Reciclagem nas escolas públicas impulsiona renda e cidadania

Foto: Ag. Pará
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Reciclagem como motor de transformação social nas escolas públicas

A reciclagem deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ocupar um espaço estratégico nas políticas de educação pública. Em diversas regiões do país, a coleta seletiva implementada dentro das escolas se transformou em uma engrenagem social capaz de movimentar renda, fortalecer cooperativas e ampliar a consciência ambiental de toda a comunidade. O que antes era visto apenas como descarte adequado de resíduos hoje representa um circuito econômico e pedagógico que conecta estudantes, catadores e poder público.

Em Belo Horizonte, experiências na Regional do Barreiro demonstram como a articulação entre escolas e cooperativas altera realidades concretas. O material reciclável separado pelos alunos é encaminhado a grupos organizados de catadores, que transformam o chamado lixo seco em fonte de sustento. O fluxo constante de resíduos garante previsibilidade financeira e contribui para que famílias em situação de vulnerabilidade tenham renda mensal mais estável. A reciclagem, nesse contexto, não é apenas um gesto ecológico, mas uma política de inclusão produtiva.

Parcerias estruturadas e valorização das cooperativas

A relação entre escolas e cooperativas não se resume à entrega de materiais. Quando há planejamento e orientação técnica, o processo agrega valor ao resíduo. Projetos de extensão universitária, como os desenvolvidos pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), orientam cooperados sobre procedimentos de limpeza, separação e compactação. Essas práticas aumentam o preço de venda dos materiais no mercado reciclador, ampliando a margem de lucro.

A regularidade do volume coletado também faz diferença. Diferentemente da coleta informal nas ruas, a parceria com instituições de ensino garante fluxo previsível. Para os catadores, isso significa menos tempo buscando material e mais eficiência na triagem. Em alguns casos, a própria escola ou universidade oferece apoio logístico, disponibilizando caminhões ou equipe para transporte até a sede da cooperativa. A redução de custos operacionais impacta diretamente o rendimento final.

Esse modelo encontra respaldo na Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei 12.305/2010, que incentiva a inclusão dos catadores na gestão de resíduos. Ao integrar cooperativas aos sistemas formais de coleta seletiva, a política reconhece o papel econômico e ambiental desses trabalhadores. A reciclagem, assim, se consolida como instrumento de justiça social.

Foto: Ag. Pará
Foto: Ag. Pará

Educação que ultrapassa os muros da escola

A força da reciclagem nas escolas públicas está na capacidade de formar multiplicadores. Crianças e adolescentes não apenas aprendem a separar resíduos; eles levam o hábito para dentro de casa. Em experiências relatadas em Belo Horizonte, estudantes passaram a recolher materiais recicláveis em residências de parentes para contribuir com o volume destinado às cooperativas. O gesto revela como a educação ambiental se transforma em prática cotidiana.

Projetos lúdicos ampliam esse engajamento. Gincanas, campanhas de descarte consciente e desafios criativos estimulam a participação das famílias. Na Escola Técnica Estadual de Francisco Morato, em São Paulo, o projeto RecycleWays mostrou que a reciclagem pode inclusive financiar oportunidades educacionais. Em um único ano, a iniciativa arrecadou R$ 67 mil, sendo R$ 35 mil provenientes da venda de recicláveis. O recurso foi destinado a viagens técnicas e intercâmbios para estudantes de baixa renda, ampliando horizontes acadêmicos.

No Pará, escolas de Marabá adotaram estruturas específicas para armazenar resíduos, como centros de acomodação final. A presença física desses espaços reforça o aprendizado prático. A reciclagem deixa de ser conceito abstrato e se materializa no cotidiano escolar. O resultado aparece na mudança de hábitos: estudantes passam a questionar desperdícios, cobrar práticas sustentáveis e replicar o comportamento em outros ambientes.

Logística reversa e responsabilidade compartilhada

A reciclagem nas escolas também avança sobre resíduos de maior risco ambiental, como pilhas e baterias. Na Escola de Referência em Ensino Médio Frei Epifânio, em Pernambuco, estudantes participaram da criação de coletores específicos confeccionados a partir de galões reutilizados. O processo envolveu pesquisa sobre os impactos de metais pesados, como mercúrio e cádmio, no solo e na água.

A logística reversa exige responsabilidade adicional. Antes de iniciar a coleta, a instituição precisa garantir parceiro capaz de receber e encaminhar corretamente o material para reciclagem especializada. Sem destino final assegurado, o risco é transferir o problema em vez de solucioná-lo. Quando estruturada, porém, a iniciativa evita que resíduos tóxicos sejam descartados no lixo comum e reforça o conceito de economia circular.

A economia circular propõe um ciclo contínuo de reaproveitamento, reduzindo a extração de recursos naturais e as emissões associadas à produção de novos materiais. Estudos indicam que a reciclagem de 80 quilos de plástico pode evitar a emissão de cerca de 50 quilos de dióxido de carbono. Embora o impacto individual pareça modesto, o efeito acumulado de centenas de escolas engajadas cria escala relevante.

Foto: Ag. Pará
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Entre renda e cidadania

A reciclagem nas escolas públicas brasileiras revela um caminho de convergência entre educação, inclusão produtiva e sustentabilidade. Ao organizar a coleta seletiva e estabelecer parcerias com cooperativas, as instituições de ensino ampliam renda, fortalecem economias locais e formam cidadãos conscientes. A transformação começa na sala de aula, mas se espalha pelas ruas, pelas casas e pelos galpões de triagem.

Mais do que separar resíduos, estudantes aprendem sobre responsabilidade coletiva. Catadores deixam a invisibilidade e passam a ser reconhecidos como agentes ambientais essenciais. A reciclagem, nesse cenário, não é apenas técnica de gestão de resíduos. É ferramenta de transformação social que conecta diferentes atores em torno de um propósito comum: reduzir impactos ambientais enquanto se constrói dignidade econômica.