Cazaquistão lidera primeira reintrodução internacional de tigres


Após mais de sete décadas de ausência, os tigres voltaram a habitar o território do Cazaquistão. O retorno marca um dos projetos de conservação mais ambiciosos do século XXI e inaugura um novo capítulo na história ambiental da Ásia Central. Pela primeira vez, um grande predador extinto em estado selvagem em um país está sendo reintroduzido por meio de cooperação internacional, ciência aplicada e políticas públicas de longo prazo.

Foto: Emmanuel Rondeau

A iniciativa é liderada pelo governo cazaque, em parceria com a organização ambiental WWF – World Wide Fund for Nature, e conta com apoio técnico de instituições científicas internacionais. O objetivo vai além de devolver um animal simbólico à paisagem: trata-se de reconstruir um ecossistema inteiro, fragmentado ao longo do século 20 pela caça predatória, pela degradação ambiental e pela expansão humana desordenada.

O retorno de um predador extinto na região

Até meados do século passado, o Cazaquistão fazia parte da vasta área de distribuição do tigre-do-cáspio, uma subespécie hoje considerada extinta. A caça sistemática e a destruição de habitats levaram ao desaparecimento definitivo desses felinos por volta da década de 1950. Desde então, os tigres deixaram de cumprir seu papel como predadores de topo, alterando o equilíbrio natural da região.

O projeto atual aposta na introdução do tigre-de-amur, também conhecido como tigre-siberiano, uma das maiores e mais resistentes subespécies existentes. Adaptado a invernos rigorosos e verões quentes, o tigre-de-amur apresenta características ecológicas semelhantes às do antigo tigre-do-cáspio, o que o torna adequado ao ambiente do sudeste do Cazaquistão.

Em setembro de 2024, dois exemplares vindos de um santuário de grandes felinos na Holanda foram transportados para a Reserva Natural Estadual Ile-Balkhash. Os animais, chamados Bodhana e Kuma, passaram por um complexo trajeto terrestre e aéreo até chegar ao país, onde iniciaram um período de adaptação em um recinto semisselvagem.

A reconstrução de um ecossistema inteiro

Antes mesmo da chegada dos tigres, o trabalho de restauração ambiental já vinha sendo conduzido há pelo menos cinco anos. A Reserva Ile-Balkhash, que ocupa uma área de mais de 7 mil quilômetros quadrados de pântanos, campos e florestas, passou por um amplo processo de recuperação de vegetação nativa e reintrodução de espécies-chave.

Animais como o cervo de Bukhara e o kulan, um tipo de asno selvagem, voltaram a ocupar a região após décadas de ausência. O fortalecimento dessas populações é essencial, já que elas formam a base alimentar dos tigres. Ao mesmo tempo, restrições rigorosas à caça permitiram a recuperação natural de javalis e outras presas.

Segundo especialistas ligados à Iniciativa Tigers Alive, coordenada pela WWF – World Wide Fund for Nature, a presença de um predador de topo é fundamental para regular populações de herbívoros, evitar a degradação da vegetação e promover a diversidade biológica. O tigre funciona como um agente ecológico que reorganiza toda a cadeia alimentar.

Lago Almaty/ Cazaquistao - iStock.com
Lago Almaty/ Cazaquistao – iStock.com

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Cooperação internacional e um marco para a conservação

O projeto do Cazaquistão representa um marco global por envolver a translocação internacional de animais com destino à vida selvagem. Até então, reintroduções desse tipo haviam ocorrido apenas dentro das fronteiras nacionais dos países.

Além da parceria com a WWF – World Wide Fund for Nature, a iniciativa conta com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e acordos bilaterais com a Rússia, que prevê o envio de novos tigres nos próximos anos. A expectativa é que, até 2035, cerca de 50 tigres vivam livres na reserva.

Os filhotes que nascerem de Bodhana e Kuma serão os primeiros tigres selvagens do país em quase cem anos. Eles serão criados sem contato humano direto, monitorados por colares de rastreamento e gradualmente integrados à área aberta da reserva.

Benefícios sociais, econômicos e simbólicos

Embora o foco principal seja ambiental, o retorno dos tigres também carrega implicações sociais e econômicas. Áreas de conservação bem-sucedidas tendem a atrair ecoturismo, gerar empregos locais e fortalecer a identidade cultural ligada à natureza.

Autoridades cazaques destacam que o projeto simboliza uma nova postura do país em relação ao seu patrimônio natural. A restauração da fauna passa a ser vista não apenas como proteção ambiental, mas como investimento estratégico em desenvolvimento sustentável.

Especialistas alertam, no entanto, que o sucesso dependerá da convivência harmoniosa entre humanos e vida selvagem. Programas educativos, sistemas de compensação e monitoramento constante já foram implementados em vilarejos próximos à reserva para reduzir riscos de conflito.

Em um mundo onde os tigres perderam mais de 90% de sua área original e seguem ameaçados pela fragmentação de habitats, o experimento do Cazaquistão surge como um raro exemplo de reversão histórica. Mais do que devolver um animal à paisagem, o país oferece à conservação global algo cada vez mais escasso: uma segunda chance.