Raios em alta: o Brasil sob a eletricidade do clima
O Brasil já convive historicamente com uma impressionante atividade elétrica atmosférica. Em média, o país registra entre 77,8 e 78 milhões de raios por ano, liderando o ranking mundial. Mas o que antes era tratado como característica natural de um território tropical começa a ganhar contornos mais preocupantes. Pesquisas do Grupo de Eletricidade Atmosférica, o ELAT, vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, indicam que as mudanças climáticas estão alterando a dinâmica dessas descargas e podem elevar o total anual para 100 milhões nas próximas décadas.

O aumento não é apenas estatístico. Ele se traduz em riscos ampliados à vida humana, à infraestrutura urbana, ao sistema elétrico e aos ecossistemas naturais. O Brasil registra cerca de 110 mortes por ano causadas por raios, somando mais de 2 mil vítimas na última década. Em um cenário de aquecimento global, esse número pode crescer se não houver adaptação e prevenção.
A física do calor: como o aquecimento intensifica tempestades
A formação de raios depende de um ingrediente básico: instabilidade atmosférica. Quanto mais quente e úmido o ar, maior a probabilidade de ele subir rapidamente e formar nuvens do tipo cumulonimbus, responsáveis por tempestades intensas. O aquecimento global funciona como um acelerador desse processo.
Segundo o ELAT, há uma hipótese científica consistente de que cada grau adicional na temperatura média global pode elevar a incidência de raios no planeta. No Brasil, a projeção aponta crescimento progressivo ao longo do século, com tendência de intensificação especialmente nas regiões mais quentes e úmidas.
As ondas de calor ajudam a explicar esse mecanismo. Durante esses eventos, o tempo costuma permanecer seco e abafado. Mas quando a massa de ar quente perde força e encontra umidade disponível, cria-se um ambiente explosivo para tempestades severas. Especialistas têm observado picos elevados de descargas elétricas logo após períodos de calor extremo, como se a atmosfera acumulasse energia e a liberasse de forma abrupta.
Essa combinação de calor intenso e instabilidade também favorece fenômenos extremos como chuvas torrenciais, vendavais e até tornados, principalmente no Sul do país. O resultado é uma atmosfera mais volátil, com maior frequência de eventos intensos concentrados em curtos períodos.

El Niño, La Niña e a dança dos ciclos climáticos
Além da tendência de longo prazo associada ao aquecimento global, a atividade de raios no Brasil também oscila de acordo com fenômenos de variabilidade climática, como El Niño e La Niña. Esses ciclos, ligados às temperaturas das águas do Pacífico Equatorial, alteram padrões de circulação atmosférica e influenciam a convecção sobre o território brasileiro.
Em anos de El Niño, a convecção tende a diminuir em partes das regiões tropicais, o que pode reduzir a incidência de raios em determinadas áreas. Já durante episódios de La Niña, a atmosfera costuma apresentar maior instabilidade, favorecendo tempestades mais frequentes. Não por acaso, anos que registraram recordes de mortes por raios no Brasil, como 2001 e 2008, coincidiram com eventos de La Niña.
Essa alternância mostra que os raios não respondem apenas ao aquecimento gradual do planeta, mas também à interação complexa entre ciclos naturais e mudanças induzidas pelo homem. O desafio científico é entender como essas forças se combinam em um cenário climático cada vez mais alterado.
Urbanização, poluição e ilhas de calor
Se o clima global cria o pano de fundo, as cidades brasileiras acrescentam novos elementos à equação. A urbanização intensifica o fenômeno das ilhas de calor, elevando temperaturas locais entre 4°C e 11°C acima das áreas rurais vizinhas. Superfícies como asfalto, concreto e telhados acumulam calor ao longo do dia e o liberam lentamente à noite, mantendo o ar urbano aquecido.
Esse calor adicional impulsiona a convecção forçada. O ar quente sobe com mais intensidade, carrega umidade e favorece a formação de nuvens carregadas. Estudos do ELAT indicam forte correlação entre adensamento urbano e aumento na incidência de descargas elétricas. Municípios com mais de 200 mil habitantes apresentam crescimento significativo de tempestades em comparação a regiões menos urbanizadas.
A poluição atmosférica atua como catalisador desse processo. Partículas em suspensão funcionam como núcleos de condensação, facilitando a formação de gotas de água nas nuvens. Além disso, esses aerossóis absorvem e reemitem energia térmica, reforçando o aquecimento local. O resultado é uma atmosfera mais instável e propensa a tempestades.
Em casos extremos, como grandes queimadas, a combinação de calor intenso e emissão maciça de partículas pode gerar nuvens do tipo pyro-cumulonimbus. Essas formações associadas ao fogo têm potencial para produzir novos raios, criando um ciclo perigoso de ignição e propagação de incêndios.

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Impactos ambientais e riscos crescentes
O aumento na incidência de raios não afeta apenas áreas urbanas. Nos ecossistemas naturais, as descargas elétricas desempenham papel relevante na dinâmica ambiental. No Pantanal, por exemplo, os raios são responsáveis por cerca de metade das cicatrizes de incêndio durante o verão, mesmo que a maioria dos focos tenha origem humana. Em um clima mais quente e seco, o potencial de ignição natural tende a crescer.
Na Amazônia, os raios contribuem para a mortalidade de árvores de grande porte, influenciando a estrutura da floresta. Mudanças na frequência dessas descargas podem alterar a dinâmica de regeneração e composição vegetal, com efeitos indiretos sobre biodiversidade e estoque de carbono.
Nas cidades, o impacto recai sobre redes elétricas, telecomunicações e segurança pública. Edifícios altos, torres e antenas tornam-se alvos preferenciais das descargas. O custo econômico inclui interrupções de energia, danos a equipamentos e prejuízos a atividades produtivas.
Diante desse cenário, o monitoramento científico ganha relevância estratégica. O INPE, por meio do ELAT, mantém redes de detecção capazes de mapear em tempo real a atividade elétrica no território nacional. Esses dados são essenciais para aprimorar sistemas de alerta, orientar políticas de prevenção e planejar infraestrutura resiliente.
A trajetória dos raios no Brasil reflete a complexidade do momento climático atual. Não se trata apenas de mais tempestades, mas de uma atmosfera que responde de forma mais intensa ao calor acumulado. Entre ciclos naturais, urbanização acelerada e aquecimento global, o país enfrenta o desafio de conviver com um céu cada vez mais elétrico.












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