Arborização, além da estética, vira estratégia de saúde pública e combate à segregação


O fim da desigualdade ambiental: a árvore como infraestrutura de cidadania

Durante décadas, a imagem de ruas arborizadas no Brasil serviu como um marcador geográfico de prestígio social. Enquanto bairros planejados ostentam túneis verdes que suavizam o clima, as periferias e favelas enfrentam o fenômeno do concreto absoluto, onde a ausência de vegetação intensifica o calor e a poluição. Esse cenário, tecnicamente chamado de apartheid ambiental, começa a ser desafiado pelo lançamento do Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU) na COP30. A nova diretriz nacional rompe com a visão de que a árvore é um acessório estético de embelezamento, elevando-a ao status de infraestrutura essencial, tão vital para a dignidade urbana quanto o saneamento básico ou a iluminação pública.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O pilar central dessa mudança é a estratégia internacional conhecida como Regra 3-30-300. O conceito é simples, mas revolucionário para a realidade brasileira: cada cidadão deve enxergar ao menos três árvores de sua janela, cada bairro deve ter trinta por cento de cobertura vegetal e ninguém deve morar a mais de trezentos metros de um parque ou praça. Ao adotar esse parâmetro, o governo federal estabelece uma meta ambiciosa para 2045: saltar de quarenta e cinco para sessenta e cinco por cento o número de brasileiros vivendo em ruas com densidade arbórea mínima. É uma tentativa direta de democratizar o conforto térmico e a qualidade do ar, devolvendo às populações vulneráveis o direito de viver em um ambiente resiliente.

A engenharia natural contra as ilhas de calor

As cidades brasileiras tornaram-se verdadeiros fornos a céu aberto devido ao acúmulo de asfalto e materiais que retêm radiação solar. O PlaNAU apresenta a arborização como a principal Solução Baseada na Natureza para mitigar as ilhas de calor, fenômeno que pode elevar a temperatura de áreas urbanas densas em relação ao seu entorno rural. Estudos técnicos indicam que o plantio estratégico de espécies nativas pode resfriar o ambiente em até doze graus Celsius. Esse efeito não ocorre apenas pela sombra projetada, mas pelo processo biológico da evapotranspiração, onde as árvores funcionam como climatizadores naturais, liberando umidade e purificando o ar.

O impacto vai além do termômetro e atinge diretamente a saúde pública. A presença de vegetação em áreas de alta vulnerabilidade climática está correlacionada à redução de internações por doenças respiratórias e cardiovasculares, graças à capacidade das folhas de filtrar o material particulado expelido pelos veículos. No entanto, o desafio é geográfico. Para elevar a média nacional de cobertura verde de vinte e oito para trinta e dois por cento até 2045, o Brasil precisará plantar aproximadamente setenta e dois milhões de mudas. O foco não é apenas a quantidade, mas a qualidade: a Iniciativa ArborizaCidades prioriza a substituição de árvores exóticas invasoras por nativas, garantindo que a floresta urbana também atue como um corredor de biodiversidade.

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A economia do carbono transformando o asfalto em ativo

Uma das inovações mais promissoras para viabilizar essa transformação é a conexão entre o verde urbano e o novo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Com a promulgação da Lei nº 15.042/2024, as cidades ganharam ferramentas para monetizar a manutenção de seus ecossistemas. O mercado de carbono agora permite que prefeituras gerem Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs) a partir do reflorestamento de áreas públicas. Isso significa que o plantio em uma encosta de favela ou em um parque periférico pode se tornar um ativo financeiro negociável, gerando recursos que retornam para a própria manutenção daquela área verde.

Além da geração direta de créditos, o financiamento é impulsionado pelo redirecionamento de receitas de leilões de emissões. A legislação determina que a maior parte desse montante seja destinada ao Fundo Clima, que por sua vez facilitará o acesso a recursos para municípios que estruturarem seus Planos Municipais de Arborização Urbana. Instituições como o BNDES já atuam na aquisição desses créditos no mercado voluntário, sinalizando que a proteção ambiental urbana é um investimento seguro. Essa arquitetura financeira permite que cidades de menor porte criem consórcios intermunicipais, ganhando escala para comercializar sua capacidade de sequestro de carbono e financiar equipes técnicas e viveiros locais.

Necessidade de arborização nas periferias - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Governança participativa e o combate ao greenwashing

Apesar do otimismo tecnológico e econômico, o PlaNAU acende um alerta sobre a necessidade de participação social para evitar o chamado greenwashing urbano. Existe o risco de que grandes poluidores industriais tentem compensar suas emissões financiando plantios em áreas vulneráveis como uma forma de “gestão de imagem”, sem efetivamente reduzir seus impactos diretos. Para evitar que o verde seja imposto de cima para baixo, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima reforça que os projetos de arborização devem ser construídos em diálogo com as comunidades, respeitando a cultura local e as necessidades de uso do território.

A meta para 2045 exige uma governança robusta, coordenada pelo Governo Federal e executada pelas prefeituras com apoio da Anatel na integração de tecnologias de monitoramento via satélite. O Cadastro Ambiental Urbano (CAU) será a ferramenta essencial para medir o progresso e garantir que o plantio não resulte apenas em números, mas em justiça climática real. Ao tratar as árvores como aliadas estratégicas contra a desigualdade, o Brasil desenha um futuro onde o CEP de um cidadão não determine a temperatura em sua janela nem a pureza do ar em seus pulmões. A arborização urbana, enfim, deixa de ser um luxo de poucos para se tornar um direito de todos.