Quando as luzes da COP30 se apagarem em Belém e as delegações internacionais retornarem a seus países, restará uma pergunta silenciosa, porém decisiva: quem garantirá a manutenção do legado prometido? Com investimentos que se aproximam de R$ 5 bilhões, a capital paraense passa por uma transformação urbana sem precedentes. O Parque da Cidade, orçado em cerca de R$ 1 bilhão, simboliza essa virada. Mas a história recente do Brasil mostra que inaugurar é apenas o começo — sustentar é o verdadeiro desafio.

A experiência de grandes obras públicas no país revela que a ausência de manutenção técnica e financeira pode transformar soluções inovadoras em estruturas obsoletas. O caso dos sistemas de proteção contra cheias no Rio Grande do Sul, que perderam eficiência por falta de atualização e recursos, tornou-se um alerta nacional. A COP 30 coloca Belém diante de um teste semelhante: como evitar que infraestruturas verdes de última geração se tornem apenas paisagem degradada após 2030?
Infraestrutura verde exige gestão permanente
Diferentemente de obras convencionais, as chamadas Soluções Baseadas na Natureza exigem acompanhamento constante. O Parque da Cidade foi concebido com filtros biológicos compostos por espécies nativas, áreas alagáveis multifuncionais e sistemas de drenagem integrados à vegetação. Não se trata apenas de um parque urbano, mas de uma engrenagem ecológica sofisticada.
A manutenção dessas áreas requer equipes técnicas especializadas, monitoramento hidrológico, manejo florestal contínuo e avaliação periódica de desempenho ambiental. Modelos matemáticos como o MODCEL, utilizados para simular cenários de inundação, precisam ser atualizados com dados reais. Indicadores como temperatura de superfície, sequestro de carbono e conectividade ecológica demandam acompanhamento por imagens de satélite e sistemas de georreferenciamento.
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, por meio de seu Guia Metodológico, recomenda a utilização de 13 indicadores ambientais para priorizar intervenções e medir resultados. O cálculo do ISn, Índice de Prioridade, permite identificar onde a infraestrutura verde é mais necessária. Mas a pergunta permanece: os municípios possuem capacidade técnica para operar essa engrenagem?
Segundo análises do próprio guia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, muitas prefeituras brasileiras carecem de profissionais capacitados em Sistemas de Informação Geográfica e gestão de infraestrutura verde. Sem essa base técnica, há o risco de que parques tecnológicos sejam tratados apenas como áreas de lazer tradicionais, esvaziando seu papel hídrico e climático.

Governança: política de Estado ou promessa de governo?
Outro risco central é a descontinuidade política. Projetos estruturantes exigem governança de Estado, não apenas de governo. A troca de gestores municipais pode interromper contratos, reduzir orçamentos e desmobilizar equipes técnicas. Para evitar esse ciclo, especialistas defendem conselhos deliberativos permanentes, painéis públicos de indicadores e auditorias independentes.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico enfatiza a necessidade de gestão adaptativa contínua. Em eventos climáticos extremos, protocolos precisam ser revisados rapidamente. Sem estrutura institucional sólida, a infraestrutura verde perde capacidade de resposta.
No caso de Parcerias Público-Privadas, o desafio se amplia. Modelos de contratos por desempenho vinculam pagamentos à entrega de metas ambientais verificáveis. A ausência de linhas de base auditáveis e monitoramento independente pode abrir espaço para métricas frágeis ou captura contratual. Empresas de engenharia como a Arcadis, envolvida na concepção do Parque da Cidade, entregam manuais técnicos detalhados. Mas a execução futura dependerá da capacidade do poder público de fiscalizar e exigir resultados.
O financiamento como pilar da manutenção
A manutenção não sobrevive apenas de boa vontade técnica; ela depende de recursos. Orçamentos municipais são tradicionalmente limitados e vulneráveis a crises fiscais. Por isso, mecanismos financeiros inovadores surgem como alternativa.
O Pagamento por Serviços Ambientais permite internalizar o valor econômico de serviços como controle de enchentes, regulação térmica e sequestro de carbono. Ao transformar benefícios ecológicos em ativos financeiros, cria-se um fluxo contínuo de receita para sustentar a operação das áreas verdes.
Experiências como a do Parque Metropolitano de Goiânia mostram que é possível vincular conservação urbana a créditos de carbono e captação privada. Incentivos fiscais como IPTU Verde e ICMS Ecológico também podem reforçar a sustentabilidade financeira.
No entanto, o PSA exige métricas robustas e monitoramento independente. Sistemas de MRV — monitoramento, relato e verificação — precisam assegurar que os serviços ambientais estão sendo efetivamente prestados. Sem dados confiáveis, o modelo perde credibilidade no mercado.

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Academia e ciência como guardiãs do legado
A participação da academia será determinante para avaliar a eficácia de longo prazo. Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS e universidades do Pará poderão analisar se os critérios de engenharia e modelagem resistirão às intensificações climáticas previstas.
Métricas hidrológicas como capacidade de retenção, redução de lâminas de inundação e taxa de impermeabilidade precisarão ser reavaliadas diante de novos padrões de chuva. Indicadores sociais, como acesso a áreas verdes em raio de 300 metros e cruzamento com Índice de Vulnerabilidade Social do IPEA, também servirão como termômetro de justiça territorial.
A COP 30 promete deixar como herança uma nova lógica urbana para a Amazônia. Mas o legado não será medido apenas pela arquitetura ou pelo paisagismo. Ele será testado ano após ano, na rotina silenciosa da manutenção, no orçamento aprovado, no técnico contratado, na auditoria realizada.
Em 2030, quando o mundo olhar novamente para Belém, talvez não esteja interessado nas cerimônias do passado, mas na pergunta essencial: a cidade conseguiu manter viva a infraestrutura que prometeu ao planeta?
Se a resposta for positiva, a COP 30 terá deixado mais que estruturas físicas — terá consolidado um modelo replicável de gestão climática urbana. Se falhar, reforçará o histórico brasileiro de obras grandiosas seguidas de abandono.
A manutenção, portanto, não é um detalhe administrativo. É o verdadeiro teste de credibilidade do Brasil diante da emergência climática.











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