Pará reduz desmatamento e sinaliza virada ambiental na Amazônia


Pará reduz desmatamento e sinaliza inflexão em uma das frentes mais críticas da Amazônia

O Pará, historicamente associado aos maiores índices de desmatamento da Amazônia, começa a dar sinais concretos de inflexão ambiental. Dados oficiais do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam que o estado reduziu em 44% os alertas de desmatamento entre agosto e dezembro de 2025, na comparação com o mesmo período do ano anterior. A queda absoluta foi de 246 quilômetros quadrados, levando o total de áreas sob alerta de 784 km² para 438 km² — o menor patamar registrado desde 2019 para esse intervalo do calendário.

(Foto: lefteye81/Pixabay

A redução ocorre em um momento estratégico, quando a Amazônia ocupa o centro do debate climático global e o Brasil se prepara para sediar a COP 30, em Belém. Mais do que um dado estatístico, o resultado reposiciona o Pará no cenário ambiental nacional e internacional, especialmente por se tratar do estado que, por décadas, concentrou a maior parte da devastação florestal do país.

Segundo o governo estadual, o desempenho reflete uma combinação de monitoramento por satélite, ações de fiscalização em campo e articulação com municípios considerados críticos. O governador Helder Barbalho afirmou que os números demonstram a eficácia de uma política ambiental que passou a operar de forma contínua e territorializada, com foco nas áreas de maior pressão sobre a floresta.

Municípios prioritários lideram a queda nos alertas ambientais

A redução mais expressiva ocorreu justamente nos municípios classificados como prioritários para ações de controle do desmatamento. Nessas localidades, os alertas caíram 54% no período analisado, passando de 454 km² para 208 km². O recorte revela um impacto direto das operações concentradas onde historicamente a floresta mais perdeu espaço para atividades ilegais.

Altamira, no sudoeste paraense, apresentou uma das quedas mais acentuadas: os alertas passaram de 58 km² para 12 km², uma redução de 79%. Em Uruará, a diminuição foi de 77%, enquanto Itaituba reduziu 75% dos registros. No arquipélago do Marajó, Portel teve queda de 59%, e Pacajá, no sudeste do estado, reduziu 62%.

Para o secretário de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará, Raul Protázio Romão, os resultados evidenciam que a presença do Estado nos territórios mais vulneráveis é decisiva. Segundo ele, quando fiscalização, inteligência territorial e cooperação municipal atuam de forma integrada, o desmatamento perde espaço.

O movimento observado no Pará acompanha uma tendência mais ampla na Amazônia Legal, que também registrou redução de aproximadamente 36% nos alertas de desmatamento no mesmo período, segundo o Inpe. Ainda assim, especialistas alertam que a consolidação dessa queda depende da manutenção das políticas públicas e da capacidade de enfrentar pressões econômicas históricas sobre a floresta.

Foto: Ibama
Foto: Ibama

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Amazônia Agora: estratégia para romper o ciclo da devastação

Por trás da redução dos alertas está o Plano Estadual Amazônia Agora, uma política pública estruturante lançada em 2019, durante a COP 25, e concebida como resposta ao papel central do Pará no desmatamento e nas emissões brasileiras de gases de efeito estufa. O estado responde sozinho por cerca de 34% de toda a devastação acumulada da Amazônia Legal e figura como o maior emissor estadual de gases do efeito estufa do país, segundo dados oficiais.

O plano parte do diagnóstico de que o modelo econômico predominante no Pará seguiu, por décadas, uma lógica predatória de “boom e colapso”: extrai-se muito, destrói-se muito e gera-se pouco retorno social duradouro. Embora seja uma potência em mineração, energia hidrelétrica, agronegócio e pecuária, o estado apresenta baixa eficiência econômica quando compara riqueza gerada e impacto ambiental. Para cada tonelada de CO₂ equivalente emitida, o Pará gera menos riqueza do que a média nacional e global.

O Amazônia Agora propõe romper esse ciclo por meio de quatro eixos centrais: comando e controle ambiental, desenvolvimento socioeconômico de baixo carbono, ordenamento territorial e financiamento ambiental de longo prazo. A proposta é reduzir o desmatamento ilegal sem paralisar a economia, promovendo atividades produtivas sustentáveis, regularização fundiária e valorização da floresta em pé.

Governança climática, justiça ambiental e o desafio de longo prazo

O plano também se ancora em uma governança climática ampla, com participação de diferentes instâncias do poder público, sociedade civil e setor produtivo. Conselhos e comitês como o Fórum Paraense de Mudanças Climáticas, o Conselho Estadual de Meio Ambiente e o Comitê Gestor do Programa Municípios Verdes atuam na articulação das políticas e no monitoramento das metas.

Além disso, o Amazônia Agora está alinhado a pelo menos oito Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo ação climática, redução das desigualdades, trabalho decente e proteção da vida terrestre. A diretriz é clara: combater o desmatamento não apenas como um problema ambiental, mas como uma questão de justiça climática e desenvolvimento humano.

Apesar dos avanços, especialistas ressaltam que os números positivos ainda representam uma fotografia parcial. A floresta segue sob pressão de cadeias ilegais, grilagem de terras e atividades econômicas que operam à margem da legislação. O desafio agora é transformar a redução dos alertas em tendência estrutural, garantindo recursos, estabilidade institucional e transparência.

Em um estado que já perdeu cerca de um quarto de sua cobertura florestal original, cada quilômetro quadrado preservado representa mais do que um ganho ambiental: é um passo na reconstrução de um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar economia, clima e justiça social. O desempenho recente do Pará sugere que essa transição, embora complexa, deixou de ser apenas promessa e começou a se materializar no território.