
Da terra degradada ao verde produtivo
Em meio ao avanço do agronegócio e às cicatrizes deixadas pelo desmatamento na Amazônia, Porto Velho começa a desenhar uma resposta urbana que combina restauração ambiental e função social. A capital rondoniense iniciou a implantação de microflorestas em áreas antes degradadas, terrenos públicos esquecidos e até trechos de Áreas de Proteção Permanente (APPs) que haviam perdido sua vitalidade ecológica.
A proposta vai além da arborização tradicional. Em vez de plantar árvores apenas para ornamentar avenidas ou rotatórias, o município decidiu transformar espaços ociosos em pequenos ecossistemas densos e produtivos. Na primeira etapa, foram plantadas 300 mudas com cerca de 1,5 metro de altura, além de 30 árvores já desenvolvidas, entre 3 e 5 metros. O objetivo é acelerar o sombreamento e a recomposição da paisagem, criando rapidamente uma massa verde capaz de alterar o microclima urbano.
O plantio combina espécies nativas com árvores frutíferas. Entre elas estão caju, cajazinha, jenipapo, azeitona e ingazinha. Também compõem o mosaico vegetal ipê rosa, jacarandá, manguba, rezedá e sibipiruna. A escolha não é casual: além de adaptadas ao clima regional, essas espécies ajudam a recuperar o solo, oferecem alimento e favorecem a presença de fauna urbana.
A ideia central é simples e, ao mesmo tempo, disruptiva: fazer com que o paisagismo produza. Produza sombra, alimento, biodiversidade e qualidade de vida.
Sombra, alimento e respiro climático
As microflorestas seguem princípios de alta densidade de plantio, inspirados em modelos que aceleram a sucessão ecológica. O resultado esperado é um crescimento mais rápido e uma interação intensa entre as espécies, favorecendo a formação de um ambiente autossustentável.
Em uma cidade marcada por longos períodos de calor intenso, ampliar a cobertura vegetal significa alterar o cotidiano. Estudos indicam que áreas com vegetação densa podem reduzir em até 4,9°C a temperatura em ambientes urbanos. A sombra das copas e a evapotranspiração das folhas ajudam a mitigar as chamadas ilhas de calor, fenômeno cada vez mais frequente nas cidades brasileiras.
Além do conforto térmico, as árvores exercem papel estratégico no enfrentamento das mudanças climáticas. Funcionam como captadoras naturais de carbono, absorvendo dióxido de carbono da atmosfera e contribuindo para a redução do aquecimento global. Também ampliam a infiltração de água no solo, reduzindo enxurradas e fortalecendo a recarga hídrica.

Outro efeito menos visível, mas igualmente importante, é o amortecimento da poluição sonora. A massa vegetal atua como barreira natural contra ruídos urbanos. Ao mesmo tempo, cria abrigo para aves e pequenos animais, fortalecendo corredores de biodiversidade em meio à malha urbana.
O prefeito Léo Moraes resume a proposta como uma mudança de mentalidade. Para ele, a cidade precisa abandonar a lógica de plantar apenas para enfeitar. O paisagismo, afirma, deve cumprir função social, produzir alimento e recuperar áreas degradadas. A fala reflete uma visão de planejamento urbano que integra sustentabilidade e uso público do espaço.
Vinícius Miguel, titular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, reforça que a iniciativa busca construir ambientes mais saudáveis e estruturalmente mais resilientes. Rodrigo da Silva Ribeiro, da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, destaca o potencial de regeneração dessas áreas antes abandonadas. Giovanni Bruno Souto Marini, responsável pela Secretaria Municipal de Saneamento e Serviços Básicos, classifica o projeto como um passo inovador rumo a uma cidade mais verde e sustentável.
Gestão integrada e articulação institucional
A implantação das microflorestas envolve uma articulação direta entre diferentes órgãos da administração municipal. A execução reúne equipes da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Semagric), da Secretaria Municipal de Saneamento e Serviços Básicos (Semusb) e conta com apoio técnico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), responsável pela perfuração do solo e preparo das áreas.
As mudas de maior porte utilizadas nesta fase inicial foram fornecidas pelo Viveiro Amazônia, fortalecendo a conexão com fornecedores locais e com a cadeia regional de produção de mudas.
A integração institucional busca dar escala e continuidade à iniciativa. A meta é expandir o projeto para outros pontos da cidade, priorizando terrenos públicos degradados e áreas de preservação que hoje não cumprem plenamente sua função ambiental e social.
Ao ocupar esses vazios urbanos com vegetação produtiva, o município tenta reverter a lógica da expansão desordenada e do abandono de espaços periféricos. A microfloresta surge, nesse contexto, como instrumento de requalificação territorial.

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Desmatamento em queda e alerta climático
A implantação das microflorestas ocorre em um momento de inflexão nos indicadores ambientais de Porto Velho. Dados do sistema PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontam uma redução de 65,2% no desmatamento consolidado entre 2022 e 2024.
Em 2022, o município registrou 483,1 km² de área devastada, figurando entre os maiores desmatadores do país. Em 2023, o número caiu para 263,7 km². Em 2024, consolidou-se a trajetória de queda, com estimativa oficial de 168,2 km².
Especialistas atribuem o recuo ao reforço das fiscalizações ambientais e à adoção de embargos remotos. Ainda assim, o cenário permanece sob alerta. Embora o corte raso tenha diminuído, a degradação florestal por queimadas alcançou níveis recordes em 2024, impulsionada por uma seca histórica que atingiu a região.
Em 2025, a cidade viveu um marco simbólico: foi o primeiro ano, dentro de uma série histórica recente, em que Porto Velho não ficou coberta pela fumaça das queimadas. Em anos anteriores, a fumaça comprometeu a qualidade do ar, pressionou unidades de saúde e impactou a rotina da população.
As microflorestas urbanas não substituem políticas estruturais de combate ao desmatamento, mas se inserem em um contexto mais amplo de reequilíbrio ambiental. Ao plantar árvores dentro da cidade, Porto Velho envia uma mensagem que dialoga com a floresta que a cerca: desenvolvimento urbano e recuperação ambiental não precisam ser forças opostas.
Se mantiver a expansão do projeto e consolidar a manutenção dessas áreas, a capital pode transformar pequenos fragmentos verdes em pontos de reconexão entre população e natureza. Em um território marcado por ciclos intensos de exploração e pressão ambiental, cada muda plantada passa a carregar também um significado simbólico: o de que o futuro urbano da Amazônia pode ser mais produtivo, mais fresco e mais diverso.











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