Microplásticos superam canudos como maior ameaça invisível

fungo
Fonte: Foro Ambiental

Microplásticos expõem falhas urbanas e desafiam nova regulação ambiental no Brasil

A agenda ambiental brasileira passou anos concentrada na imagem visível do plástico: canudos boiando no mar, sacolas presas em árvores, embalagens acumuladas em praias. Esse símbolo ajudou a mobilizar opinião pública e governos. No entanto, a ciência revela que a face mais perigosa da poluição plástica não é a que se vê. São os microplásticos — partículas com até cinco milímetros — que hoje configuram uma ameaça difusa, persistente e muito mais difícil de conter.

Diferentemente dos resíduos maiores, os microplásticos não dependem apenas do descarte inadequado. Eles emergem do próprio funcionamento das cidades modernas: do atrito entre pneus e asfalto, da lavagem de roupas sintéticas, da degradação de tintas e superfícies urbanas. Invisíveis a olho nu, atravessam sistemas de drenagem, escapam de estações de tratamento e acabam acumulados em rios, oceanos e ecossistemas costeiros como manguezais.

A mudança de foco — dos macroplásticos para os microplásticos — exige uma revisão profunda das políticas públicas. Não basta proibir utensílios descartáveis se a maior parte da poluição plástica nasce do uso cotidiano de produtos e infraestruturas.

Desgaste urbano: a origem que poucos enxergam

Dados da International Union for Conservation of Nature indicam que o desgaste de pneus responde por 28,3% dos microplásticos que chegam aos oceanos. A cifra surpreende porque desloca a responsabilidade da poluição do consumidor individual para a própria dinâmica urbana.

Cada veículo em circulação libera fragmentos microscópicos de borracha e polímeros sintéticos. Essas partículas se misturam à poeira urbana, que representa cerca de 24% da poluição plástica total. Ao contrário da imagem clássica do lixo descartado, trata-se de um resíduo gerado pelo simples ato de dirigir.

O ciclo é silencioso. A chuva carrega essa poeira contaminada para bueiros e galerias pluviais. O vento dispersa partículas que se depositam em solos e cursos d’água. O que começa no asfalto termina em estuários e zonas costeiras.

Os manguezais brasileiros, localizados na transição entre terra e mar, funcionam como armadilhas naturais para esses detritos. Por serem áreas de confluência hidrológica, acumulam sedimentos e, com eles, microplásticos. Pesquisas ao longo da costa apontam maior concentração desses resíduos nas proximidades de grandes centros urbanos.

A narrativa tradicional da poluição plástica — centrada no consumo doméstico — torna-se insuficiente diante desses dados. O problema não está apenas no que descartamos, mas no modo como vivemos e nos deslocamos.

Governo do Estado de São Paulo
FOTO: Diogo Moreira

O gargalo invisível nas estações de tratamento

Quando a poeira urbana e as fibras sintéticas chegam aos sistemas de esgoto, espera-se que sejam retidas antes de atingir rios e mares. Ocorre que as estações de tratamento brasileiras não foram projetadas para capturar partículas microscópicas dessa natureza.

Especialistas apontam uma limitação tecnológica crítica: os filtros convencionais não conseguem reter microplásticos de dimensões reduzidas. Assim, um “coquetel” de resíduos — fragmentos de pneus, fibras de poliéster e poliamida liberadas na lavagem doméstica, partículas resultantes da degradação de tintas — atravessa as barreiras físicas e segue para corpos hídricos.

O resultado é uma poluição difusa, constante e acumulativa. Diferentemente de um vazamento industrial pontual, os microplásticos chegam ao ambiente de forma contínua, alimentados pela rotina urbana.

Uma vez no mar, essas partículas podem flutuar na coluna d’água ou sedimentar no leito oceânico. Organismos filtradores, como moluscos e crustáceos, ingerem os fragmentos ao confundi-los com alimento. O processo de bioacumulação leva o plástico à cadeia alimentar e, eventualmente, ao prato humano.

Estudos científicos já detectaram microplásticos em pulmões, fígado, coração, cérebro e até na placenta. Além do risco físico representado pelas partículas, há preocupação adicional com aditivos químicos e metais pesados que podem aderir à sua superfície, funcionando como vetores de contaminação.

Regulação avança, mas lacunas persistem

O Brasil atualizou seu arcabouço regulatório com o decreto que instituiu o Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico em 2025. A medida busca reduzir o descarte inadequado, fortalecer a reciclagem e proteger a biodiversidade marinha. Trata-se de avanço relevante, especialmente ao criar instrumentos financeiros como certificados de crédito de reciclagem e ao priorizar cooperativas de catadores.

Entretanto, a legislação concentra-se majoritariamente na gestão de resíduos pós-consumo — embalagens e produtos descartados. A poluição gerada pelo uso de produtos, como o desgaste de pneus e a erosão de materiais sintéticos, permanece em zona cinzenta regulatória.

Essa lacuna é estratégica. Se quase um terço dos microplásticos oceânicos tem origem no tráfego urbano, políticas de logística reversa focadas apenas em embalagens não atacam o núcleo do problema.

Ao mesmo tempo, o novo marco regulatório traz impactos sociais relevantes. Ao priorizar cooperativas e associações de catadores, criar mecanismos de remuneração adicional e transferir ativos como máquinas e equipamentos, o sistema promete fortalecer a inclusão produtiva. A Estratégia Nacional de Economia Circular, lançada em 2024, reforça a ideia de transição justa, reconhecendo desigualdades estruturais que marcam o setor da reciclagem.

A determinação de que rejeitos da triagem passem a ser responsabilidade de fabricantes e importadores pode reduzir custos operacionais das cooperativas, historicamente sobrecarregadas. Ainda assim, desafios persistem: contratos municipais que remuneram empresas por tonelada aterrada, e não reciclada, criam incentivos perversos que desestimulam a coleta seletiva.

SB Industria do Plastico Reciclagem

VEJA TAMBÉM: Entre redes, plástico e calor: A corrida pela sobrevivência das tartarugas no Brasil

Microplásticos e justiça ambiental

A discussão sobre microplásticos ultrapassa o campo técnico e alcança o debate sobre justiça ambiental. Comunidades costeiras, pescadores artesanais e populações que dependem de ecossistemas como manguezais enfrentam impactos desproporcionais de uma poluição que não geraram diretamente.

O deslocamento do debate — de canudos para pneus — revela que soluções simplificadas não bastam. Combater microplásticos exige inovação tecnológica nas estações de tratamento, revisão de padrões industriais, desenvolvimento de materiais alternativos e políticas urbanas integradas.

Também implica reconhecer que a poluição não termina na lixeira. Ela nasce no design de produtos, na engenharia das cidades e na lógica de mobilidade. Enquanto políticas públicas focarem apenas no resíduo visível, o fluxo invisível de microplásticos continuará a percorrer galerias pluviais rumo ao oceano.

O desafio é estrutural. E, como todo problema estrutural, exige resposta sistêmica — combinando regulação, ciência, infraestrutura e mudança de modelo produtivo. A transição do debate ambiental para o universo microscópico dos microplásticos não diminui a urgência; ao contrário, amplia o horizonte da responsabilidade coletiva.