
Sob as águas escuras dos rios da Amazônia, histórias do passado estão sendo reveladas metro a metro. O mapeamento tridimensional realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) já identificou estruturas submersas que incluem remanescentes de pontes coloniais, embarcações naufragadas do ciclo da borracha e artefatos que podem reescrever capítulos da ocupação humana na região.
As descobertas, ainda em fase de validação científica, combinam alta tecnologia geofísica com pesquisa histórica e arqueológica. Neste relatório especial, apresentamos os principais achados do projeto e o que eles significam para a memória e o futuro da Amazônia.
O que o sonar encontrou: primeiros resultados validados
Em trechos piloto dos rios Negro, Solimões e Madeira, a combinação de sonar multifeixe (MBES) e sonar de varredura lateral (SSS) permitiu identificar mais de 40 anomalias estruturais no leito fluvial. Desses, 12 alvos foram classificados como de alto interesse histórico ou arqueológico.

Exemplo de estrutura submersa identificada por sonar de varredura lateral
Estruturas identificadas (dados preliminares):
| Tipo de estrutura | Localização aproximada | Período estimado | Estado de conservação |
|---|---|---|---|
| Pilares de ponte em alvenaria | Rio Negro, próximo a Manaus | Final do século XIX | Parcialmente soterrados |
| Casco de embarcação a vapor | Rio Solimões, trecho de Tefé | 1920-1940 | Estrutura preservada, parcialmente inclinada |
| Ancoradouro de pedra | Rio Madeira, área de Porto Velho | Início do século XX | Base visível, superestrutura ausente |
| Objetos metálicos dispersos | Rio Tapajós, região de Santarém | Indeterminado | Requer investigação subaquática |
| Fundação de edificação ribeirinha | Rio Amazonas, ilha de Marajó | Século XVIII-XIX | Estrutura baixa, coberta por sedimentos |
“Não estamos apenas encontrando ‘coisas no fundo do rio’. Estamos identificando marcos físicos da história da Amazônia”, afirma a arqueóloga subaquática Beatriz Almeida, consultora do projeto. “Cada estrutura mapeada é uma oportunidade de entender como as comunidades do passado se relacionavam com os rios.”
Pontes que o tempo levou: engenharia colonial sob as águas
Um dos achados mais significativos ocorreu no Rio Negro, a cerca de 15 quilômetros a montante de Manaus. O sonar de varredura lateral revelou uma sequência de pilares retangulares em alvenaria de pedra e cal, dispostos em alinhamento regular a aproximadamente 8 metros de profundidade.
As dimensões e o padrão construtivo sugerem que se trata dos remanescentes de uma ponte ou passarela de ligação entre margens, possivelmente associada a um antigo seringal ou posto comercial do ciclo da borracha. Documentos históricos consultados pela equipe indicam a existência de uma estrutura semelhante na região, mencionada em relatos de viajantes do final do século XIX, mas cuja localização exata havia se perdido.
Reconstituição digital de ponte colonial baseada em dados de sonar
A preservação relativa dos pilares — apesar de mais de um século submersos — deve-se à baixa oxigenação das águas amazônicas e à proteção oferecida pelos sedimentos finos que recobrem parcialmente a estrutura. Próximas etapas incluem mergulho técnico para coleta de amostras e documentação fotogramétrica.
Naufrágios do ciclo da borracha: memória preservada pelo lodo
Outro conjunto de descobertas refere-se a embarcações naufragadas. No Rio Solimões, próximo a Tefé, o mapeamento identificou um casco alongado de aproximadamente 25 metros de comprimento, com características compatíveis com os vapores regionais que operavam entre 1920 e 1940.
A imagem acústica mostra:
- Estrutura principal do casco preservada
- Posicionamento inclinado, sugerindo afundamento por adernamento
- Ausência de superestrutura, provavelmente desmontada ou deteriorada
- Presença de objetos dispersos no entorno, possivelmente carga ou equipamentos
“Esses naufrágios são cápsulas do tempo”, explica o historiador naval Roberto Mendes. “Eles contêm informações sobre tecnologia naval da época, rotas comerciais, e até hábitos de consumo das populações ribeirinhas.”
