Mulheres assumem o protagonismo na gestão de novas comunidades urbanizadas no Amazonas.


A transformação da paisagem urbana na Amazônia, frequentemente retratada por grandes obras de infraestrutura, esconde uma revolução silenciosa e profundamente social: ela possui um rosto feminino. Programas de requalificação como o PROSAMIN+ em Manaus e o PROSAI em Parintins não estão apenas erguendo alvenaria sobre áreas de palafitas; estão reconfigurando a dinâmica de poder nas periferias ao colocar as mulheres no centro do processo de mudança.

Foto: Anderson Menezes/Amazônia Real

Os dados socioeconômicos que embasam essas intervenções lançam luz sobre uma realidade contundente nas áreas vulneráveis da região. O censo realizado pelo PROSAMIN+ revelou que 58% dos domicílios programados para remoção são chefiados exclusivamente por mulheres. Mais do que uma estatística, esse número reflete uma sobrecarga dramática: centenas dessas chefes de família são as únicas provedoras de seus lares, sustentando filhos com renda igual ou inferior a um salário mínimo, equilibrando a batalha diária pela sobrevivência com a gestão do cuidado em ambientes insalubres.

Diante desse cenário de “matrifocalidade” nas periferias amazônicas, a política pública precisou adaptar suas ferramentas. A resposta veio na forma de uma diretriz que transcende a engenharia: a garantia de que a titularidade das novas moradias seja, preferencialmente, feminina.

O título de propriedade como escudo social

A decisão de emitir a documentação de posse ou uso das novas unidades habitacionais em nome da mulher não é um mero detalhe burocrático, mas uma estratégia deliberada de proteção social. Historicamente, em situações de instabilidade habitacional ou separações conjugais, as mulheres e seus filhos eram os elos mais fracos, frequentemente sujeitos a despejos ou à perda do teto.

Ao formalizar a propriedade em nome delas, o programa oferece uma segurança jurídica inédita. O título funciona como um instrumento de emancipação. Em contextos onde a violência doméstica é uma realidade latente, a posse da chave altera a balança de poder dentro de casa. A mulher ganha a autonomia necessária para romper ciclos de abuso, sabendo que o abrigo é seu por direito legal. Além da segurança física do imóvel, o programa integra equipes de assistentes sociais e psicólogas para acompanhar casos identificados durante o reassentamento, criando uma rede de proteção que vai além das paredes da nova casa.

Essa autonomia se estende também à gestão de recursos. Em casos onde a solução envolve compensação financeira, a mulher precisa concordar formalmente com o destino do dinheiro, evitando que recursos vitais para a família sejam dissipados sem seu consentimento.

Crédito: Lilian Campelo-Ascom
Crédito: Lilian Campelo-Ascom

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Da palafita ao ponto comercial

A segurança habitacional serve como base para outro pilar fundamental: a autonomia econômica. Sabendo que o teto sobre a cabeça de seus filhos está garantido, essas mulheres podem direcionar energia para a geração de renda. Os programas de modernização urbana na Amazônia têm investido em capacitação profissional e fomento ao empreendedorismo como ferramentas de saída da pobreza.

As iniciativas são realizadas em parceria com instituições como o SEBRAE e o CETAM, oferecendo cursos que vão desde técnicas de gestão para pequenos negócios até o aprimoramento do artesanato local. Em Parintins, por exemplo, o projeto inclui a criação do Centro de Qualificação da Mulher Parintinense e apoio técnico a artesãs, algumas já capacitadas em projetos anteriores como os do ASL Brasil no Médio Juruá.

A própria arquitetura dos novos conjuntos habitacionais reflete essa preocupação com a mulher trabalhadora. Unidades no térreo foram projetadas para uso misto, permitindo que a moradora abra um pequeno comércio ou serviço em sua própria residência. Isso possibilita conciliar a geração de renda com o cuidado dos filhos, uma demanda histórica dessas mães solo. O suporte inclui ainda acesso a microcrédito e espaços físicos como quiosques e feiras para escoar a produção.

Liderança comunitária e gestão do espaço

O impacto da titularidade feminina transborda para a esfera pública. Ao serem reconhecidas como as proprietárias legais, essas mulheres assumem um novo protagonismo na gestão da cidade. O programa incentiva que elas ocupem papéis de liderança em comitês comunitários e grupos de apoio local, tornando-se interlocutoras entre o governo e a vizinhança.

Elas deixam de ser apenas beneficiárias passivas para se tornarem coprodutoras do espaço urbano. Suas vozes influenciam desde o desenho das áreas comuns, demandando espaços de serviço adequados, até a segurança dos parques. Muitas são capacitadas para atuar como “Agentes de Vizinhança”, administrando os novos condomínios, ou como agentes ambientais, cuidando da preservação dos igarapés recuperados.

Uma nova perspectiva para a Amazônia urbana

A inclusão dessas famílias em tarifas sociais de água e energia fecha o ciclo, garantindo que os custos da formalidade não inviabilizem a permanência na nova moradia. O que se desenha na Amazônia é um modelo de intervenção urbana que entende que não há modernização sustentável sem enfrentar as desigualdades de gênero.

A trajetória da mulher que sai da insegurança da área alagadiça para receber a chave de um apartamento em seu nome representa mais do que uma mudança de endereço. É a transição da vulnerabilidade extrema para a cidadania plena, onde o concreto e o aço das obras servem como alicerce para a dignidade e a autonomia feminina na região.