Entre redes, plástico e calor: A corrida pela sobrevivência das tartarugas no Brasil


Um ciclo de vida marcado por obstáculos

Das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil — cabeçuda, de pente, verde, oliva e de couro — todas enfrentam uma jornada brutal desde o nascimento. A estatística é implacável: apenas um ou dois filhotes em cada mil conseguem atingir a idade adulta. A natureza sempre impôs desafios. O problema é que, hoje, a maior parte das ameaças não vem de predadores naturais, mas da ação humana.

Shane Gross venceu a categoria Ocean Conservation (Hope) com esta imagem de uma tartaruga marinha verde em Seychelles sendo liberada por um pesquisador após ser acidentalmente capturada enquanto os pesquisadores tentavam capturar tubarões. Agindo rapidamente, eles desembaraçaram a tartaruga, fizeram medições e a marcaram antes de soltá-la.

Ao longo de mais de mil quilômetros de litoral monitorado, a Fundação Projeto Tamar acompanha esse drama silencioso. Criado nos anos 1980 e hoje vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Projeto Tamar tornou-se referência internacional na proteção desses animais. Seu trabalho combina ciência, presença comunitária e mobilização social para tentar equilibrar uma equação cada vez mais complexa.

A realidade é que as tartarugas enfrentam pressões em todas as etapas do ciclo de vida: na praia, no mar aberto e nas áreas de alimentação. Redes de pesca, plástico, iluminação artificial, erosão costeira e aquecimento global formam um conjunto de ameaças que opera de maneira simultânea.

O mar transformado em armadilha

A captura incidental na pesca é apontada como uma das principais causas de mortalidade. Redes de emalhe, espinhéis pelágicos e redes de arrasto para peixes e camarão transformam o oceano em um labirinto invisível. Ao ficarem presas, muitas tartarugas não conseguem subir à superfície para respirar e morrem por afogamento. Outras sofrem traumas graves, amputações de nadadeiras ou ingerem anzóis e linhas que permanecem alojados no trato digestivo.

Para enfrentar esse cenário, o Projeto Tamar mantém diálogo permanente com comunidades pesqueiras. A campanha Nem Tudo que Cai na Rede é Peixe ensina técnicas de manejo e ressuscitação de animais capturados acidentalmente, além de estimular práticas mais seletivas. A estratégia é simples: reduzir a mortalidade sem ignorar a importância socioeconômica da pesca artesanal.

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Praia do Atalaia – Imagem: Kaio Hudson/Ideflor-Bio

Outra ameaça crescente é o lixo marinho. Sacolas plásticas, embalagens, linhas de nylon e balões são frequentemente confundidos com águas-vivas, alimento comum de algumas espécies. A ingestão de plástico provoca bloqueios intestinais, perfurações e alterações na flutuabilidade. Muitas tartarugas debilitadas acabam encalhando nas praias.

As equipes do Projeto Tamar mantêm centros de reabilitação em estados como Bahia, Sergipe, São Paulo e Santa Catarina. Animais resgatados recebem tratamento veterinário antes de, quando possível, serem devolvidos ao mar. Cada caso revela a dimensão do impacto humano sobre o ambiente marinho.

Praias sob pressão

Se o mar é território de riscos, as praias de desova também se tornaram ambientes hostis. A iluminação artificial nas orlas urbanizadas interfere diretamente no comportamento das fêmeas e dos filhotes. A luz intensa pode desorientar recém-nascidos, que seguem em direção ao continente em vez do mar, morrendo por desidratação, exaustão ou atropelamento.

Em várias regiões, o Projeto Tamar atua para alterar padrões de iluminação pública e privada, estimulando o uso de luminárias que não projetem luz diretamente sobre a areia. A proteção das áreas de desova também envolve restrições ao tráfego de veículos nas praias, já que carros e quadriciclos compactam a areia e podem destruir ninhos.

A urbanização desordenada representa outro fator crítico. Construções sobre dunas e áreas de restinga reduzem o espaço disponível para a postura de ovos. A erosão costeira, intensificada por intervenções humanas e pelo avanço do mar, compromete trechos históricos de reprodução.

Durante cada temporada reprodutiva, equipes percorrem praias diariamente para localizar e proteger ninhos. Em temporadas recentes, dezenas de milhares de ninhos foram monitorados. O trabalho envolve cercamento, registro biométrico das fêmeas e, quando necessário, transferência de ovos para áreas mais seguras.

Divulgação - Projeto Tamar
Divulgação – Projeto Tamar

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Clima em transformação, sexo em desequilíbrio

As mudanças climáticas adicionam um componente ainda mais delicado à equação. Nas tartarugas marinhas, a temperatura da areia determina o sexo dos filhotes. Temperaturas mais baixas favorecem o nascimento de machos; temperaturas mais altas produzem mais fêmeas.

Com o aquecimento global, pesquisadores observam uma tendência de aumento na proporção de fêmeas em algumas áreas de desova. Um desequilíbrio extremo pode comprometer a viabilidade genética das populações no longo prazo.

Além disso, a elevação do nível do mar e a intensificação de tempestades ameaçam diretamente os ninhos. Eventos extremos podem submergir ovos ou provocar erosão que arrasta ninhos inteiros. A variação térmica também influencia o tempo de incubação, que pode variar de 45 a 90 dias, alterando o sucesso reprodutivo.

As tartarugas são consideradas sentinelas ambientais. Alterações em seus padrões de saúde e comportamento sinalizam mudanças mais amplas nos ecossistemas marinhos. Doenças como a fibropapilomatose, que causa tumores externos e internos, tendem a proliferar em ambientes degradados e águas mais quentes.

Para compreender melhor essas dinâmicas, o Projeto Tamar utiliza telemetria por satélite. Transmissores acoplados às carapaças permitem acompanhar rotas migratórias, identificar áreas de alimentação e mapear zonas de risco. Diferentemente da antiga marcação com placas metálicas, que dependia de reencontros fortuitos, a telemetria fornece dados contínuos sobre deslocamentos oceânicos.

Essas informações orientam políticas públicas e ajudam a identificar sobreposições entre rotas migratórias e áreas de pesca intensiva. A tecnologia amplia a capacidade de intervenção, mas não substitui a necessidade de mudança de comportamento humano.

A conservação das tartarugas no Brasil é, acima de tudo, um exercício de convivência. Não se trata apenas de proteger uma espécie carismática, mas de preservar processos ecológicos fundamentais. Ao envolver pescadores, escolas, turistas e comunidades costeiras, o Projeto Tamar construiu um modelo que alia ciência e participação social.

O futuro das tartarugas dependerá da redução do plástico nos oceanos, da adaptação das cidades costeiras e da contenção das emissões que alimentam o aquecimento global. A corrida pela sobrevivência desses animais é, em última instância, um reflexo da relação que a sociedade estabelece com o mar.

Salvar as tartarugas significa redesenhar essa relação. Cada ninho protegido, cada filhote que alcança o oceano e cada pescador que solta um animal preso na rede representam passos concretos em direção a um litoral mais equilibrado. O desafio é garantir que esses passos se multipliquem antes que o ciclo de vida, já tão frágil, se torne insustentável.