ProFloresta+ atrai mercado e inaugura nova escala para restauração da Amazônia
A restauração florestal da Amazônia deixou de ser apenas uma promessa ambiental e passou a ocupar o centro de uma engrenagem econômica em expansão. O encerramento do primeiro edital do ProFloresta+, iniciativa conjunta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Petrobras, revelou um cenário considerado acima das expectativas oficiais: 16 propostas foram apresentadas para venda de créditos de carbono oriundos de projetos de restauração ecológica com espécies nativas no bioma amazônico.

O volume de inscrições, segundo o próprio BNDES, demonstra que o mercado respondeu de forma concreta à combinação entre previsibilidade contratual, exigência técnica rigorosa e financiamento estruturado. Mais do que uma disputa comercial, o edital sinaliza uma inflexão no papel do Estado e das grandes empresas na consolidação do mercado voluntário de carbono de alta integridade no Brasil.
Lançado em novembro de 2025 durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o programa foi desenhado para atacar dois desafios simultâneos: ampliar a restauração de áreas degradadas na Amazônia e criar demanda estável para créditos de carbono baseados em soluções naturais, um segmento ainda marcado por volatilidade e desconfiança internacional.
Créditos de carbono como motor de restauração ecológica
O coração do ProFloresta+ está na compra antecipada, pela Petrobras, de créditos de carbono certificados gerados a partir da restauração florestal com espécies nativas. Esses créditos, conhecidos como Unidades de Carbono Verificadas (VCUs), seguem padrões rigorosos de integridade ambiental, adicionalidade, permanência e monitoramento.
Neste primeiro edital, o objetivo é contratar 5 milhões de créditos, distribuídos em cinco contratos de 1 milhão de VCUs cada. No horizonte mais amplo do programa, a ambição é restaurar até 50 mil hectares de áreas degradadas na Amazônia e gerar cerca de 15 milhões de créditos de carbono, o equivalente às emissões anuais de aproximadamente 8,9 milhões de automóveis a gasolina.
Para viabilizar os projetos, os vencedores terão acesso a linhas de financiamento diferenciadas do BNDES, incluindo recursos do Fundo Clima, mecanismo federal voltado a iniciativas alinhadas à mitigação das mudanças climáticas. Na prática, o banco atua como indutor financeiro, reduzindo riscos e ampliando a atratividade econômica da restauração florestal em larga escala.
Segundo a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, o volume de propostas confirma que existe demanda reprimida por instrumentos públicos capazes de organizar o setor. A restauração, historicamente tratada como custo ambiental, passa a ser estruturada como ativo econômico de longo prazo, com impacto climático mensurável.

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Avaliação técnica rigorosa e salvaguardas socioambientais
As propostas agora avançam para a fase de avaliação de efetividade técnica, etapa central do edital. Os critérios vão além da viabilidade financeira e incluem exigências robustas de integridade ambiental, respeito às salvaguardas socioambientais, governança fundiária, transparência e benefícios para comunidades locais.
Cabe à Petrobras selecionar o conjunto de projetos que ofereça o menor desembolso total para o volume de créditos pretendido, sem abrir mão dos padrões técnicos estabelecidos. A empresa vê a compra de créditos como uma ferramenta complementar à sua estratégia de descarbonização, especialmente em setores onde a redução direta de emissões ainda encontra limites tecnológicos.
De acordo com a diretora de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, Angelica Laureano, o interesse pelo ProFloresta+ reforça o potencial do Brasil no mercado de carbono de base natural. Para a companhia, investir em créditos de alta integridade significa ampliar resultados climáticos, gerar benefícios socioeconômicos e fortalecer ecossistemas estratégicos para o país.
O resultado do processo licitatório, com a indicação dos projetos vencedores, volumes contratados e valores pagos, deve ser divulgado no primeiro semestre de 2026, após a conclusão das análises técnicas e econômicas.
Um novo modelo para o mercado voluntário de carbono no Brasil
Anunciado oficialmente em março de 2025, o ProFloresta+ nasce com a ambição de se tornar uma referência institucional para o mercado voluntário de carbono no país. A iniciativa integra a estratégia BNDES Florestas, frente do banco voltada ao fortalecimento da restauração ecológica e da bioeconomia florestal em escala nacional.
Construído de forma colaborativa, o programa contou com contribuições técnicas do escritório Mattos Filho, do Imaflora, do Agroícone e do Instituto Clima e Sociedade (iCS), além de sugestões colhidas em consulta pública. O resultado é a primeira transação pública estruturada de créditos de carbono de restauração ecológica no Brasil, com contratos de longo prazo e maior transparência na formação de preços.
Ao articular Estado, empresa estatal e agentes privados, o ProFloresta+ inaugura um modelo que busca reduzir incertezas, atrair investidores e elevar o padrão de credibilidade do carbono brasileiro no cenário internacional. Mais do que recuperar áreas degradadas, o programa aponta para um novo ciclo em que a floresta em pé se consolida como estratégia climática, econômica e geopolítica para o país.












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