Reciclagem redefine destino do entulho nas cidades

Reprodução - Abrecon
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Cidades que transformam entulho em insumo urbano

A reciclagem deixou de ser apenas um conceito ambiental e passou a orientar decisões estruturais nas cidades brasileiras. No caso dos resíduos da construção civil, tradicionalmente vistos como passivo urbano, algumas administrações municipais têm demonstrado que o entulho pode ser convertido em ativo estratégico. São Paulo e Jundiaí, ambas no estado de São Paulo, adotaram caminhos distintos, mas convergentes em um ponto central: reduzir desperdícios, economizar recursos públicos e fechar ciclos produtivos dentro do próprio território.

Na capital paulista, que produz cerca de 17 mil toneladas diárias de resíduos da construção civil, a escala do problema impôs soluções normativas e operacionais robustas. A prefeitura estabeleceu a obrigatoriedade do uso de agregados reciclados em obras de pavimentação contratadas pelo município. A medida altera a lógica tradicional das obras públicas ao substituir parte da brita natural por material reaproveitado, reduzindo a extração mineral e a pressão sobre aterros.

Além da pavimentação, o material reciclado passa a compor concretos não estruturais, argamassas e preenchimentos de valas para instalações subterrâneas. A cidade estruturou uma rede de Ecopontos para pequenos volumes e Áreas de Transbordo e Triagem para grandes geradores. Em algumas dessas unidades, o entulho é beneficiado e retorna ao mercado como insumo.

Essa política dialoga diretamente com as diretrizes estabelecidas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que prevê prioridade à não geração, redução e reaproveitamento antes da disposição final. A reciclagem, nesse contexto, deixa de ser alternativa periférica e passa a compor o planejamento urbano.

Jundiaí e o modelo de rastreabilidade total

Enquanto São Paulo opera na escala metropolitana, Jundiaí consolidou um modelo de gestão integral. Desde 2013, o município afirma reciclar 100% do resíduo de construção civil gerado localmente, cerca de 15 mil toneladas por mês. O diferencial está na centralização e no controle digital.

Todo o material é encaminhado ao Centro de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, conhecido como Geresol. Ali, o entulho é triado, triturado e transformado em seis subprodutos: areia reciclada, pedrisco, bica corrida, pó de pedra, pedra 1 e pedra 3. Esses materiais abastecem obras públicas, como cobertura de estradas não pavimentadas e produção de concreto.

O sistema utiliza georreferenciamento para acompanhar o trajeto das caçambas desde a origem até o descarte final. A digitalização permite fiscalização eficiente e reduz descarte irregular. O resultado também aparece nos números: a profissionalização do processo reduziu o custo operacional anual do programa de resíduos de aproximadamente 20 milhões para 11,8 milhões de reais.

A experiência de Jundiaí demonstra que a reciclagem pode ser estruturada como política pública integrada, combinando tecnologia, planejamento e reaproveitamento industrial.

Reprodução - Pref. Jundaí
Reprodução – Pref. Jundaí

Tijolos plásticos e novas fronteiras da construção

A reciclagem também avança para além do reaproveitamento mineral. Iniciativas que utilizam plástico 100% reciclado na produção de blocos modulares vêm sendo avaliadas para programas de habitação popular. A proposta combina economia circular e inovação construtiva.

Os blocos são montados por encaixe, em sistema semelhante a peças modulares, o que reduz drasticamente o tempo de obra. Uma unidade habitacional pode ser erguida em menos de duas semanas, restando apenas a instalação elétrica e hidráulica. A obra se torna mais limpa, com menor uso de água, cimento e argamassa.

Especialistas apontam que sistemas modulares podem gerar economia de 20% a 35% no custo total da construção, sobretudo pela redução de desperdícios e ganho de escala industrial. Além disso, o uso de resíduos plásticos fortalece cadeias de coleta seletiva e cria oportunidades de renda para cooperativas de catadores.

Ainda assim, a adoção em larga escala depende de avaliações técnicas rigorosas quanto a desempenho térmico, acústico e resistência ao fogo. A incorporação desses sistemas em programas habitacionais exige compatibilidade com normas técnicas e padrões de segurança.

Divulgação/Conceptos Plástico
Divulgação/Conceptos Plástico

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PNRS e o arcabouço da economia circular

No pano de fundo dessas iniciativas está a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/2010. A legislação estabeleceu princípios como responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e reconhecimento do resíduo como bem econômico.

Um dos instrumentos centrais é a logística reversa, que obriga fabricantes e importadores a estruturarem sistemas de retorno para embalagens e produtos pós-consumo. Outro mecanismo recente é o mercado de créditos de reciclagem, regulamentado pelo Decreto nº 11.044/2022, que permite às empresas comprovar a destinação ambientalmente adequada de volumes equivalentes às embalagens colocadas no mercado.

A política também prevê a inclusão social de catadores e suas organizações, integrando-os formalmente à cadeia de gestão. Nesse sentido, a reciclagem deixa de ser apenas questão ambiental e assume dimensão social e econômica.

O conjunto dessas experiências mostra que o debate sobre resíduos da construção civil não se limita ao descarte. Ele envolve planejamento urbano, inovação tecnológica, redução de custos públicos e reorganização de cadeias produtivas. A reciclagem, quando incorporada ao desenho institucional e às decisões orçamentárias, redefine o papel das cidades na transição para uma economia circular.