Entre votos e vetos: o embate climático que define o ano eleitoral de 2026

Foto: ARQUIVO/Antônio Cruz/Agência Brasil
Foto: ARQUIVO/Antônio Cruz/Agência Brasil

O labirinto normativo e o pulso da resistência

No epicentro das decisões que moldam o destino do território brasileiro, a Agenda Legislativa surge não apenas como um documento técnico, mas como um manifesto de sobrevivência. Lançada pelo Observatório do Clima, a edição de 2026 lança luz sobre o que especialistas e ativistas batizaram de Pacote da Destruição: um conjunto de quase 50 proposições que tramitam nos corredores do Congresso Nacional e carregam o potencial de desfigurar a proteção ambiental conquistada nas últimas décadas. A análise é um grito de alerta contra a fragmentação estratégica de ataques aos direitos socioambientais, que avançam de forma persistente e, muitas vezes, silenciosa sob o manto da burocracia legislativa.

Essa movimentação não é estática; ela pulsa com uma velocidade preocupante. Dados revelam que mais de 75% das pautas consideradas nocivas ao equilíbrio ecológico e aos direitos humanos tiveram progresso efetivo ao longo de 2025. Esse cenário desenha um campo de batalha jurídico onde a integridade do clima e a dignidade das populações tradicionais são postas em xeque. O objetivo central dessa mobilização, capitaneada por 161 organizações da sociedade civil, é romper a bolha parlamentar e convocar a cidadania para um exercício ativo de fiscalização, exigindo que o desenvolvimento não seja construído sobre as cinzas da legislação protetiva.

As engrenagens do retrocesso territorial

Dentro do catálogo de ameaças, o Marco Temporal, materializado na PEC 48/2023, destaca-se como uma das medidas mais controversas e perigosas. Ao tentar restringir a demarcação de terras indígenas apenas àquelas ocupadas na data da promulgação da Constituição de 1988, a proposta ignora o histórico de expulsões e violências sofridas por esses povos. A aprovação desse mecanismo pelo Senado Federal e sua subsequente espera pela análise da Câmara dos Deputados criam um estado de insegurança jurídica permanente, ameaçando o papel fundamental que os territórios indígenas exercem como barreiras naturais contra o desmatamento.

Paralelamente, o avanço de projetos como o PL 510/2021 e o PL 2633/2020 sinaliza uma tentativa de flexibilizar as normas de regularização fundiária. Na prática, críticos alertam que tais medidas podem institucionalizar a grilagem de terras públicas, premiando aqueles que ocuparam e desmataram ilegalmente vastas áreas. Somado a isso, o PL 2374/2020 busca estender o prazo para a regularização de reservas legais desmatadas, movendo o marco de anistia de 2008 para 2012. Essas engrenagens, quando conectadas, formam um ecossistema legislativo que incentiva a impunidade e sinaliza que o crime ambiental pode, eventualmente, ser perdoado pela lei.

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Fonte: Agência Câmara

Vulnerabilidade climática em ano eleitoral

O ano de 2026 traz consigo a pressão adicional do calendário eleitoral, um período em que a busca por apoios políticos pode acelerar a aprovação de pautas de interesse privado em detrimento do bem comum. Conforme aponta o WWF-Brasil, existe uma agenda estruturada para o enfraquecimento das salvaguardas ambientais, que inclui desde a fragilização do licenciamento para grandes obras até a redução de unidades de conservação. O risco é que o parlamento, focado na sucessão de mandatos, ignore as evidências científicas sobre o colapso climático para satisfazer setores que enxergam a proteção da natureza como um entrave econômico de curto prazo.

A retórica da “utilidade pública” é frequentemente utilizada para justificar intervenções em áreas de preservação permanente, removendo a vegetação que protege encostas e purifica a água. No entanto, o que se ignora é que a remoção dessa proteção vegetal aumenta o risco de desastres naturais, como inundações e deslizamentos, que oneram os cofres públicos e vitimam as populações mais vulneráveis. A Agenda Legislativa 2026 atua, portanto, como um farol analítico, desmascarando propostas que prometem crescimento imediato mas entregam insegurança hídrica, aquecimento regional e perda de serviços ecossistêmicos essenciais para a própria agricultura brasileira.

Fotos: Hellen Loures/Cimi
Fotos: Hellen Loures/Cimi

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O despertar da consciência coletiva

Diante da magnitude desse desafio, a união de setores sociais, institutos de pesquisa e frentes parlamentares torna-se o último baluarte contra a devastação. O esforço de colocar a pauta socioambiental no centro do debate político, como defendido pela Frente Parlamentar Ambientalista, visa transformar a preservação em um compromisso ético inegociável. A percepção pública de que muitas decisões tomadas em Brasília colidem com os interesses da coletividade precisa ser convertida em engajamento. O objetivo é que o documento produzido pelo Observatório do Clima sirva de bússola para que o eleitor possa discernir entre o progresso real e o desmonte legislativo.

A contenção do colapso climático depende de uma legislação que olhe para o amanhã com coragem. Reverter o fluxo de retrocessos exige mais do que votos; exige uma luta permanente pela transparência e pela aplicação de critérios científicos na elaboração das leis. Se a população brasileira assumir seu papel de guardiã da Constituição e das florestas, será possível transformar a pressão política em uma ferramenta de regeneração. A luta contra o Pacote da Destruição é, em última análise, a luta pelo direito de ter um futuro onde a água seja limpa, o ar seja respirável e os povos da floresta possam viver em paz em seus territórios ancestrais.