O cinema brasileiro vive um momento em que câmeras e roteiros se transformam em instrumentos de denúncia e reflexão sobre a crise climática e os direitos dos povos indígenas. Nos últimos anos, o gênero documentário consolidou-se como a principal linguagem para abordar a devastação ambiental, a violência contra territórios tradicionais e os impasses políticos que atravessam o país. Ao mesmo tempo, produções nacionais ganham reconhecimento internacional e alcançam a corrida pelo Oscar 2026, ampliando o alcance dessas narrativas.

Em vez de tratar o colapso ambiental como um cenário distante, os filmes recentes mostram que a emergência climática já está inscrita no cotidiano brasileiro, seja nas queimadas amazônicas, nas secas prolongadas ou nas chuvas torrenciais que devastam cidades. Mais do que retratar paisagens ameaçadas, as obras colocam no centro da história os povos originários, apresentados não apenas como vítimas, mas como guardiões fundamentais das florestas e protagonistas de soluções.
Entre resistência e sobrevivência na Amazônia
Um dos títulos que simboliza essa virada é Yanuni, também referido como Iannuni, pré-selecionado para o Oscar 2026. O documentário acompanha a trajetória da cacica Juma Xipaia, liderança da aldeia Kaarimã, na Terra Indígena Xipaya, em Altamira, no Pará. Aos 24 anos, em 2016, Juma tornou-se a primeira mulher cacique de seu povo. Desde então, transformou-se em uma das vozes mais firmes contra o avanço do garimpo ilegal, da mineração e dos grandes projetos que pressionam a região, como a usina de Belo Monte.
O filme não constrói um retrato heroico convencional. Ao contrário, revela o custo íntimo da resistência. Juma enfrenta ameaças constantes — já sobreviveu a seis tentativas de assassinato — enquanto vive a maternidade e a gravidez sob o peso de uma luta que ultrapassa os limites da aldeia. A narrativa humaniza a liderança ao mostrar que proteger o território é, também, proteger a própria família.
A obra conecta a defesa da floresta à noção de justiça climática. Ao preservar a terra, os povos indígenas mantêm vastas áreas de mata em pé, funcionando como barreiras efetivas contra o desmatamento. Estudos reiterados mostram que terras indígenas são algumas das áreas mais preservadas da Amazônia, reforçando a tese de que o conhecimento tradicional é peça-chave na mitigação das mudanças climáticas.
Yanuni também revela a articulação entre saber ancestral e ação institucional. Juma foi nomeada secretária no Ministério dos Povos Indígenas, ampliando sua atuação para além do território local. O documentário evidencia ainda a parceria com seu marido, Hugo Loss, agente ambiental do Ibama, mostrando a convergência entre fiscalização estatal e protagonismo indígena. A própria Juma assina a coprodução do filme ao lado do ator Leonardo DiCaprio, garantindo que a narrativa preserve a perspectiva de quem vive a luta no chão da floresta.

Fé, poder e crise no debate político
Se Yanuni mergulha na resistência territorial, Apocalipse nos Trópicos, dirigido por Petra Costa, amplia o foco para o terreno político. A cineasta, indicada anteriormente ao Oscar por Democracia em Vertigem, investiga a relação entre religião e poder no Brasil contemporâneo, situando esse entrelaçamento no contexto de crises sociais e ambientais.
O documentário, também pré-selecionado para o Oscar 2026, reúne entrevistas com figuras centrais do cenário nacional, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o pastor Silas Malafaia. A obra examina como discursos religiosos influenciam decisões políticas e como essa dinâmica impacta temas estruturais, incluindo a pauta ambiental.
Embora o eixo central seja a interseção entre fé e política, o filme dialoga com a crise climática ao expor a fragilidade institucional e a erosão democrática que dificultam respostas coordenadas aos desafios ambientais. A normalização de discursos autoritários e a polarização ideológica aparecem como obstáculos à construção de consensos necessários para enfrentar o aquecimento global.
A produção insere-se em uma geração de documentários que enxergam a crise climática não apenas como fenômeno natural, mas como resultado de escolhas políticas e modelos de desenvolvimento. Nesse contexto, artistas como Wagner Moura têm usado sua projeção internacional para denunciar retrocessos democráticos e associar responsabilidade cultural à defesa ambiental.
Crise climática já é presente, não projeção
Outras produções reforçam que a emergência climática não pertence ao futuro. O mini-documentário O Amanhã é Hoje reúne relatos e imagens de eventos extremos recentes, como secas severas e enchentes devastadoras, para mostrar que a crise já produz perdas humanas e materiais no Brasil.
Ao mesmo tempo, filmes como O Chamado do Cacique, sobre Raoni Metuktire, e Parceiros da Floresta reforçam a convergência entre ciência e saberes tradicionais. As narrativas defendem que soluções para evitar desastres ambientais passam por reconhecer o papel histórico dos povos originários na gestão sustentável dos ecossistemas.
Essa abordagem desloca o debate ambiental de uma lógica meramente técnica para uma perspectiva cultural e ética. A floresta deixa de ser vista apenas como recurso econômico e passa a ser entendida como território de vida, memória e conhecimento.

Sustentabilidade também atrás das câmeras
A reflexão ambiental não se limita às telas. O próprio setor audiovisual começa a confrontar sua pegada de carbono. Em novembro de 2025, a BAFTA albert, braço de sustentabilidade da Academia Britânica de Cinema e Televisão, lançou o relatório ACCELERATE 2025, considerado um guia histórico para a indústria.
Baseado em dados de mais de 2.500 produções realizadas em 2024, o documento revela que cinema e televisão emitiram quase 175 mil toneladas de carbono naquele ano. O guia propõe doze recomendações práticas, que vão desde a redução de viagens aéreas e priorização de veículos elétricos até a eliminação de geradores movidos a combustíveis fósseis nos sets de filmagem.
As orientações incluem ainda uso de materiais reutilizados em cenários e figurinos, redução do desperdício de alimentos e maior precisão na coleta de dados ambientais. A meta é incorporar a sustentabilidade ao DNA da indústria e alinhar produções ao objetivo de emissões líquidas zero.
Para o cinema brasileiro, que cada vez mais coloca a crise climática no centro de suas narrativas, o desafio é duplo: contar histórias transformadoras e, simultaneamente, reduzir o impacto ambiental de suas próprias produções. O reconhecimento em premiações internacionais amplia a visibilidade dessas pautas e coloca o país em um debate global sobre cultura, democracia e futuro do planeta.
Ao disputar espaço no Oscar 2026 com documentários que confrontam desmatamento, autoritarismo e injustiça climática, o cinema brasileiro sinaliza que a arte pode ser também ferramenta de mobilização. Em um cenário de extremos — climáticos e políticos — a câmera torna-se testemunha, denúncia e, sobretudo, convite à ação.












Você precisa fazer login para comentar.