Caminhos de gigantes: o Brasil segue os passos da maior tartaruga marinha do planeta
O Brasil passou a acompanhar, com precisão inédita, as longas rotas oceânicas da tartaruga-de-couro, a maior espécie de tartaruga marinha do mundo e uma das mais ameaçadas de extinção. Pelo segundo ano consecutivo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama coordena um projeto de telemetria satelital que rastreia fêmeas da espécie durante e após a temporada de desova na Reserva Biológica de Comboios, no Espírito Santo. A iniciativa revela não apenas os caminhos percorridos por esses gigantes do oceano, mas também os riscos crescentes impostos pelas atividades humanas no ambiente marinho.

O Projeto de Monitoramento da Tartaruga-de-Couro por Telemetria Satelital (PMTTS) integra condicionantes do licenciamento ambiental federal para atividades de pesquisa sísmica marítima na Bacia de Campos. Seu objetivo central é compreender como a espécie interage com empreendimentos de exploração de petróleo e gás, além de identificar áreas sensíveis que exigem maior atenção das políticas públicas ambientais.
A desova como ponto de partida de uma jornada transoceânica
Classificada como criticamente em perigo no Brasil pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, a tartaruga-de-couro, de nome científico Dermochelys coriacea, retorna todos os anos às praias onde nasceu para dar continuidade ao seu ciclo reprodutivo. Na Rebio Comboios, esse ritual ancestral ocorre entre setembro e dezembro e envolve um número alarmantemente reduzido de indivíduos: cerca de 14 fêmeas por temporada.
Durante o ciclo reprodutivo de 2025, sete novas fêmeas foram identificadas e marcadas com transmissores via satélite. A instalação dos dispositivos ocorre no momento da desova, com manejo cuidadoso, iluminação mínima e técnicas que evitam qualquer alteração no comportamento do animal. O equipamento é fixado na quilha do casco e não compromete a mobilidade da tartaruga, seja em terra ou em mergulhos profundos.
Cada sinal emitido após a desova revela um mapa impressionante. Algumas fêmeas já monitoradas percorreram milhares de quilômetros, passando pela foz do rio da Prata, entre Argentina e Uruguai, e alcançando áreas oceânicas próximas ao arquipélago de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul. Esses deslocamentos demonstram que a conservação da espécie ultrapassa fronteiras nacionais e exige cooperação internacional.
Ciência aplicada para reduzir riscos e orientar decisões públicas
A telemetria satelital é uma ferramenta estratégica para a conservação de espécies altamente migratórias. Ao acompanhar os deslocamentos das tartarugas-de-couro, os pesquisadores conseguem identificar áreas de alimentação, rotas migratórias e zonas de maior sobreposição com atividades humanas, como pesca industrial e tráfego de embarcações.
O PMTTS é executado desde 2024 pela Fundação Projeto Tamar, sob supervisão do Centro Tamar e do ICMBio, com acompanhamento técnico das equipes de licenciamento ambiental do Ibama. Os dados coletados subsidiam relatórios técnicos que orientam decisões governamentais, incluindo ajustes em operações marítimas, definição de períodos de restrição e aprimoramento de medidas mitigadoras.
Esse tipo de monitoramento é essencial em um cenário de intensificação das pressões sobre o oceano. A interação com embarcações, a captura incidental em redes e espinhéis, a poluição plástica e as mudanças climáticas figuram entre as principais ameaças à sobrevivência da espécie. Em alguns casos, tartarugas foram encontradas com vários quilos de plástico no estômago, resultado da ingestão de resíduos confundidos com águas-vivas, seu principal alimento.

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Um gigante vulnerável e essencial ao equilíbrio dos oceanos
Apesar de poder atingir até 2,1 metros de comprimento e pesar cerca de 900 quilos, a tartaruga-de-couro é extremamente vulnerável. Sua maturidade sexual só ocorre após os 20 anos de idade, e o ciclo reprodutivo se repete a cada dois ou três anos. Cada fêmea realiza, em média, seis desovas por temporada, depositando cerca de 80 ovos por ninhada em ninhos que ultrapassam um metro de profundidade.
Ainda assim, estima-se que apenas um em cada mil filhotes chegue à fase adulta. A iluminação artificial nas praias, a ocupação desordenada do litoral, a presença de animais domésticos e a coleta ilegal de ovos comprometem severamente esse delicado processo.
A importância da espécie vai além de sua sobrevivência individual. A tartaruga-de-couro desempenha papel central no controle das populações de águas-vivas, na ciclagem de nutrientes e na manutenção da saúde dos ecossistemas marinhos. Como animal migratório, transfere energia entre ambientes costeiros e oceânicos profundos, sendo considerada uma verdadeira engenheira do ecossistema.
Comboios: um santuário natural sob vigilância permanente
Criada em 1984, a Reserva Biológica de Comboios, gerida pelo ICMBio, é um dos mais importantes refúgios das tartarugas marinhas no Brasil. Localizada na foz do rio Doce, a unidade de conservação abriga, além da tartaruga-de-couro, outras espécies ameaçadas, como a tartaruga-cabeçuda e pequenos cetáceos, como a toninha.
O monitoramento contínuo da área, realizado há mais de quatro décadas pelo Projeto Tamar, ajudou a conter impactos da ocupação humana, como construções irregulares, tráfego de veículos e iluminação artificial. Esse esforço revela que a proteção efetiva depende da combinação entre ciência, gestão pública e fiscalização.
Ao seguir os caminhos desses gigantes do oceano, o Brasil amplia seu entendimento sobre a vida marinha e reafirma que conservar a biodiversidade é também proteger serviços ecológicos essenciais, economias locais e o equilíbrio climático global.












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