Alter do Chão, na região de Santarém, no Pará. Conhecido pela qualidade e abundância de suas águas, o Alter do Chão sempre foi tratado como um sistema regional. No entanto, análises geológicas mais aprofundadas revelaram conexões subterrâneas muito além do que se imaginava.
Essas conexões formam uma vasta estrutura geológica contínua, que se estende desde os contrafortes da Cordilheira dos Andes, no Acre, atravessa a Amazônia profunda e alcança o arquipélago do Marajó, já na foz do rio Amazonas. Ao todo, a área estimada do SAGA ultrapassa 1,2 milhão de quilômetros quadrados, dos quais cerca de 75% estão em território brasileiro.
Essa abrangência confere ao sistema um caráter continental, reforçando sua relevância não apenas para o Brasil, mas para toda a América do Sul. A descoberta também desafia modelos anteriores de compreensão hidrogeológica da região amazônica, sugerindo que a floresta repousa sobre um sistema hídrico subterrâneo ainda mais integrado e complexo do que se supunha.

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Água, clima e o funcionamento invisível da Amazônia
Mais do que um reservatório estático, o Sistema Aquífero Grande Amazônia funciona como parte de um ciclo dinâmico que conecta solo, floresta e atmosfera. A água subterrânea depende diretamente da integridade da cobertura vegetal, que regula a infiltração, a recarga dos aquíferos e a liberação gradual de umidade para o ar.
Esse processo sustenta um dos fenômenos climáticos mais decisivos do continente: os chamados “rios voadores”. Estima-se que a Amazônia transfira cerca de oito quatrilhões de litros de água por ano para regiões como o Centro-Oeste e o Sudeste do Brasil, alimentando o regime de chuvas que sustenta a agricultura, a geração de energia e o abastecimento urbano.
Nesse contexto, o SAGA emerge como um pilar silencioso do agronegócio, da segurança alimentar e da estabilidade climática nacional. Qualquer alteração significativa no equilíbrio da floresta — seja por desmatamento, queimadas ou mudanças no uso do solo — pode comprometer a capacidade de recarga do aquífero e, por consequência, afetar sistemas produtivos a milhares de quilômetros de distância.
A água subterrânea amazônica, portanto, não é apenas um recurso local. Ela é um componente estrutural do funcionamento climático do Brasil e de parte significativa da América do Sul.
Potencial estratégico e o desafio da gestão sustentável
A dimensão do Sistema Aquífero Grande Amazônia desperta compreensível fascínio. Segundo os pesquisadores, seu volume seria suficiente para abastecer toda a população mundial por aproximadamente 250 anos. Essa projeção, no entanto, não deve ser interpretada como um convite à exploração indiscriminada, mas como um alerta sobre responsabilidade e planejamento.
Especialistas enfatizam que a abundância aparente pode gerar uma falsa sensação de inesgotabilidade. A exploração desordenada de águas subterrâneas, sem critérios técnicos e ambientais, já produziu colapsos hídricos em diversas regiões do mundo. No caso amazônico, os riscos são ampliados pela interdependência entre aquífero e floresta.
A descoberta do SAGA reforça a urgência de políticas públicas integradas, capazes de articular conservação ambiental, uso racional da água e desenvolvimento econômico. Trata-se de um patrimônio natural que exige governança sofisticada, baseada em ciência, transparência e cooperação institucional.
Em um planeta pressionado por crises hídricas cada vez mais frequentes, o Brasil passa a ocupar uma posição ainda mais estratégica. A forma como o país escolher proteger — ou negligenciar — esse gigante invisível sob a floresta amazônica terá impactos que ultrapassam fronteiras e gerações.











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