
A reinserção social de jovens em conflito com a lei ganhou as cores, os aromas e a ancestralidade de um dos cenários mais emblemáticos do Pará. Em uma tarde marcada pelo contato direto com a natureza e pela valorização da história local, socioeducandos da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa) trocaram a rotina institucional pelas águas calmas e pela faixa de areia da Vila de Alter do Chão e da Praia do Cajueiro, em Santarém. O passeio não foi apenas um momento de lazer, mas o ápice pedagógico de um projeto que buscou resgatar a autoestima e o respeito por meio da arte e da reflexão.
A atividade marcou o encerramento oficial do projeto “Mulheres e Lugares Inspiradores”, uma iniciativa desenvolvida ao longo de todo o mês de março pelo Centro de Semiliberdade (CAS) do Baixo Amazonas. Durante semanas, os adolescentes foram instigados a pesquisar e debater o papel feminino na sociedade, a importância do respeito à diversidade e a valorização do patrimônio cultural e ambiental. Levar esses jovens para vivenciar o território de Alter do Chão foi a forma encontrada pelos educadores de materializar esses conceitos teóricos em uma experiência prática de cidadania.
O protagonismo juvenil como motor de transformação
Um dos grandes méritos da iniciativa foi tirar os adolescentes da posição de meros espectadores e colocá-los no centro da organização. Desde a concepção das apresentações culturais até a logística do passeio, os jovens foram incentivados a exercer o protagonismo. Essa abordagem cumpre à risca as diretrizes do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), que defende a educação e a cultura como ferramentas muito mais eficazes para a ressocialização do que a mera punição ou o isolamento.

Ao compartilhar experiências em um ambiente não institucionalizado, os socioeducandos puderam exercitar a empatia, o trabalho em equipe e o respeito mútuo. A equipe técnica do CAS ressaltou que esse tipo de vivência ajuda a desconstruir padrões de comportamento agressivos e estimula a criação de laços afetivos saudáveis entre os próprios jovens e também com os servidores que os acompanham diariamente.
Ressignificando o espaço público e a própria identidade
Para muitos desses jovens, oriundos de contextos de extrema vulnerabilidade social, as belezas naturais e históricas do próprio estado muitas vezes parecem pertencer a um mundo distante e inacessível. Ocupar a Vila de Alter do Chão e a Praia do Cajueiro gera o que os psicólogos chamam de sentimento de pertença. Ao entenderem que aquele espaço público também é deles, os adolescentes passam a enxergar a si mesmos como cidadãos de direito, e não como indivíduos à margem da sociedade.
Rosângela Salles, gestora do CAS de Santarém, enfatizou que as atividades externas são peças-chave no quebra-cabeça da socioeducação. Segundo ela, esses momentos expandem o repertório cultural dos adolescentes e oferecem uma oportunidade rara de convivência social ampla, testando na prática as habilidades de autocontrole e respeito social que eles aprendem dentro da fundação.

SAIBA MAIS: Energia solar transforma custos, renda e direitos na Amazônia e favelas
O compromisso com uma socioeducação mais humana
A ação realizada pela Fasepa no Baixo Amazonas joga luz sobre a necessidade de humanização no atendimento a adolescentes autores de ato infracional. O projeto provou que, quando o Estado investe em cultura, arte e diálogo, as chances de um jovem romper com o ciclo da violência e construir um projeto de vida positivo aumentam drasticamente.
O encerramento do projeto “Mulheres e Lugares Inspiradores” deixa como legado não apenas fotografias bonitas nas praias do rio Tapajós, mas a certeza de que a transformação social começa pelo afeto e pela inclusão. Ao dar voz e espaço para que esses jovens se expressem e conheçam suas raízes, o sistema socioeducativo paraense planta sementes de cidadania que podem render frutos valiosos para toda a sociedade nos próximos anos.











Você precisa fazer login para comentar.