A queda de braço pelo controle do Rio Tapajós ganhou um novo e dramático capítulo nesta semana, revelando as vísceras de um conflito que opõe a urgência do escoamento de commodities ao direito ancestral à terra e à preservação ambiental. Em uma manobra que mistura pragmatismo político e resposta à pressão popular, o governo federal suspendeu o edital de dragagem que pretendia aprofundar o leito do rio entre Santarém e Itaituba. O gesto, assinado por um trio de ministros que vai da gestão infraestrutural à proteção indígena, tenta arrefecer uma crise que paralisou operações logísticas e colocou o governo em rota de colisão com as mesmas bases que o sustentam. O recuo não é apenas técnico; é o reconhecimento de que o Tapajós, hoje, é o epicentro de uma disputa sobre qual modelo de desenvolvimento deve prevalecer na Amazônia.

O rio como trincheira e a força da ancestralidade
A suspensão do edital de dragagem, anunciada em 6 de fevereiro de 2026, não ocorreu em um vácuo burocrático. Ela é o resultado direto de uma ocupação que durou 16 dias e desafiou gigantes do setor. Cerca de 7 mil indígenas, representando 14 etnias do Baixo e Médio Tapajós, transformaram as imediações do terminal portuário da Cargill em um acampamento de resistência. O bloqueio não apenas interrompeu o fluxo de caminhões carregados de soja, mas também atingiu o coração logístico da região ao fechar o acesso ao Aeroporto de Santarém. Para as lideranças do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (CITA), a dragagem é o primeiro passo de um projeto maior que visa transformar o chamado Rio da Vida em uma estrada industrial de água. O grito que ecoa das margens é claro: o rio não é mercadoria. A exigência central agora é a revogação do Decreto 12.600/2025, que abriu as portas para a desestatização e concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, integrando-os ao Programa Nacional de Desestatização.

Entre o lucro e o veneno ressuscitado
Para o agronegócio, a dragagem é a chave mestra para a competitividade. Com o apoio do DNIT e do setor portuário de Miritituba, o objetivo é garantir que comboios de barcaças transitem sem obstáculos mesmo durante as severas secas amazônicas, reduzindo custos de transporte que hoje oneram a produção do Centro-Oeste. No entanto, o preço dessa eficiência pode ser pago com a saúde das populações locais. O Ministério Público Federal (MPF) alerta para um perigo invisível, mas letal: o mercúrio. Décadas de garimpo depositaram metais pesados no leito do rio. Revolver esse sedimento através da dragagem significa ressuscitar esse veneno, permitindo que ele retorne à coluna d’água e entre na cadeia alimentar através dos peixes, a base da dieta regional. Além da toxicidade, o impacto físico no ecossistema é severo, ameaçando áreas críticas de reprodução de quelônios, como o Tabuleiro de Monte Cristo, e acelerando o fenômeno das terras caídas, que engole margens e destrói roçados tradicionais.

SAIBA MAIS: Dragagens no Tapajós ameaça destruir urnas milenares em sítios arqueológicos
O labirinto jurídico e a promessa de diálogo
O cenário institucional reflete a confusão de competências e visões de mundo. Enquanto o governo federal, pressionado pelos ministérios de Sônia Guajajara e Guilherme Boulos, tenta uma saída negociada através de um Grupo de Trabalho Interministerial, a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS) emitiu sinais contraditórios, autorizando intervenções pontuais sob a justificativa de emergência hídrica. O MPF, por sua vez, levou o caso ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), questionando a validade de qualquer obra sem a devida Consulta Livre, Prévia e Informada, conforme exige a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. A batalha jurídica agora se concentra na validade dos estudos ambientais, que, segundo os procuradores, são insuficientes por não considerarem o impacto cumulativo da hidrovia sobre o modo de vida das comunidades.
O futuro do Tapajós sob a lupa global
A crise ocorre sob a sombra da COP 30, evento que coloca o Brasil na vitrine ambiental do mundo. A promessa do governo de apresentar um cronograma de consultas antes de qualquer nova intervenção é vista com ceticismo pelas lideranças locais, que já ouviram compromissos semelhantes no passado. A tensão em Santarém é um microcosmo do dilema nacional: como integrar a infraestrutura logística necessária para o PIB sem atropelar os direitos humanos e a integridade biológica da Amazônia. A suspensão temporária do edital oferece um respiro, mas o projeto da Hidrovia do Tapajós e sua conexão com ferrovias como a Ferrogrão permanecem no horizonte como promessas de progresso para uns e sentenças de morte cultural para outros. O que está em jogo nas águas do Tapajós não é apenas a profundidade do canal de navegação, mas a profundidade do compromisso do Estado brasileiro com suas populações mais vulneráveis.












Você precisa fazer login para comentar.