O peixe que simboliza a mesa amazônica pode estar caminhando para um ponto de inflexão. Pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) recomenda que o jaraqui, espécie mais consumida na região e responsável por 93% das capturas na Amazônia Central, seja incluído na lista oficial de defeso no estado. A proposta busca conter a sobrepesca e frear a rápida perda de diversidade genética identificada pelos pesquisadores.

O estudo foi realizado por cientistas da UFAM em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a partir de amostragens coletadas em 11 pontos ao longo da bacia amazônica, de Tabatinga até Jacareacanga, no Pará. A conclusão é direta: sem um período de proteção específico, o jaraqui pode enfrentar um declínio que comprometa tanto o equilíbrio ecológico quanto a segurança alimentar de milhares de famílias.
Pressão invisível sobre o peixe mais popular
O jaraqui não é apenas um peixe. É base alimentar, tradição culinária e motor econômico. Em feiras de Manaus e municípios ribeirinhos, ele é presença diária, vendido fresco, assado ou salgado. Essa centralidade, porém, transformou-se em vulnerabilidade.
Segundo os pesquisadores, a lógica do livre acesso aos rios estimula uma corrida pela captura. Pescadores sentem-se pressionados a retirar o máximo possível antes que outros o façam. Redes de grande porte cercam cardumes inteiros durante a migração reprodutiva, quando milhares de peixes sobem os rios para desovar. Em um único lance de rede, dezenas de milhares de indivíduos podem ser capturados.
Outro dado acende alerta: em Manacapuru, estudo identificou que cerca de 24,7% dos jaraquis desembarcados estavam abaixo do tamanho mínimo legal de 20 centímetros. Isso significa que quase um quarto dos peixes comercializados sequer havia se reproduzido. A captura precoce interrompe o ciclo natural de reposição, reduz o estoque e acelera um fenômeno mais silencioso: a erosão genética.

Perda genética e risco de colapso
A pesquisa indica que o jaraqui forma uma única população ao longo de toda a bacia amazônica. Essa característica, que poderia ser sinal de robustez, torna-se risco quando há pressão excessiva. A variabilidade genética — essencial para a adaptação a mudanças ambientais e resistência a doenças — está diminuindo em ritmo preocupante.
Para os cientistas da UFAM e do INPA, a sobrepesca não reduz apenas a quantidade de peixes nos rios, mas compromete a qualidade genética da espécie. Com menos diversidade, o jaraqui perde capacidade de responder a variações climáticas, poluição ou alterações no regime das águas.
O cenário é agravado pela ausência de proteção específica. Atualmente, o período de defeso no Amazonas ocorre de 15 de novembro a 15 de março, mas o jaraqui não integra a lista oficial de espécies protegidas no ciclo 2024/2025. A regulamentação é coordenada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) em nível nacional e, no estado, também pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Na lista atual estão espécies como tambaqui, pacu, sardinha, matrinxã, aruanã, caparari, mapará, pirapitinga, surubim e pirarucu — este último com regime diferenciado, permitindo pesca apenas em áreas de manejo autorizadas. O jaraqui, apesar de sua importância econômica e cultural, permanece fora da proteção sazonal.
Impacto social e dilema econômico
Qualquer proposta de inclusão do jaraqui no defeso desperta apreensão. Estima-se que mais de 200 mil pessoas estejam envolvidas direta ou indiretamente na cadeia produtiva da pesca no Amazonas. Feirantes, pescadores artesanais, transportadores e pequenos comerciantes dependem do fluxo constante do pescado.
A interrupção temporária da captura e comercialização poderia provocar queda imediata de renda. Para muitos trabalhadores, o jaraqui é o produto de maior giro e preço acessível à população de baixa renda.
Por outro lado, os pesquisadores alertam que a ausência de manejo pode levar ao colapso do estoque. Nesse cenário, o impacto econômico seria mais severo e duradouro. A escassez elevaria preços, reduziria oferta e ameaçaria a segurança alimentar regional.
O defeso, nesse contexto, é apresentado como medida preventiva. Durante o período de proibição, frigoríficos e comerciantes devem comprovar estoques previamente declarados ou origem de piscicultura regularizada. A pesca ilegal pode gerar multas que variam de R$ 700 a R$ 100 mil, além de acréscimo por quilo apreendido.

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Experiências locais apontam caminhos
Embora o jaraqui não esteja na lista estadual, há precedentes. No rio Canumã, o Ipaam estabeleceu um defeso específico entre 1º de dezembro e 31 de março, proibindo a pesca comercial da espécie para proteger comunidades ribeirinhas.
Em Reservas de Desenvolvimento Sustentável, modelo de unidade de conservação previsto no Sistema Nacional de Unidades de Conservação, iniciativas semelhantes vêm mostrando resultados positivos. Nessas áreas, o acesso à pesca é limitado prioritariamente aos moradores locais. Embarcações externas precisam adquirir o pescado diretamente das comunidades.
O uso de redes com malha mais grossa é incentivado para permitir a fuga de peixes jovens. Lagos podem ser reservados exclusivamente para pesca de subsistência. A fiscalização comunitária e sistemas de comunicação por rádio ajudam a monitorar invasões.
Além disso, políticas de crédito e infraestrutura — como instalação de fábricas de gelo — fortalecem a autonomia econômica dos ribeirinhos, reduzindo a dependência de atravessadores no sistema conhecido como aviamento.
Para os pesquisadores, a inclusão do jaraqui no defeso estadual representaria um passo decisivo rumo ao manejo sustentável. A medida permitiria proteger o período reprodutivo, preservar a diversidade genética e garantir que o peixe mais emblemático da Amazônia continue presente nas mesas futuras.
A decisão, no entanto, exigirá diálogo entre órgãos ambientais, comunidade científica e trabalhadores da pesca. O desafio é equilibrar urgência ecológica e realidade social. O jaraqui, símbolo da abundância amazônica, tornou-se também símbolo de um dilema: como preservar sem interromper a vida econômica que depende do próprio rio.











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