A legislação brasileira protege embarcações naufragadas há mais de 50 anos como patrimônio cultural subaquático. Qualquer intervenção exige autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e deve seguir protocolos rigorosos de preservação.
Tesouros históricos: o que pode estar escondido
Além das estruturas de grande porte, o mapeamento também revelou concentrações de objetos metálicos e cerâmicos em pontos específicos do leito. Embora seja prematuro classificar esses achados como “tesouros”, eles representam potenciais sítios arqueológicos de alto valor informativo.
Entre os alvos de interesse:
- Aglomerados de recipientes cerâmicos em áreas de antigos portos fluviais
- Objetos metálicos não identificados em trechos de corredeiras históricas
- Estruturas de fundação associadas a edificações ribeirinhas desaparecidas
É importante destacar que o projeto do SGB tem caráter científico e de preservação. Não há busca por objetos de valor comercial, e todos os achados são documentados in situ, sem remoção, salvo em casos de resgate autorizado por órgão competente.
Arqueologia subaquática na Amazônia: como proteger o patrimônio descoberto
Como a tecnologia ajuda a contar histórias
A combinação de técnicas foi fundamental para transformar ecos acústicos em narrativas históricas:
- Deteção inicial (SSS): o sonar de varredura lateral identificou anomalias com assinatura acústica distinta do fundo natural;
- Caracterização geométrica (MBES): o sonar multifeixe forneceu medidas precisas de dimensão, orientação e profundidade;
- Contextualização geológica (SBP): o perfilador de subfundo revelou se as estruturas estão sobre o sedimento recente ou embutidas em camadas mais antigas;
- Cruzamento histórico: equipe de historiadores e arqueólogos confrontou os dados técnicos com mapas, relatos e fotografias de arquivo.
Fluxo de trabalho integrado entre geofísica e arqueologia
Esse fluxo integrado permite priorizar alvos para investigação presencial, otimizando recursos e minimizando impactos ambientais.
Desafios éticos e legais da pesquisa subaquática
A descoberta de estruturas históricas submersas traz à tona questões importantes sobre gestão do patrimônio cultural:
- Quem é o dono do que está no fundo do rio? No Brasil, bens culturais subaquáticos são propriedade da União, independentemente de onde se encontrem.
- Como equilibrar pesquisa e preservação? A tendência atual é priorizar documentação não invasiva, reservando intervenções diretas para casos de risco iminente.
- Qual o papel das comunidades locais? O SGB prevê a participação de representantes ribeirinhos e indígenas nas etapas de interpretação e divulgação dos achados.
“Não queremos que a tecnologia seja um fim em si mesma”, afirma a coordenadora de patrimônio cultural do SGB, dra. Helena Costa. “O objetivo é produzir conhecimento que sirva à sociedade, respeitando a memória e os direitos das populações tradicionais.”
Dados do mapeamento serão públicos? Entenda o acesso à informação
Próximos passos: da descoberta à divulgação
Para os alvos considerados prioritários, o cronograma prevê:
- Março-abril/2026: Campanhas de validação com mergulho técnico e coleta de amostras não destrutivas;
- Maio-junho/2026: Produção de modelos 3D detalhados e integração com acervos históricos digitais;
- Julho/2026: Lançamento de portal interativo com visualização pública dos sítios mapeados (respeitando restrições de preservação);
- Segundo semestre/2026: Exposição virtual e material educativo para escolas da região amazônica.
A equipe também estuda a criação de um protocolo nacional para mapeamento arqueológico subaquático em ambientes fluviais, aproveitando a expertise desenvolvida no projeto.
Próxima matéria da série: “Petróleo na Amazônia? O que o mapeamento do SGB realmente pode revelar”





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