Quênia aposta na energia limpa para liderar a agenda climática africana


Quênia emerge como vitrine africana da transição climática

No coração do Vale do Rift, onde a crosta terrestre africana se separa lentamente, o vapor que sobe do solo é mais do que um fenômeno geológico. Ele se tornou símbolo de uma ambição nacional. O Quênia decidiu transformar sua geografia singular em vantagem estratégica e passou a se apresentar como um dos principais laboratórios africanos da transição energética. Ao combinar geotermia, vento, água e sol, o país constrói uma narrativa de liderança climática que ganha espaço em fóruns internacionais, mas que também convive com contradições internas e desafios estruturais ainda longe de solução.

Foto: Philipp Sandner/DW

A base dessa estratégia está na energia geotérmica explorada em Olkaria, onde se encontra o maior complexo desse tipo na África. Ali, o calor do magma próximo à superfície aquece reservatórios subterrâneos, produz vapor e movimenta turbinas capazes de gerar eletricidade de forma contínua, estável e limpa. Com cerca de mil megawatts instalados, o Quênia ocupa posição de destaque no continente e figura entre os maiores produtores globais dessa fonte energética.

Esse desempenho atraiu atenção internacional e consolidou o país como referência em energia limpa no Sul Global. Autoridades europeias já classificaram o Quênia como exemplo inspirador na agenda climática, destacando a capacidade de transformar recursos naturais em política pública de longo prazo. O reconhecimento reforça a imagem de um país africano que busca não apenas reagir aos impactos das mudanças climáticas, mas também liderar soluções.

Uma matriz energética limpa, mas ainda desigual

Os números sustentam parte desse discurso. Dados oficiais indicam que mais de 80% da eletricidade gerada no país já vem de fontes renováveis, com a geotermia respondendo por aproximadamente metade da produção. Hidrelétricas, parques eólicos e usinas solares completam a matriz, tornando o sistema elétrico queniano um dos mais limpos do mundo em termos proporcionais.

Apesar disso, a vitrine tem fissuras importantes. A capacidade total instalada do país ainda é limitada quando comparada à demanda de grandes economias, e cerca de um quarto da população segue sem acesso regular à eletricidade, sobretudo em áreas rurais. Além disso, milhões de famílias continuam dependentes da lenha e do carvão vegetal para cozinhar, o que contribui para o desmatamento, a poluição doméstica e problemas de saúde pública.

É nesse contexto que o governo tenta ampliar sua projeção internacional. O presidente William Ruto estabeleceu a meta de suprir toda a demanda elétrica do país com fontes limpas até 2030 e assumiu protagonismo diplomático ao representar a África em grandes encontros globais sobre o clima. A estratégia é clara: posicionar o Quênia como porta-voz climático do continente e atrair investimentos internacionais para financiar essa transição.

Foto: Philipp Sandner/DW
Foto: Philipp Sandner/DW

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Transporte elétrico avança, mas enfrenta resistência

A política climática do governo não se limita à geração de energia. Um dos focos está na eletrificação do transporte, especialmente dos motociclistas e triciclos que dominam a mobilidade urbana e rural. Esses veículos representam a maior parte da frota nacional e são responsáveis por uma fatia significativa das emissões nas cidades.

A iniciativa ganhou visibilidade simbólica com o uso de veículos elétricos por autoridades e com campanhas públicas de reflorestamento, que incluem metas ambiciosas de plantio de árvores. No entanto, na prática, a transição avança de forma desigual. Empresários do setor relatam dificuldades para convencer motoristas a adotar modelos elétricos, que ainda enfrentam desconfiança quanto à autonomia, à durabilidade das baterias e ao custo inicial.

A falta de incentivos fiscais consistentes, infraestrutura de recarga limitada e linhas de financiamento acessíveis são apontadas como entraves centrais. Estudos acadêmicos recentes indicam que, apesar do enorme potencial renovável, falhas na implementação de políticas públicas e na coordenação institucional retardam a consolidação do setor.

O paradoxo nuclear e as escolhas do futuro

Talvez a maior contradição da narrativa verde esteja nos planos de construção de uma usina nuclear. Mesmo com a maior parte de sua eletricidade já proveniente de fontes limpas, o Quênia estuda implantar um projeto nuclear de grande porte, avaliado em bilhões de dólares. A proposta enfrenta resistência popular, especialmente em regiões costeiras e próximas a grandes corpos d’água, onde comunidades temem impactos ambientais, riscos à saúde e efeitos sobre atividades tradicionais como a pesca.

Organizações ambientalistas alertam para ameaças à biodiversidade e para a complexidade da gestão de resíduos radioativos. Especialistas também questionam os custos elevados, os longos prazos de implementação e a compatibilidade do projeto com a estratégia climática que o país promove internacionalmente.

O debate revela a encruzilhada queniana. De um lado, um país que se consolida como referência africana em energia limpa e diplomacia climática. De outro, a pressão por crescimento econômico acelerado, diversificação energética e universalização do acesso à eletricidade. Entre o vapor que emerge do Vale do Rift e as águas sensíveis do Lago Vitória, o Quênia constrói seu futuro energético sob os olhos atentos do mundo — admirado, questionado e ainda em transformação.