Mulheres impulsionam bioeconomia dos óleos na Amazônia

Crédito: Anderson Águia/Natura/WEG
Crédito: Anderson Águia/Natura/WEG

Mulheres lideram bioeconomia óleos Amazônia

O protagonismo de mulheres na produção de óleos da floresta amazônica vem redesenhando a bioeconomia regional. Em comunidades ribeirinhas e extrativistas, cooperativas femininas deixaram de ser apenas espaços de organização social para se tornar estruturas produtivas capazes de transformar sementes e saberes tradicionais em cosméticos, fármacos e insumos de alto valor agregado. Nesse processo, mulheres consolidam autonomia financeira, ampliam participação política e criam alternativas concretas para manter a floresta em pé.

Muito além da coleta de sementes, essas organizações estruturam cadeias produtivas completas: manejo sustentável, beneficiamento, formulação de produtos finais e articulação com grandes empresas do setor de cosméticos. O resultado é uma mudança profunda na dinâmica econômica local.

Cooperativas femininas transformam sementes em renda

Na Ilha de Silves, no Amazonas, a Associação Vida Verde da Amazônia (AVIVE) tornou-se referência em organização produtiva liderada por mulheres. Desde 1999, a associação trabalha com extração sustentável de óleos essenciais, especialmente de pau-rosa, além de andiroba e copaíba. A matéria-prima, antes vendida in natura, passou a ser transformada em sabonetes, perfumes, velas aromáticas e repelentes.

Para estruturar a comercialização, foi criada a cooperativa COPRONAT, braço comercial da iniciativa. Ao eliminar intermediários, as associadas passaram a negociar preços mais justos e a reter maior parte do valor gerado. A renda obtida possibilitou reformas nas casas, compra de eletrodomésticos e maior segurança econômica para as famílias.

No arquipélago do Marajó, no Pará, a Cooperativa Ecológica de Mulheres Extrativistas da Ilha de Marajó (CEMEM), sediada em Ponta de Pedras, reúne as chamadas andirobeiras. Essas mulheres dominam técnicas tradicionais de extração do óleo de andiroba transmitidas entre gerações. A cooperativa atua na representação institucional das extrativistas, organiza a produção e busca garantir que o manejo seja ambientalmente responsável. Para muitas cooperadas, o óleo tornou-se complemento essencial da renda familiar, especialmente nos períodos em que a pesca diminui.

Divulgação
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No Médio Juruá, a Cooperativa Mista de Desenvolvimento Sustentável e Economia Solidária do Médio Juruá (CODAEMJ) opera em modelo misto, mas com forte liderança feminina: mais de 60% dos membros são mulheres extrativistas. A cooperativa coleta, beneficia e comercializa óleos de andiroba, murumuru e ucuúba, fornecendo para grandes empresas como a Natura. Ao integrar comunidades isoladas a cadeias industriais globais, a CODAEMJ demonstra como o extrativismo pode dialogar com o mercado formal.

No Amapá, em Limão do Curuá, cerca de 70 mulheres lideram a produção artesanal de óleo de pracaxi. Elas adaptaram trituradores e prensas para aumentar a eficiência da extração, atendendo indústrias de cosméticos e fármacos com produto de qualidade padronizada.

Também surgem iniciativas voltadas à inovação, como a Rede Mulher Florestal, que conecta e reconhece startups lideradas por mulheres no setor florestal. Entre elas estão a Urubatan, voltada à produção de bioplástico a partir de castanha; a Coco_on, que desenvolve mobiliário com fibra de coco; e a Naturecap, especializada em restauração florestal com uso de drones.

Autonomia econômica e transformação social

A principal ruptura promovida por essas cooperativas é econômica. Mulheres que antes dependiam de atividades sazonais ou da renda de familiares passaram a gerar receita própria. Esse movimento altera a estrutura de poder dentro das casas e das comunidades.

Relatos associados à AVIVE indicam que a independência financeira contribuiu para reduzir casos de violência doméstica. O domínio de técnicas produtivas e conhecimentos de gestão elevou o status social das cooperadas. De coletoras invisíveis, tornaram-se empreendedoras e líderes comunitárias.

A atuação extrapola a esfera econômica. Integrantes de cooperativas passaram a participar de conselhos municipais de saúde e trabalho, ampliando presença feminina em espaços de decisão. A bioeconomia, nesse contexto, funciona como instrumento de cidadania.

As cooperativas também operam como centros de capacitação. Oferecem cursos de informática, marketing, contabilidade, inglês e boas práticas de fabricação. O aprendizado técnico se soma ao resgate de saberes tradicionais, fortalecendo a identidade cultural e garantindo transmissão qualificada de conhecimentos sobre plantas medicinais e manejo sustentável.

Desafios estruturais e barreiras regulatórias

Apesar dos avanços, obstáculos persistem. A burocracia para obtenção de registros sanitários junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) representa barreira significativa para acesso a mercados formais e exportação. Processos complexos e custos elevados dificultam a regularização de pequenos empreendimentos.

A baixa escolaridade ainda limita a participação de algumas mulheres em funções administrativas e na compreensão de exigências legais. A infraestrutura precária em áreas remotas encarece transporte e armazenamento, reduzindo margens de lucro.

No caso da CEMEM, a falta de sede própria e de apoio governamental consistente compromete a organização interna. Muitas cooperadas relatam insatisfação com estrutura física e gestão, evidenciando que a sustentabilidade institucional exige investimentos contínuos.

Foto: Márcia do Carmo/GEA
Foto: Márcia do Carmo/GEA

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Sazonalidade, resíduos e desafio circular

A CODAEMJ enfrenta desafios adicionais ligados à sazonalidade biológica das espécies amazônicas. Safras de andiroba, murumuru e ucuúba variam intensamente de ano para ano. Em períodos de baixa produtividade, a cooperativa não consegue cumprir integralmente contratos com empresas como a Natura. Em 2019, por exemplo, a produção atingiu apenas parte da demanda prevista, gerando insegurança financeira.

Para reduzir risco de desabastecimento, a cooperativa expandiu área de coleta para o município de Itamarati. Ainda assim, a dependência dos ciclos naturais impõe incerteza constante.

Outro problema crítico é o volume de resíduos gerado no beneficiamento. Entre 60% e 80% da matéria-prima transforma-se em cascas, torta residual e restos de filtragem. Embora biodegradáveis, esses resíduos são inflamáveis e, quando acumulados sem destinação adequada, representam risco ambiental.

A cooperativa busca alternativas para integrar economia circular ao processo produtivo. Estudos apontam potencial de transformar resíduos em adubo, ração animal ou biomassa para geração de energia, reduzindo dependência de motores a diesel na usina. Se implementadas, essas soluções podem elevar o padrão de sustentabilidade da operação.

Bioeconomia liderada por mulheres

A experiência das cooperativas femininas demonstra que bioeconomia não se resume à exploração de recursos naturais, mas envolve governança comunitária, inovação e justiça social. Mulheres articulam tradição e mercado, floresta e indústria, autonomia individual e organização coletiva.

Ao enfrentar desafios regulatórios, logísticos e ambientais, essas lideranças constroem modelo produtivo que combina geração de renda com conservação. A floresta permanece em pé porque passa a valer mais viva do que derrubada. E as mulheres deixam de ocupar papel secundário para se tornar eixo central da economia da sociobiodiversidade amazônica.