Por que ondas de frio também revelam o aquecimento global


Ondas de frio intensas, frentes frias fora de época e oscilações bruscas de temperatura têm provocado estranhamento e, muitas vezes, alimentado discursos que questionam a existência do aquecimento global. No entanto, a ciência climática aponta exatamente o contrário: esses episódios extremos não negam a crise climática, mas fazem parte dela. O paradoxo de um planeta mais quente produzir eventos de frio intenso ajuda a revelar a complexidade de um sistema climático em desequilíbrio crescente.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Pesquisas internacionais e dados recentes no Brasil indicam que o aquecimento global não significa calor constante, mas maior instabilidade atmosférica. Isso se traduz em verões mais quentes, invernos menos previsíveis, frentes frias atípicas e variações abruptas de temperatura que afetam ecossistemas, economias e a saúde humana.

Frio extremo em um planeta mais quente

Estudos publicados na revista Nature Climate Change mostram que, desde os anos 1980, os recordes de calor passaram a superar com folga os recordes de frio em praticamente todas as regiões do planeta. Ainda assim, ondas de frio continuam ocorrendo e, em alguns casos, de forma intensa. Para os cientistas, isso não representa contradição, mas consequência direta das mudanças na circulação atmosférica global.

Pesquisadores da Universidade de Exeter, da Universidade de Groningen, do Centro Canadense para Análise Climática e de institutos meteorológicos europeus explicam que o aquecimento acelerado do Ártico altera o comportamento das massas de ar. Com o enfraquecimento do gradiente térmico entre o Polo Norte e as latitudes médias, o ar frio que antes permanecia concentrado no Ártico passa a se deslocar para regiões da Europa e da América do Norte.

Russell Blackport, da Universidade de Exeter, destaca que não há tendência de aumento global de invernos frios extremos no longo prazo. O que se observa são flutuações de curto prazo, associadas à variabilidade natural do clima, inseridas em um contexto geral de aquecimento. Ou seja, os episódios de frio ocorrem dentro de um sistema climático que, como um todo, está mais quente e mais instável.

Degelo, atmosfera e falsas explicações

Um argumento recorrente entre céticos é associar diretamente o degelo do Ártico à ocorrência de ondas de frio em outras regiões. A pesquisa, porém, indica que essa relação é de coincidência, não de causa. Os cientistas analisaram grandes volumes de dados climáticos e constataram que tanto o degelo quanto os episódios de frio resultam de anomalias atmosféricas de larga escala.

Segundo comunicado da Universidade de Groningen, as mudanças nos padrões de circulação atmosférica levam o ar quente para o Ártico, acelerando o degelo, enquanto empurram o ar frio para latitudes médias. O degelo, portanto, é consequência do aquecimento global, não o gatilho das ondas de frio.

Richard Bintanja, professor da Universidade de Groningen, afirma que a redução do gelo do Ártico não deve provocar invernos mais frios e intensos no futuro. Isso não diminui a gravidade do problema climático. Pelo contrário: a perda acelerada do gelo polar afeta o nível do mar, os ecossistemas marinhos e o equilíbrio térmico global, ampliando riscos em diversas frentes.

Foto: Richard Bintanja
Foto: Richard Bintanja

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Frentes frias atípicas e o Brasil instável

No Brasil, a instabilidade climática também se manifesta de forma clara. Em janeiro de 2026, uma frente fria associada a uma massa de ar polar provocou queda de temperatura e chuvas intensas em grande parte do país, em um período tradicionalmente marcado por calor persistente. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, 23 estados e o Distrito Federal entraram em alerta para chuvas fortes, tempestades e volumes elevados de precipitação.

A Climatempo classificou o sistema como atípico para o verão, destacando que massas de ar frio mais intensas estão se tornando mais frequentes fora de época. O fenômeno trouxe alívio temporário ao calor extremo em regiões como Sul e Sudeste, mas também elevou riscos de alagamentos, deslizamentos e ventos fortes.

Essas oscilações rápidas entre calor intenso e temperaturas mais baixas refletem um padrão climático mais errático, no qual os extremos ganham força. A chamada amplitude térmica, diferença acentuada entre mínimas e máximas em curtos intervalos, tornou-se mais comum em diversas cidades brasileiras.

Temperaturas extremas e risco à saúde

Além dos impactos ambientais e econômicos, as mudanças bruscas de temperatura representam uma ameaça direta à saúde humana. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz indicam que extremos de calor e frio elevam a mortalidade, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.

Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo, em especial do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mostram que a amplitude térmica pode desencadear problemas cardiovasculares, desidratação, hipotermia e colapsos orgânicos. O professor Fernando Bellissimo Rodrigues ressalta que tanto o frio quanto o calor extremos podem levar à falência de funções vitais se não houver adaptação adequada.

Para especialistas, o enfrentamento desses riscos passa por políticas públicas estruturais. A climatização de unidades de saúde, transporte público e espaços de trabalho deixou de ser apenas conforto e passou a integrar estratégias de saúde pública. Ao mesmo tempo, a mitigação do aquecimento global exige a redução do uso de combustíveis fósseis, o combate às queimadas e a transição para fontes de energia limpa.

Ondas de frio, frentes frias fora de época e oscilações térmicas intensas não são sinais de que o aquecimento global esteja errado. São, na verdade, expressões de um clima em desequilíbrio, cada vez mais difícil de prever. Em um planeta mais quente, o tempo se torna mais extremo, e compreender essa dinâmica é essencial para reduzir riscos, proteger vidas e planejar o futuro.