A moda, frequentemente associada à criatividade, identidade e expressão cultural, carrega um custo ambiental que já não pode mais ser tratado como efeito colateral inevitável. Hoje, a indústria da moda figura entre os setores mais poluentes do planeta, respondendo por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e aproximadamente 20% da poluição industrial da água. O impacto não se limita às passarelas ou vitrines: ele começa no campo, atravessa fábricas, rios e cidades, e termina em aterros sanitários abarrotados de resíduos têxteis. Diante desse cenário, a sustentabilidade deixou de ser tendência e passou a ser uma exigência estrutural para a sobrevivência do setor.

No Brasil, um dos maiores produtores têxteis do mundo, essa discussão ganha contornos ainda mais urgentes. O país reúne polos industriais intensivos em recursos naturais, uma cadeia produtiva extensa e uma geração anual estimada em 170 mil toneladas de resíduos têxteis. A transição para um modelo sustentável exige mudanças profundas, que passam pelo uso racional da água, pela adoção de fibras de menor impacto ambiental, por processos industriais mais limpos e por mecanismos de certificação capazes de separar compromisso real de simples marketing verde.
A água como eixo central do impacto ambiental da moda
Poucos elementos revelam de forma tão clara a insustentabilidade da moda quanto o consumo de água. Ao longo de toda a cadeia têxtil, do cultivo da fibra ao acabamento da peça pronta, a água é usada em volumes que desafiam qualquer noção de eficiência. Produzir uma única camiseta de algodão pode exigir até 2.700 litros de água. Quando se observa o tecido em escala industrial, o número se torna ainda mais expressivo: um quilograma de algodão pode consumir, em média, 10 mil litros.
As diferenças regionais escancaram desigualdades estruturais. Na Índia, onde sistemas de irrigação são menos eficientes, a produção de um quilo de algodão pode chegar a 18 mil litros de água. Na Espanha, com técnicas mais modernas, esse volume cai para cerca de 7 mil litros. No Brasil, o problema se manifesta de forma concentrada em polos específicos. No Agreste de Pernambuco, responsável por cerca de 16% da produção nacional de jeans, lavanderias industriais de grande porte chegam a consumir mais de 7.200 metros cúbicos de água por mês.
O ponto mais crítico está no chamado processamento úmido, etapa que inclui tingimento, lavagem e acabamento dos tecidos. É nesse momento que a indústria têxtil se torna um dos maiores vetores de poluição hídrica do planeta. Estima-se que cerca de 20% da poluição global de água doce esteja associada a essas operações. No caso do jeans, o uso de produtos químicos como permanganato de potássio e hipoclorito de sódio gera uma enorme pegada hídrica cinza, exigindo grandes volumes de água limpa apenas para diluir a carga tóxica antes do descarte.
No Nordeste brasileiro, os efeitos são visíveis. Rios como o Ipojuca e o Capibaribe, entre os mais poluídos do país, recebem efluentes que alteram a coloração da água, inviabilizam o uso pela população e provocam processos de eutrofização, nos quais a proliferação excessiva de algas reduz o oxigênio e compromete a vida aquática.

Fibras alternativas e inovação de base nacional
Se a água expõe a fragilidade do modelo atual, a escolha das fibras revela onde estão as oportunidades de mudança. O algodão convencional, apesar de natural, é considerado uma das culturas agrícolas mais poluentes do mundo, devido ao uso intensivo de agrotóxicos e à elevada demanda hídrica. Em resposta a esse paradoxo, alternativas sustentáveis começam a ganhar escala no Brasil.
A mais simbólica delas é a fibra extraída do pseudocaule da bananeira. Desenvolvida a partir de uma parceria entre o SENAI CETIQT e a empresa Musa Fiber, essa inovação transforma um resíduo agrícola em matéria-prima têxtil. O Brasil cultiva cerca de 500 mil hectares de banana, e após a colheita o pseudocaule costuma ser descartado. Ao reaproveitá-lo, evita-se a emissão de gases de efeito estufa associada à decomposição e reduz-se a pressão sobre culturas tradicionais.
Além do ganho ambiental, a fibra de banana apresenta propriedades técnicas relevantes: é biodegradável, resistente e versátil, permitindo diferentes aplicações na indústria da moda. O consumo de água e agrotóxicos é significativamente menor em comparação ao algodão, o que a torna uma alternativa estratégica para regiões com escassez hídrica.
Outra frente importante é o algodão orgânico, cultivado sem pesticidas ou fertilizantes sintéticos. Além de reduzir a contaminação do solo e da água, esse modelo agrícola melhora a capacidade de retenção hídrica do solo, diminuindo a necessidade de irrigação. No contexto do Agreste pernambucano, a adoção do algodão orgânico é vista como condição fundamental para que o beneficiamento de jeans alcance padrões sustentáveis de uso da água.
Completam esse quadro as fibras recicladas e as fibras de base florestal, como viscose, modal e liocel, desde que a celulose utilizada seja proveniente de florestas manejadas de forma responsável, com certificação do Forest Stewardship Council. No Brasil, pelo menos 22 empresas já atuam na reciclagem têxtil, concentradas sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, transformando resíduos em novos insumos produtivos.

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Processos industriais limpos e economia circular
A sustentabilidade na moda não depende apenas da fibra escolhida, mas também da forma como ela é processada. Tecnologias de lavagem e acabamento mais limpas começam a substituir métodos tradicionais altamente poluentes. O uso de ozônio, laser e plasma frio de oxigênio permite reduzir o consumo de água em até 70% e eliminar grande parte dos produtos químicos agressivos utilizados no acabamento do jeans.
Essas inovações se conectam diretamente ao conceito de economia circular, que propõe romper com o modelo linear de extrair, produzir, usar e descartar. No Brasil, onde 80% dos resíduos têxteis ainda têm como destino os aterros sanitários, a circularidade surge como uma resposta necessária.
Iniciativas como o Banco de Tecidos, que promove a troca e a venda de retalhos, a EuReciclo, especializada em compensação ambiental, e a VG Resíduos, marketplace de resíduos industriais, ajudam a reinserir materiais no ciclo produtivo, reduzindo desperdícios e custos.
Certificações como antídoto ao greenwashing
Em um setor onde o discurso sustentável muitas vezes supera a prática, as certificações tornaram-se ferramentas centrais de credibilidade. Selos e normas funcionam como sistemas de rastreabilidade, auditoria e controle da cadeia de custódia, garantindo que fibras orgânicas, recicladas ou de origem responsável não sejam misturadas ou substituídas sem registro.
No Brasil, o Programa ABVTEX atua no combate ao trabalho escravo e irregular na cadeia do varejo de moda. O Algodão Brasileiro Responsável, o ABR, estabelece critérios socioambientais para a produção nacional de algodão. Em escala internacional, certificações como GOTS, OEKO-TEX, Cradle to Cradle e Better Cotton Initiative () ampliam o controle sobre impactos ambientais, sociais e químicos.
Ferramentas como o Higg Index, desenvolvido pela Sustainable Apparel Coalition, permitem medir e comparar o desempenho ambiental e social de produtos e fábricas, oferecendo métricas objetivas para decisões industriais e de consumo.
A sustentabilidade na moda, portanto, não é um atributo isolado, mas um sistema complexo que exige visão integrada. Envolve água, fibras, química, trabalho, resíduos e transparência. Mais do que reinventar tecidos, o setor precisa reinventar sua lógica produtiva. E, nesse processo, o futuro da moda passa menos pelo excesso e mais pela responsabilidade.












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